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Favela e indigência

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(O Globo, Merval Pereira, 11/01)

O estudo do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets) mostra que não é o trabalho que explica a renda no Rio, que acompanhou o ritmo medíocre do Brasil nos últimos dez anos. Segundo seu presidente, o economista André Urani, secretário de Trabalho na administração Conde na prefeitura, o que fez o Rio acompanhar a renda nacional "foi uma renda esquisita de aluguel de segunda classe."

"É o fulano do Vidigal que constrói dois barracos para alugar para um pessoal da terra dele que está chegando no Rio". Segundo seu estudo, "o Rio de Janeiro neste período é campeão brasileiro de favelização. Nenhum outro estado se faveliza tanto na última década como o Rio de Janeiro, que já era o mais favelizado".

Essa afirmação é contestada pelos números do Instituto Pereira Passos (IPP), pelo menos em relação à cidade do Rio, onde está concentrada a maioria das favelas do estado.

Segundo Sérgio Besserman, diretor do IPP, entre 1991 e 2000 o número de favelados no município do Rio de Janeiro aumentou em 200 mil, de 882 mil para 1.082 milhão. Ele diz que houve uma melhoria da informação do cadastro da Prefeitura nos últimos anos, o que permite ter um controle mais exato da situação.

O estudo do Iets mostra que o Estado do Rio esconde uma série de realidades diferentes. A melhor situação é a de Niterói, e o município do Rio tem indicadores melhores que o resto do estado. Mas, em termos de dinâmica dos indicadores ao longo da década, quem puxa os números para trás é a Região Metropolitana como um todo, mas, particularmente, a cidade do Rio de Janeiro.

André Urani afirma, com base nos resultados da pesquisa, que o modelo de economia em que se baseiam os principais estados do -país - São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais - está sendo superado por outras economias, que estão se mostrando mais pujantes.

Com a mesma taxa de juros, a mesma taxa de câmbio, a mesma política econômica, ressalta ele, "Santa Catarina registra indicadores absolutamente formidáveis de melhora da qualidade de vida, apesar do crescimento da renda menor que o do Rio de Janeiro". O que acontece lá é que a desigualdade está sendo reduzida brutalmente. "Há um outro modelo de desenvolvimento, que em vez de ser centrado na grande empresa é centrado em redes de micro e pequenas empresas. E há uma ênfase muito maior na qualidade das políticas públicas, particularmente nas políticas sociais".

Santa Catarina foi campeã brasileira da redução da pobreza e da indigência. No Rio de Janeiro, ao contrário, aumentou a indigência, mostra o estudo de Urani. Há uma leve redução da pobreza, mas aumenta a indigência, entendida como extrema pobreza, gente que vive abaixo da metade da linha de pobreza. Segundo Urani, esse aumento se deu "particularmente em dois municípios: Rio de Janeiro e Duque de Caxias". Ele lembra que a situação é preocupante "por que o Brasil reduziu brutalmente seu nível de indigência na última década, e o Rio não".

As mudanças em Santa Catarina estão acontecendo independentemente do partido que esteja no governo. "Eu nunca vi o Espiridião Amin (do PP) falar disso, e o Luiz Henrique (do PMDB) também não sabe disso", diz André Urani. Segundo ele, está acontecendo lá um pouco como aconteceu no Nordeste da Itália a partir dos anos 70. Santa Catarina deliberadamente se inspira nesse modelo italiano, entidades empresariais contrataram consultores.

André Urani diz que há algo parecido com Santa Catarina, "como modelo de desenvolvimento e como resultado", aqui no Estado do Rio. Friburgo vem experimentando nos últimos anos uma melhora nos indicadores sociais e econômicos semelhantes a Santa Catarina. "É lá que está o pólo de confecções de moda íntima, e toda uma ênfase de desenvolvimento local baseado numa rede de pequenas empresas", diz ele.

Outras regiões do estado também progridem, como a Região dos Lagos e o Sul fluminense. Os chamados "Emirados Fluminenses, (Campos, Macaé, Quissamã) ao contrário, foram uma grande decepção". Os dados não são suficientes para garantir que eles estão gastando mal o dinheiro do petróleo, mas os royalties não se transformaram em melhora dos indicadores sociais.

Estamos chegando à conclusão, diz Urani, de que é um problema mais amplo, de superar um modelo de desenvolvimento antigo. "Dá-se ênfase às grandes indústrias: petróleo, telecomunicações. Em Santa Catarina ou em Nova Friburgo, você não nota a presença do estado, nem há grandes projetos estratégicos. Santa Catarina produz é frango, confecções, sapatos. Não produz nem microprocessadores nem avião. Em Friburgo a produção não é de eletro-eletrônico, mas de moda íntima feminina".

André Urani lamenta que "o nosso estado não use bem os meios que tem para promover a melhora da qualidade de vida, tanto em educação quanto em saúde, por exemplo". Segundo ele, o estudo mostra que "no Rio há uma proporção muito elevada, a mais elevada de todas no Brasil, de médicos a cada mil habitantes. Mas não conseguimos traduzir isso numa mortalidade infantil que seja a mais baixa do Brasil".



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