Com a palavra, o Associado

Mauro Magalhães

Um dos deputados eleitos com o menor número de votos em 1962 e um dos mais votados em 66, líder do governo aos 28 anos, companheiro de Carlos Lacerda em suas visitas às obras, boa parte delas no "turno" da madrugada, deputado cassado pelo regime militar em 69, integrante da Frente Ampla - que reuniu Lacerda e Juscelino Kubitschek -, criador do Clube do Rio e um dos fundadores da Riopart, entidades que em muito contribuíram para o desenvolvimento do Rio de Janeiro, um líder respeitado, sem "papas na língua", mineiro de Ponte Nova e carioca desde os nove anos, pai de cinco filhos. Estas são apenas algumas das inúmeras formas de definir Mauro Magalhães, o segundo presidente da Ademi (1978 a 1984), convidado para esta entrevista. Com a palavra, Mauro Magalhães.

Primeiro cassado a assumir uma liderança

"Em 1969, tive o meu mandato cassado. Nove anos mais tarde, fui convidado a ocupar a presidência da Ademi, após dois mandatos de José Carlos Lopes da Costa. O meu antecessor havia vencido de forma brilhante o desafio de criar e consolidar a Ademi. Naquele momento, estávamos sendo muito maltratados pelos militares. Em um almoço com o ministro Mário Henrique Simonsen, o então presidente José Carlos fez um discurso muito contundente, aplaudido de pé pelos presentes. O ministro, que não estava acostumado a cobranças, disse que quem não estivesse satisfeito com a turbulência deveria saltar de pára-quedas. A Ademi, que era a grande liderança do setor, teve cortada, naquele momento, as relações com o governo. Neste cenário, agravado pelo fato de eu ser o primeiro cassado a assumir uma posição de liderança no Brasil, havia um receio de que eu não tivesse acesso aos gabinetes do governo. Mesmo assim, o Conselho votou pela minha eleição. Assumi a presidência em janeiro de 78."

A Casa Branca da Urca

" 'A primeira coisa que eu quero é comprar uma sede para a Ademi'. Assim, eu assumi a presidência da entidade. Tratei de incumbir Conde Caldas, diretor técnico, de procurar uma casa adequada para a Ademi. Busquei financiamento e esbarrei na impossibilidade de obter licença para uso não residencial da casa que consegui, o que já havia afastado o banco Itaú, também interessado pelo imóvel. Tentei em vão com Matheus Schnaider obter uma licença especial para a Ademi. Liguei para o então prefeito Israel Klabin e acabamos concordando em tombar a casa, situada no único lugar não aterrado a beira mar na Zona Sul do Rio de Janeiro, em posição estratégica na entrada da Urca. Garanti que ela seria preservada, que não colocaríamos qualquer tipo propaganda e que não teríamos uma grande circulação de pessoas, típica de unidades comerciais. Juntos elaboramos o decreto de tombamento da casa. Reuni o Conselho da Ademi, composto por 20 associados, e anunciei que ia comprar a casa com financiamento pelo BNH. O conselheiro José Carlos Ourivio disse que concordava com a compra, mas não com o financiamento. Sugeriu que nos cotizássemos para comprar a casa. E assim foi feito. Juntos, compramos a casa à vista."

O Clube do Rio

"Em 1981, criamos o Clube do Rio. Na época, conseguirmos reunir as mais fortes lideranças do Rio -Theóphilo de Azeredo Santos, presidente da Federação Nacional dos Bancos, Ruy Barreto, presidente da Associação Comercial, João Donato, presidente da Firjan, os Bloch, Nascimento Brito, D. Eugenio Salles, entre outros. Nosso objetivo era propor caminhos e cobrar a realização de projetos vitais para o Rio, que não estavam caminhando - a Linha Vermelha, a duplicação do Aeroporto Internacional e a Revitalização do Porto, projetos que, mais cedo ou mais tarde, acabaram por se concretizar. Pelo menos uma vez por mês, o Clube do Rio se reunia para um almoço na casa branca da Urca, sempre seguido de entrevistas com a imprensa. Com o Clube do Rio ganhamos muito destaque. Em um almoço que realizamos em 1981, com o presidente da Petrobrás, Shigeaki Ueki, e sua diretoria, conseguimos colocar a gota d'água que faltava para conquistarmos o direito aos royalties do Petroleo em prospecção no mar. Do Clube do Rio surgiu a idéia de criarmos o Riopart, o primeiro banco de negócios do Rio, que reuniu 100 empresários, líderes de diversos setores."

As grandes lutas

Quando assumi, tomei como bandeira a Resolução 386, que impedia o empréstimo de bancos de investimento à construção - os bancos podiam financiar até a produção de lata de sardinha mas não a indústria da construção. Havia até formas de se conseguir financiamento mas eu continuava brigando por esta bandeira, que fazia com que a Ademi ocupasse os espaços na mídia.

No dia em que fui eleito, solicitei uma audiência com o ministro Simonsen. Falei de uma série de discordâncias que tínhamos com relação ao BNH. Adiantei que sairia do gabinete e continuaria batendo no governo pelos pontos que a Ademi defendia, mas frisei que queria ter acesso ao ministério, que os telefones sempre estivessem livres, para que pudéssemos evitar mal entendidos.

Ainda em 78, dei uma entrevista para O Globo, em que declarei que se o Brasil não mudasse, iríamos passar por uma forte crise social. No dia seguinte, fui chamado ao SNI. Tentaram me intimidar. No dia seguinte, ratifiquei minhas declarações a imprensa"

"Uma época gloriosa"

"Tive a sorte de contar com uma diretoria espetacular e a competente assessoria da Dona Augusta, do Jorge e da Lurdinha - da revista Ademi. A prova disto é que, na seqüência, os diretores Luiz Chor, Carlos Firme e Conde Caldas - este último, o meu braço direito nas duas gestões - foram presidentes da entidade. No início, passamos por uma fase de sérias dificuldades para o mercado. No entanto, os seis anos seguintes ficaram marcados como um dos períodos em que o mercado de construção mais cresceu no Rio. Foi uma época gloriosa para a Ademi."



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Matéria impressa a partir do site da Ademi Rio [http://www.ademi.org.br]