ADEMI em foco

Guggenheim: falta visão

Estou surpreso e entristecido pelo teor de algumas críticas que tenho lido sobre o novo museu Guggenheim Rio no píer da Praça Mauá. Até agora permaneci em silêncio, mas quando os críticos desse projeto apelam para distorções, meias-verdades e a aparente intenção de ignorar os precedentes, as informações e as circunstâncias que envolvem o projeto, e quando muitos dos comentários dirigidos contra o projeto denigrem as realizações, a integridade e a reputação da Fundação Solomon R. Guggenheim, não posso manter-me calado. O museu é a peça central de um desenvolvimento urbano que antecipa nada menos que o renascimento do centro histórico do município. Cesar Maia reconhece um fato básico: o Rio de Janeiro perdeu parte de sua importância, respeito e reconhecimento internacional com a mudança da capital para Brasília, a ascensão econômica e financeira de São Paulo e o deslocamento da indústria naval para o porto de Santos. O modelo para o museu Guggen-heim Rio é o projeto iniciado há uma década na região basca da Espanha, na cidade de Bilbao. No começo da década de 1990, Bilbao era conhecida por suas decadentes indústrias naval e metaleira, bem como por um ambiente urbano lúgubre às margens poluídas do Rio Nervion. Os líderes da cidade sabiam que uma ação ousada era necessária para simplesmente acompanhar o desenvolvimento econômico que transformara Madri, Sevilha e Barcelona em cidades européias modernas, sofisticadas e economicamente viáveis, capazes de competir num mundo cada vez mais internacional e interconectado. O governo basco investiu mais de 3,8 bilhões de euros (14 bilhões de reais) em 14 projetos que visavam a transformar a região, includindo um novo sistema de metrô de 32km de extensão projetado por Norman Foster, um novo terminal para aviões projetado por Santiago Calatrava, um novo centro de convenções e um teatro projetado por Federico Soriano, e um novo museu Guggenheim projetado por Frank O. Gehry. Apesar da importância do somatório dos projetos, foi o museu Guggenheim que arrematou a imaginação internacional; foi o museu Guggenheim que se tornou o símbolo da revitalização do País Basco; e foi o museu Guggenheim que se tornou o ponto de atração para turistas visitando Bilbao. Um estudo recente feito pela firma internacional de contabilidade KPMG estabeleceu que o museu Guggen-heim Bilbao recebeu quase 5,5 milhões de visitantes entre 1997 e 2002, gerou 920 milhões de euros em atividade econômica em Bilbao (dez vezes o custo de construção do museu), produziu 144 milhões de euros em impostos locais (que pagou pelo custo de construção do museu em três anos), criou 4.137 empregos permanentes e gerou uma cobertura internacional de mídia superior a 250 milhões de euros, incentivando um número substancial de investimentos em novos negócios no País Basco. Aparentemente, os críticos do Guggenheim Rio decidiram ignorar os resultados do estudo de viabilidade do projeto, terminado no final do ano passado. As mesmas metodologias de planejamento empregadas em Bilbao em 1991 foram usadas em 2002 para o Rio de Janeiro. O estudo de viabilidade do Rio estabelece uma projeção conservadora para o novo museu: 1 milhão de visitantes no primeiro ano, 230 milhões de reais em impacto econômico anual, 45 milhões de reais em impostos anuais adicionais, 4.000 novos empregos em construção e 5.010 novos empregos permanentes. O reforço na imagem do Rio como centro de cultura da América do Sul aumentará as numerosas atrações da cidade e fará do Rio de Janeiro um destino para visitantes de todo o mundo. O Guggenheim Rio foi concebido como uma parceria com o Museu Hermitage, o Museu de São Petersburgo e o Museu Kunsthistorisches de Viena (KHM). As coleções conjuntas destas três instituições vão do pré-histórico ao contemporâneo, sendo talvez a maior agregação de artefatos culturais do mundo. O valor de US$ 28,6 milhões a ser pago pelo uso e acesso a estas coleções e recursos representa apenas uma fração de seu valor. Qual seria o custo de um novo museu de calibre internacional no Rio, se o governo local tivesse que comprar uma coleção de igual abrangência e qualidade? Tal aquisição, naturalmente, jamais ocorreria, porque não há disponibilidade de tal número de objetos deste valor. A Fundação Guggenheim foi atraída pelo Rio e pelo Brasil por várias razões: admiração pela cultura, a confiança em sua importância futura, e a oportunidade de engajar um continente inteiro num vasto intercâmbio cultural. A cultura latino-americana em geral, e a cultura brasileira em particular, estão entre as mais ricas do mundo. No entanto, permanecem pouco compreendidas e pouco representadas nos museus da América do Norte e da Europa. O Guggenheim, na sua condição de único museu verdadeiramente internacional, tem um profundo interesse em engajar o Brasil em um novo diálogo cultural norte-sul. Nossa esperança é exibir arte sul-americana de maneira mais abrangente e sistemática na América do Norte e na Europa do que tem ocorrido até agora. O plano de Cesar Maia de revitalização da área portuária, do qual o novo museu Guggenheim será a peça central, é inteiramente lógico e de acordo com a tradição visionária que faz parte da História do Brasil. Ao pesquisar a possibilidade de um Guggenheim no Brasil, encontramos mais de uma vez com o famoso arquiteto Oscar Niemeyer, cujo plano para Brasília marcou a imaginação do mundo inteiro na década de 1960. Em minha opinião, a utilização pelo prefeito Cesar Maia de uma arquitetura de projeção internacional, como a de Jean Nouvel, que funcionará como catalisadora da renascença da área portuária histórica, lembra a encomenda do presidente Juscelino Kubitschek a Niemeyer. Todas a vozes contra o projeto Guggenheim Rio merecem ser ouvidas, mas, em última análise, é impossível para mim imaginar que o país que criou uma nova capital no interior do Brasil não tenha o desejo de prosseguir com o plano do prefeito Cesar Maia, pois esse plano é uma expressão do espírito que define a alma do país.

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Matéria impressa a partir do site da Ademi Rio [http://www.ademi.org.br]