ADEMI em foco

Um aeroporto para ou contra nós?

Temos um aeroporto de nível internacional, no Galeão, cujo projeto original incluía quatro alas. Ele foi pensado e construído para ser um "hub" - um centro de atividade, um ponto focal de tráfego aéreo, adequado para conexões e instalações das empresas. Uma das alas foi reformada em 1992 (para a conferência Rio 92), com ampliação da área de bagagens, mais escadas rolantes, etc. Alguns anos depois, foi completado o Terminal 2, também com excelentes instalações, comparáveis às mais modernas do mundo. Mas hoje esse Terminal 2 tornou-se um gigantesco elefante branco, dia e noite praticamente deserto, enquanto o próprio Terminal 1 está visivelmente subutilizado, servindo a um movimento de vôos muito abaixo do nível de quatro ou cinco anos atrás. Como se explica que diante desse quadro, e num momento em que o governo federal dispõe de escassos recursos para infra-estrutura de transportes, esteja em andamento uma obra de ampliação do Santos Dumont que prejudica a grande maioria da população do Rio de Janeiro? A vocação natural do Santos Dumont tem sido historicamente a de ser o "aeroporto de negócios" da cidade, com acesso rápido para pessoas que saem do Centro para rápidas viagens a São Paulo, Belo Horizonte, Vitória, Campos e Vale do Paraíba, em vôos de carreira, aviões executivos, táxis aéreos, etc. Sempre foi um aeroporto para aviões pequenos - de Viscounts, Samurais e Hirondelles a Fokkers, versões menores da Boeing, turbo-hélices ou jatos da Embraer. A rota dominante era, naturalmente, Rio-São Paulo, com vôos em curtos intervalos. Mas o Centro do Rio enfraqueceu-se com o fim da Bolsa e mudanças de corretoras, bancos e outras empresas para outros estados, como também para outros bairros do Rio, especialmente a Barra. Essas mudanças aumentam a atratividade do Tom Jobim, porque, para as empresas (e público em geral) sediadas na Barra, os chamados bairros da Central e da Leopoldina, Baixada Fluminense e até uma boa parte da Tijuca e de Vila Isabel - ou seja, para a grande maioria dos usuários de transporte aéreo - o aeroporto do Galeão se tornou mais acessível do que o Santos Dumont. A redução de vôos no Galeão também se deve a mudanças, muitas vezes estranhas, em rotas nacionais e internacionais. Na maioria dos vôos para América do Norte e Europa, quem sai do Rio é obrigado a ir antes para São Paulo - sentido inverso ao destino final. Seria menos dispendioso, em tempo, combustível, horas de trabalho das tripulações, desgaste mecânico, etc. Não seria mais lógico que os passageiros de São Paulo e do sul do país fossem trazidos para o Rio e daqui partissem para seus destinos? E há também, dentro do país, rotas inexplicáveis de vôos procedentes de Salvador ou Recife com destino a cidades do sul (as aberrações desse tipo são muitas), que, em vez de uma escala no Rio, fazem uma rota via Brasília, transtornando e atrasando a vida da maioria dos passageiros. Já ouvi o argumento de que os usuários preferem o Santos Dumont porque o check-in e o despacho/liberação de bagagens são mais rápidos do que no Tom Jobim. Isso talvez seja verdadeiro nos casos de passageiros que viajam sozinhos ou com apenas uma valise. Mas quem já assistiu ao embarque de uma banda de rock ou grupo de turistas no Santos Dumont tem uma boa idéia de que o argumento não se sustenta. Até porque a redução do tempo de despacho no Tom Jobim seria facilmente obtida com fáceis e rápidas medidas da direção do aeroporto. Se o Santos Dumont voltasse à sua vocação original, incluindo dois ou três vôos para Brasília, seria talvez o mais bonito e confortável do mundo, sem confusão de táxis nem mendigos cercando passageiros. A verdade é que o carioca e o Rio não se manifestaram sobre a obra no Santos Dumont, embora sejam os grandes prejudicados. A maior concentração dos 35 a 40 vôos Rio-São Paulo e 22 Rio-Brasília (em cada sentido) se dá, é claro, nos horários de rush - de manhã e no fim da tarde. Ninguém ainda fez a conta dessa contribuição aos cada vez mais insuportáveis congestionamentos de trânsito, que enfrentamos pelos naturais e esquisitos aumentos de veículos nas ruas do Rio. Digo esquisitos, porque ninguém consegue explicar a razão de tantos ônibus, vans e táxis trafegando vazios. Além disso, não se pode deixar de levar em conta os constantes fechamentos do Santos Dumont por conta de nevoeiro ou mau tempo. O problema é insolúvel, porque suas pistas são paralelas, limitadas pela área disponível e ambas apontam para o Pão de Açúcar. O Tom Jobim tem pistas cruzadas (permitindo aproximações de qualquer direção) e mais longas. Para um dia a capacidade do Santos Dumont ser igual, teríamos de derrubar pelo menos um bom pedaço do Pão de Açúcar, provavelmente incluindo o bondinho. P.S.: O Santos Dumont foi inicialmente projetado para receber 2 milhões de passageiros/ano. Atualmente, recebe 5,5 milhões e esse número deve aumentar pelo menos 50% no fim da obra. A nova área vai ter 136 pontos comerciais (um verdadeiro shopping, amigos!).

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Matéria impressa a partir do site da Ademi Rio [http://www.ademi.org.br]