ADEMI na Imprensa

Passagem, que nada! Botafogo é para morar

Jornal do Brasil, Renato Grandelle, 27/maio

O tráfego é lento na Rua da Passagem. Não são apenas sinais vermelhos que interrompem o fluxo de carros e ônibus. Caminhões que descarregam materiais parecem se multiplicar pela via, exigindo paciência dos motoristas. O martelar das obras completa o cenário. No levantar da poeira que atinge parte do bairro, Botafogo se renova e atrai moradores com um cardápio cada vez mais amplo. Da proximidade de serviços ao custo generoso dos imóveis, se comparado ao resto da Zona Sul, tudo parece fazer o bairro subir no ranking das contruções - assim como na preferência do carioca.

A partir do fim do ano que vem, o carro de Maria José Cabral também vai circular pela Rua da Passagem. A economista comprou, ainda na planta, um apartamento na via.

- Por ainda abrigar novas construções, Botafogo tem preços mais baixos do que os bairros vizinhos - comemora. - Vou morar perto do comércio, da Praia de Copacabana e sem precisar encarar tanto trânsito como agora, do trabalho em Botafogo para minha casa, no Grajaú.

A área licenciada para novas construções na região aumentou 15 vezes em apenas um ano, segundo a Secretaria Municipal de Urbanismo, chegando a 46 mil m² - o equivalente a cinco campos de futebol.

- À exceção da praia, o preço do metro quadrado em Botafogo é muito parecido ao da Barra - destaca o vice-presidente da construtora RJZ/Cyrela e da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi), Rogério Zylbersztajn. - Uma das maiores diferenças é o acesso aos transportes. Com a extensão do metrô ao Cantagalo, o bairro ficou ainda mais próximo de Copacabana e Ipanema.

Zylbersztajn já ergueu cerca de 25 prédios no bairro, onde está com sua construtora há 12 anos. O próximo empreendimento já tem local confirmado: será na Rua Assunção e terá apenas apartamentos com quatro suítes. A via, antes repleta de oficinas mecânicas, ganha aos poucos uma nova cara. O mesmo acontece do outro lado do bairro, na Rua Visconde Silva, onde é o casario abandonado que dá lugar à nova classe média botafoguense.

Os recém-chegados ao bairro têm mesmo o bolso mais cheio. O mercado imobiliário calcula que a renda familiar média dos compradores hoje ultrapassa R$ 10 mil. É quatro vezes mais do que o rendimento médio dos chefes de família da região em 2000.

Junto ao salário, a lista de exigências também cresceu. Além de segurança e lazer, os novos moradores, em bairros mais grã-fínos, querem contemplação e serviços. Para quem não entendeu, é só ver a descrição do Grandiife, prédio a ser entregue pela RJZ em dezembro. O projeto conta com ofurô, espaço gourmet e sala de massagem, entre outros que tais.

O trânsito não foi o único a levar os caprichos dos condomínios da Barra aos playgrounds botaguenses. Leblon e Ipanema, lares da elite carioca, tomaram-se caros demais e estão cercados de imóveis tombados, problema que ainda não aflige áreas mais antigas da Zona Sul.

- O terreno e o gabarito ficaram muito restritos em bairros vizinhos - lembra Regina Chiaradia, presidente da Associação de Moradores de Botafogo. - Somos a coqueluche do momento.

Para o centro comercial do bairro, atrair "forasteiros" não é novidade. Formado por respeitosos 42 quarteirões, a capital das compras na Zona Sul tem a bênção de quem anda por lá, segundo estudo realizado pela Fecomércio há quatro anos. Quase 70% dos usuários ouvidos no levantamento afirmam gostar de bater pé pela região.

Nos próximos meses, o bairro receberá mais dois supermercados - um ao lado dó shopping Rio Sul, outro na Rua General Polidoro. Segundo os consumidores ouvidos na pesquisa, o estabelecimento é a atividade comercial que mais fazia falta em Botafogo.

Quem trabalha no centro comercial do bairro está tão satisfeito quanto seus usuários: 66% aprovam o ponto em que se fixaram, e 82% dos empresários consideram o local bom ou regular para seus negócios.

- Ao contrário do que dizem, nosso bairro nunca foi apenas de passagem - pondera Marcelo Ferreira, presidente da Associação das Empresas de Botafogo. -Os novos empreendimentos trouxeram grifes famosas para os shoppings e tornaram comércio e indústria mais dinâmicos.

Frequentador assíduo da Cobal do Humaitá, onde costuma almoçar, o músico brasiliense Rogério Caetano, que trocou Lagoa por Botafogo há dois anos, não quer saber de outro endereço no Rio.

- Consigo fazer quase tudo sem ter de tirar o carro da garagem -conta. - Gosto de andar e ver o bairro todo arborizado e com cada vez mais gente nova. Botafogo é assim, sempre acessível.

Moradores reclamam da falta de infra-estrutura

O crescimento de Botafogo enche os olhos dos moradores do bairro, mas também provoca desconfiança. A falta de intervenções do poder público é indicada como o elo fraco da expansão, podendo transformar o desenvolvimento em dor de cabeça.

- A infra-estrutura é nossa única dificuldade. Nenhuma mudança foi feita nos últimos 50 anos - acusa Marcelo Ferreira, presidente da Associação das Empresas de Botafogo. - Na Rua Mena Barreto há um recuo já aprovado pela prefeitura, mas falta desapropriar as casas em volta para aumentar a via. Estes descuidos existem em todo o bairro.

Ferreira elege as ruas São demente, Voluntários da Pátria e General Polidoro como as de tráfego mais problemático. Já a presidente da associação de moradores, Regina Chiaradia, preocupa-se com o estado das galerias pluviais e com a falta de adequação das vias à maior circulação de pessoas.

- A prefeitura precisa fazer um novo alinhamento das calçadas -alerta. - Na Rua São Clemente, por exemplo, o espaço é tão pequeno que metade dos pedestres precisa andar na beira da rua.

Regina acusa o projeto Rio Cidade, que passou no bairro em meados dos anos 90, de ter driblado algumas das principais reivindicações:

- A intervenção na galeria de esgotos foi pífia. Não houve planejamento para qualquer expansão.

A coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo da UFRJ, Denise Pinheiro Machado, atribui o boom nas áreas licenciadas para novas construções no bairro ao reconhecimento de seu patrimônio, embora alerte que a arquitetura botafoguense possa ser descaracterizada pela caça do mercado imobiliário a novos terrenos.

- Sem renovação das estruturas, haverá complicações. Não dá para pensar no desenvolvimento sem renovar os sistemas de água, luz, esgoto e transportes.



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