ADEMI em foco

Reciprocidade equivocada

 O governo brasileiro deveria aproveitar a onda de reformas estruturais e o sopro de mudanças que embala o país para rever a política de concessão de vistos de entrada. O Brasil perde uma montanha de dólares, todos os anos, por conta de uma política de reciprocidade equivocada, que só gera prejuízo.
      Como os Estados Unidos, por razões explicáveis, impõem restrições crescentes à entrada de estrangeiros em seu território, o Brasil, com burocracia irracional, eleva automaticamente o grau de dificuldade para a entrada de cidadãos americanos. Ora, o Brasil é um país pacífico, não tem conflito grave com qualquer nação desde a Guerra do Paraguai e não consta que milhares de norte-americanos pretendam entrar aqui clandestinamente para disputar nosso mercado de trabalho.
      Os Estados Unidos restringem o ingresso de estrangeiros, entre outras razões, porque são o mercado de trabalho mais disputado do planeta, a nação que mais consome no mundo, e vivem sob ameaça de ataques terroristas. O Brasil não viveu um 11 de setembro, não invadiu o Iraque ou o Afeganistão nem tem sido obrigado a mediar conflitos internacionais delicados.
      Nenhum país desenvolvido exige visto de entrada para cidadãos americanos. Em toda a América do Sul só o Brasil e a Venezuela criam esse tipo de obstáculo. Os cidadãos ingleses foram obrigados durante muitos anos a obter visto de entrada para visitar os Estados Unidos. Nem por isso a Inglaterra exigiu reciprocidade.
      Para um cidadão norte-americano vir ao Brasil precisa pagar US$ 100 por um visto num consulado brasileiro, além de ser obrigado a cumprir toda uma burocracia. Considerando-se que apenas sete cidades têm consulado brasileiro, nos Estados Unidos, não é difícil imaginar que um número enorme de americanos que gostariam de visitar o Brasil tenha de desistir.
      Há cerca de três anos uma empresa de turismo negociou com o Canadá um pacote que previa um vôo charter por semana para Salvador. Nem o primeiro avião chegou a decolar. O consulado brasileiro em Toronto não tinha estrutura para emitir 300 vistos por semana e não se teve interesse em enviar pessoal extra para cobrir a demanda. Esse é apenas um exemplo do prejuízo que essa burocracia causa ao turismo brasileiro.
      Só quem perde com essa reciprocidade equivocada é o Brasil. Segundo a Embratur, o país recebe pouco mais de 400 mil turistas norte-americanos por ano. E em que pesem todas as dificuldades impostas pelos consulados americanos, mais de 490 mil brasileiros viajam todos os anos para os Estados Unidos, apesar da enorme diferença de poder aquisitivo entre os dois países. Ao saber dos 500 dólares de despesa que uma família dos Estados Unidos gasta com vistos para vir ao Brasil, a indústria do turismo mexicana só tem a agradecer. Mais ainda, a Argentina, que recebe turistas sem vistos.
      Dos 12 milhões de turistas que o México - que não exige visto de entrada - recebe por ano, 8 milhões são norte-americanos. Dos cerca de 4 milhões de turistas estrangeiros que visitam o Brasil, por ano, apenas 400 mil vêm dos Estados Unidos. É um volume modesto, que poderia ser multiplicado por 10, pelos estudos mais conservadores.
      A Embratur calcula que a média de permanência do turista norte-americano no Brasil é de 14 dias. E que cada um deles gasta aqui, em média, US$ 125 por dia. Significa que para cada US$ 100 que um americano se recuse a pagar por um visto, o Brasil perde, pelo menos, US$ 1.750.
      Convenhamos que isso configura um volume de recursos que não podemos nos dar o luxo de desprezar.

Márcio Fortes

Jornal do Brasil, 25 de outubro de 2003



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