ADEMI na Imprensa

Adeus ao novo rico. Barra atrai tradicionais

O Estado de São Paulo, Márcia Vieira, 28/set

Classe A carioca troca Leblon e Ipanema por bairro na zona oeste

Nos anos 1990, a Barra Tijuca, na zona oeste do Rio, virou símbolo dos emergentes com seus 20 quilômetros de praia e largas avenidas no "estilo Miami". Era época de uma nova categoria social, que enriqueceu com negócios na Baixada Fluminense e na zona norte. Para a elite, a exuberância daqueles que gastavam fortunas com decoração beirava a cafonice. Mais de uma década depois, os emergentes caíram no ostracismo e a Barra vive um novo fenômeno ao atrair a classe A. São executivos que deixam Ipanema e Leblon, os bairros mais sofisticados, para morar ao lado das empresas recém-estabelecidas na Barra. Levam uma vida discreta, mas ajudam a elevar o padrão do bairro.

Evandro Ferrer, diretor-superintendente da Ancar Ivanhoe, que administra 15 shoppings no País, não consegue mais imaginar a vida longe da Barra. Ex-morador de Ipanema, ele já passou oito anos em São Paulo. Cansou de enfrentar engarrafamentos para atravessar a cidade e chegar a Alphaville, onde ficava a empresa. Quando voltou ao Rio ainda passou um ano amargando três horas diárias no trânsito até que finalmente, há quatro anos, a Ancar mudou seu escritório para a Avenida das Américas, na Barra. A sala de Ferrer é voltada para um terraço cheio de plantas a céu aberto. Fica a exatos 5 quilômetros de seu apartamento, de frente para o mar.

Ainda é longe demais. Em 2009, ele se muda com a mulher e os dois filhos para o Riserva Uno, condomínio de altíssimo luxo a 1 km da Ancar. O empreendimento, com cinco prédios, tem apartamentos de 550 metros quadrados vendidos a R$ 2,5 milhões. "Quando voltei ao Rio decidi que ia ter qualidade de vida. Não passo mais de dez minutos por dia no carro para ir e voltar do trabalho. Com o tempo ganho, curto a vida, caminho na praia, converso com os meus filhos, vou ao cinema."

Mais do que qualidade de vida, a Barra oferece hoje à classe A apartamentos maiores do que os de Ipanema e Leblon, mais modernos e mais baratos. "Na Barra, apartamentos de alto luxo custam um terço dos imóveis vendidos em Ipanema e Leblon", diz Rogério Zylbersztajn, sócio da RJZ Cyrela. E são mais sofisticados. No Riserva Uno, os apartamentos terão controle via celular. Para tomar banho, os moradores terão banheira com encostos anatômicos e chuveiro com comando em tela de cristal líquido e funções predeterminadas na memória. Além, é claro, de piscina, quadras de tênis, academia de ginástica e outras mordomias.

Segundo a Associação das Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi), nos últimos quatro anos foram lançados 552 apartamentos de alto luxo na Barra. São imóveis com mais de 200 m² e preços acima de R$ 1,5 milhão. No mesmo período, Ipanema não teve nenhum lançamento nesse padrão e o Leblon, apenas 35. "O caminho do luxo hoje é a Barra. Ipanema e Leblon estão estagnados. Na Barra, o mercado vende rápido pelo menos 60% do que é lançado", comemora Zylbersztajn, que já se prepara para a segunda fase do Riserva Uno.

Os apartamentos agora serão de mil m² e preços em torno de R$ 5 milhões. "O mercado está aquecido porque grandes empresas transferiram suas sedes para a Barra", diz Frederico Judice Araujo, sócio da corretora de alto luxo que representa a Christie's no Brasil. "São os executivos dessas empresas que compram apartamentos na faixa de R$ 2 milhões e casas que chegam a até R$ 8 milhões."

A oferta é grande. A procura por mais espaço fez a advogada Andréia Legora, grávida do primeiro filho, trocar uma cobertura de 200 m² de frente para a Praia da Barra por um dúplex às margens da Lagoa da Tijuca, com vista para a Pedra da Gávea. O apartamento com 320 m², cinco suítes e sala com pé-direito duplo é controlado por cartão magnético.

Andréia deixou Bonsucesso, na zona norte, rumo à Barra há dez anos. Acha que encontrou o lugar perfeito para viver. Só lamenta que o bairro tenha sofrido tanto preconceito por causa dos emergentes. "Ficou um estigma que afastou o comércio sofisticado", afirma. "Sinto falta de restaurantes melhores aqui." A lacuna já começou a ser preenchida. Há um ano, o Antiquarius, o melhor restaurante português do Rio, com filial em São Paulo, abriu uma casa no BarraShopping. "Foi um pedido do José Isaac Peres. Ele não queria mais ir até o Leblon", brinca o português Carlos Perico, feliz da vida em ver o restaurante da Barra encher todos os dias. "Foi um excelente negócio para ele", rebate Peres. "O faturamento aqui é o dobro do restaurante do Leblon."

José Isaac Peres é uma espécie de rei da Barra. Sua empresa, a Multiplan, é dona do BarraShopping e do New York City Center, que tem cinemas e restaurantes. Foi ele quem construiu o Centro Administrativo BarraShopping e o Golden Green, condomínio de 14 prédios na praia, uma espécie de ícone do alto luxo no bairro. Desde 1996, Peres trocou Ipanema pelo Golden Green. Com campo de golfe, o condomínio atraiu desde jogadores de futebol - Ronaldo Fenômeno e Romário moram lá - até banqueiros, como Salvatore Cacciola, que hoje cumpre pena em Bangu 8.

Peres manteve seu escritório no centro do Rio até 2001. Cansou do trânsito. "Ficava uma hora e meia no engarrafamento. Tinha de pegar helicóptero." Agora, só vai ao centro quatro vezes por ano. Nem quando viaja para outros Estados ou países cruza o túnel que liga o bairro à zona sul. "Eu pego meu avião aqui no Aeroporto de Jacarepaguá (ao lado do BarraShopping)." Apesar de feliz com a qualidade de vida da Barra, Peres, assim como outros moradores, sente apenas falta de andar a pé. "Aqui, sem carro não se vai a lugar nenhum. Embora Lucio Costa (urbanista que projetou a Barra e Brasília) fosse um socialista, ele fez um bairro elitista", brinca Peres. Nem tudo é perfeito.



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