ADEMI na Imprensa

Quintal flutuante

O Globo, Flavia Monteiro, 21/nov

Objeto de desejo, a varanda hoje chega a ocupar até 25% da área total dos imóveis

O conceito surgiu nos anos 30, foi abandonado durante os modernistas anos 60 e, ao ser resgatado, virou objeto de desejo. Mais do que isso. As varandas alcançaram status de cômodo e, na contramão dos novos imóveis, cada vez mais compactos, ganharam medidas generosas. Algumas chegam a ocupar até 25% da área total de um apartamento, no caso dos empreendimentos de alto luxo; e cerca de 10%, nos lançamentos populares. Até pouco tempo, estas participações eram de aproximadamente 15% e 5%.

- Nesse novo conceito, as varandas deixaram de ser um espaço para mera contemplação e incorporaram funções que, efetivamente, fazem parte do dia a dia dos moradores. Elas se transformaram numa espécie de quintal flutuante - analisa Celso Rayol, diretor-geral da STA Arquitetura.

Segurança e renda no cerne da questão

Ainda segundo Rayol, o aumento do poder de compra do brasileiro, reflexo da estabilização econômica, obrigou as construtoras a se adaptarem às demandas de um consumidor cada vez mais exigente. Mas não é só isso:

- Houve mudança de comportamento. As pessoas passaram a ficar mais tempo em casa, principalmente, por conta da sensação de segurança.

A pesquisadora Andréa Freire, do Instituto Mediator, especializado em pesquisas para o mercado imobiliário, afirma que a varanda deixou de ser uma extensão do imóvel para se tornar um cômodo efetivo, com vida própria.

- No caso dos empreendimentos populares, elas funcionam como uma espécie de quintal, um espaço que alivia a sensação de confinamento. A metragem pode não ser tão generosa, mas já agrada a partir do momento em que cabe uma churrasqueira portátil. Nas classes mais altas, a preferência é por imóveis onde a varanda não ladeie todos os cômodos.

Presidente da Concal, José Conde Caldas colaborou com a prefeitura na aprovação de normas sobre varandas, nos anos 70. Segundo ele, antes da chamada "Lei da Varanda", de 1975, as construções não usavam tal "recurso".

- Até ali, como a varanda era considerada parte da área útil do imóvel, era mais vantajoso construir um prédio com três quartos do que um dois-quartos com varanda. A partir de 1975, ela virou uma espécie de bônus da prefeitura. E tornou-se possível construir o mesmo prédio de três quartos e ainda acrescentar a varanda.

Ora protegendo, ora expondo a intimidade

Tese mostra o que o espaço representa para a Zona Sul

A varanda é elo de ligação entre a casa e a rua. Mais do que elemento de adequação climática, é um espaço de diálogo e integração com a paisagem. No Rio, o modo de vida do carioca interfere neste ambiente. De acordo com a tese de doutorado "Varanda e modo de vida da Zona Sul carioca", defendida em 2009, pela arquiteta Helena Câmara Lacé Brandão, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), moradores dos bairros de Copacabana, Ipanema, Leblon, Botafogo e Flamengo fazem da varanda um posto não só de vigília, como de exibição.

Trazidas pelos portugueses, as varandas têm origem tanto na cultura moura, como na asiática. Mas, aqui, elas absorveram também características da cultura indígena. Podem estar embutidas no corpo do edifício ou salientes nas fachadas, avançando em balanço. Podem ser um espaço de proteção à privacidade da casa, mas também podem oferecer maior visibilidade da intimidade dos moradores. Dão charme às edificações e valorizam os imóveis.

- A varanda é determinada pelo modo de vida dos habitantes. Hoje mostra a tentativa de o carioca se reencontrar no mundo globalizado. Dali, ele tenta construir sua identidade, para se exibir e vigiar a cidade - destaca Helena.

De espaço subutilizado a cômodo de entretenimento para a família

Metragens generosas como estratégia de mercado

Segundo a pesquisadora Andréa Freire, do Instituto Mediator, a varanda deixou de ser uma área subutilizada para se transformar num espaço de entretenimento, mais informal, para toda a família:

- Existia um certo preconceito com a varanda, principalmente na Zona Sul. Mas a partir do momento que as pessoas começaram a ficar mais tempo em casa, ela deixou de ser um ambiente de "serviço" para se transformar num espaço social. É como se a sala tivesse sido desmembrada em três: estar, jantar e varanda.

Não à toa, elas estão cada vez mais equipadas, com direito a sofisticadas churrasqueiras, cooktop, fornos para pizza e até pia. Nos empreendimentos de alto luxo, caso de um lançamento feito pela construtora Even, na Barra, as varandas contemplam os dois pavimentos dos apartamentos dúplex, ligadas por uma escada externa.

- A integração entre as varandas evita sujeira dentro de casa, já que o morador pode desfrutar da piscina e do churrasco sem precisar passar por dentro em casa. O sucesso foi imediato - diz Cláudio Hermolin, diretor da Even no Rio.

Consultor de Desenvolvimento Urbano da Ademi, o arquiteto e urbanista David Cardeman recorda que, a partir de janeiro de 2005, os prédios já prontos também ganharam a oportunidade de construir varandas, graças à Resolução nº 578 da Secretaria municipal e Urbanismo. A medida, no entanto, contemplou um número muito reduzido de edifícios:

- São poucos os prédios que conseguiram se beneficiar com a medida, pois é preciso atender a uma série de exigências e contar, inclusive, com a aprovação de todos os moradores. É necessário, por exemplo, que o edifício seja recuado mais de três metros em relação à calçada, para ganhar varandas com pilares.

Espaços fechados que contrariam o objetivo

Para o arquiteto Fábio Queiroz, pesquisador do Núcleo de Pesquisa sobre Habitação e Modos de Vida (Nomads), da USP, mais do que representar as alterações nas demandas dos clientes, as grandes varandas representam uma estratégia do mercado imobiliário para aumentar a rentabilidade dos empreendimentos.

- Oferecer varandas maiores é vantajoso para quem vende porque a área dessas varandas não é computada como área útil no ato de aprovação dos projetos na prefeitura. Mas esses mesmos metros quadrados são vendidos como "área útil" do imóvel. É uma estratégia comercial usada por algumas empresas.

Em alguns casos, diz o pesquisador, os metros quadrados que fazem uma varanda maior são "descontados" dos demais cômodos do imóvel.

Uma prática que, de fato, existe no mercado, diz José Conde Caldas, presidente da Concal. Segundo ele, alguns lançamentos vendem inclusive, junto com a varanda, a possibilidade de fechá-la, incorporando esse espaço à sala, o que é ilegal.

- O resultado são aquelas varandas fechadas com painéis de vidro que, além de estarem fora da legislação, vão de encontro ao objetivo principal da varanda, que é o de ajudar a amenizar o calor numa cidade tropical como o Rio. Há também imóveis onde os banheiros são voltados para elas e, por conta disso, é preciso que haja ventilação.



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Matéria impressa a partir do site da Ademi Rio [http://www.ademi.org.br]