ADEMI em foco

Desfusão é um mau negócio

Está em curso um movimento insólito em favor de se recriar uma cidade-estado no Rio de Janeiro, nos moldes do antigo estado da Guanabara que existiu por pouco mais de 20 anos, após a transferência do Distrito Federal para Brasília. Naquela época, o então Estado do Rio de Janeiro não tinha a complexidade, a sofisticação e a importância econômica atuais e o setor de serviços era fortemente concentrado na nossa cidade. Não se trata de discutir se a fusão foi boa ou ruim, o fato é que ela ocorreu e não adianta querer voltar no tempo.

Hoje, a cidade não tem mais os fundamentos de sustentação econômica do passado e basta citar que não é mais aqui a sede do setor financeiro nacional e a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro não é mais a bolsa de valores do Brasil. Por outro lado, o estado  tem suas principais atividades localizadas fora da capital, fundamentalmente, a indústria que com sua grande pujança paga as contas do setor público e financia até os serviços à disposição da população da cidade, como os hospitais, a polícia e a educação.

O que seria da capital sem o ICMS decorrente das atividades de petróleo que se desenvolvem no Norte Fluminense? A indústria naval também não se localiza aqui. As siderúrgicas e as fábricas de automóveis e caminhões estão no Sul Fluminense.  Mais ainda: a produção agropecuária ganhou dimensão no estado, não em extensão, mas em qualidade e em valor agregado. Nova Friburgo hoje, por exemplo, nada tem a ver com o que era há 40 anos.

A Baixada Fluminense não é mais um coleção de cidades-dormitório servindo ao antigo Estado da Guanabara e sim um pólo irradiador de riquezas. É ali que estão a Refinaria Duque de Caxias, a imensa maioria das indústrias metal-metalúrgicas de pequeno e médio porte, as confecções e tantas outras atividades, beneficiárias de excelente infra-estrutura, mão-de-obra engajada, de boa produtividade e impostos municipais favoráveis. Tudo modificou-se radicalmente, particularmente, após a nova Constituição que, nos seus capítulos tributários, reforçou as finanças dos municípios.

O turismo, no qual o Rio é imbatível como vocação, não mais existe aqui, como em todo o mundo, isolado do resto do contexto. O turista visita a capital, mas quer também conhecer Petrópolis, por exemplo, ou ir um pouco mais longe, para praticar turismo-aventura ou turismo ecológico, atividades que praticamente não existiam há 40 anos. O que era Angra dos Reis em 1965? O que significava Búzios, a não ser uma remota lembrança de Brigitte Bardot, no tempo da mudança da capital? Hoje, são fonte de riqueza que alimentam o estado, como um todo, e portanto, a nossa capital.

Economicamente é só fazer as contas. Uma eventual desfusão seria a falência da cidade do Rio. Politicamente, então, nem se fala. Alguns se movimentam para criar um novo estado pensando remotamente em evitar os políticos populistas e  poeticamente em ressuscitar tipos como Carlos Lacerda e Negrão de Lima, esquecendo-se que tanto um quanto outro foram eleitos com a minoria dos votos, numa eleição em turno único, em condições sócio-econômicas completamente diferentes das de hoje.

E, afinal, os políticos populistas foram eleitos com os votos da capital. É aqui que se criaram as condições mais importantes para o desenvolvimento da situação atual e por isso todos os governantes do estado capricham nos seus atos demagógicos e iniciativas de pouca profundidade nos rincões da própria cidade, aonde existem, lamentavelmente, as maiores concentrações de população favelada.

Márcio Fortes é presidente da ADEMI-RJ



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Matéria impressa a partir do site da Ademi Rio [http://www.ademi.org.br]