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Mesmo com alta de juro nos EUA, dólar cai 1,95%, a R$ 3,112

O Globo, Ana Paula Ribeiro, 16/mar

A perspectiva de alta de juros nos Estados Unidos vinha pressionando os mercados financeiros nos últimos pregões. A concretização dessa expectativa, no entanto, fez o dólar comercial registrar ontem sua maior queda em mais de seis meses. Depois de o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) anunciar a primeira alta da taxa do ano, a desvalorização da moeda americana se intensificou, para encerrar a R$ 3,112, queda de 1,95%. É a maior perda em um dia desde o início de setembro de 2016. Já a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) subiu 2,37%.

No meio da tarde, o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) do Fed anunciou o aumento dos juros em 0,25 ponto percentual, para a faixa de 0,75% a 1% ao ano. São esperadas mais duas elevações em 2017, com a ponta mais alta indo a 1,5% até dezembro e chegando a 3% no fim de 2019. A presidente do Fed, Janet Yellen, mostrou convicção na recuperação da economia americana.

- A mensagem simplesmente é que a economia está indo bem - afirmou ela em entrevista coletiva após a reunião, destacando os números de inflação e do mercado de trabalho.

EFEITO DO FLUXO DE RECURSOS

 Na máxima do dia, o dólar chegou a ser negociado a R$ 3,178; na mínima, a R$ 3,106.

- Sem surpresas, o mercado aproveitou para adotar novamente uma posição vendedora, influenciado pelo fluxo positivo de recursos para o Brasil. É um movimento global. Moedas de outros emergentes também estão em um processo de correção - explicou Ítalo Abucater, gerente de câmbio Icap do Brasil Corretora.

Apesar de os juros maiores nos EUA reduzirem a atratividade dos investimentos em países emergentes, o real ganhou força devido ao fluxo de recursos para o Brasil, mais especificamente os ligados ao desempenho da balança comercial. O Banco Central (BC) anunciou que o fluxo cambial de março, até o dia 10, está positivo em US$ 3,558 bilhões. Para analistas, isso já reflete a antecipação de exportadores de soja - a safra deste ano deve trazer US$ 15 bilhões ao país, fortalecendo a moeda local.

No mercado internacional, o Dollar Index, apurado pela Bloomberg, caiu 1,2% - antes do Fed, recuava 0,20%. Essa queda reflete a reação do mercado, que esperava uma elevação mais agressiva dos juros por parte do Fed, mas a autoridade monetária manteve inalterada suas projeções de dezembro.

Para Paulo Nogueira Gomes, economista-chefe da Azimut Brasil Wealth Management, o mercado de trabalho mais aquecido e a taxa de desemprego em queda nos EUA não serão suficientes para fazer a inflação sair do controle, o que exigiria um aperto monetário mais expressivo. Os ganhos de produtividade da economia americana permitem que esse movimento seja feito mais gradualmente.

- O processo de alta deve durar até o fim de 2019, e o juro deve chegar a 3% ao ano, o que é abaixo da média histórica. Isso ocorre porque os Estados Unidos têm tido um ganho muito forte de produtividade, o que faz com que a inflação fique sob controle mesmo com o crescimento da economia - explicou.

A avaliação é corroborada pela própria Yellen:

- É incerto o quanto a confiança realmente impacta as decisões de compra. E eu não diria a esta altura que vi evidência clara de qualquer mudança nas decisões de compra - disse. - A maioria dos empresários com que conversamos tem uma postura de esperar para ver.

'COMMODITIES' AJUDAM VALE

Na avaliação de Rogério Freitas, sócio-diretor da Teórica Investimentos, a cautela existente até a decisão de ontem refletia também uma realização de lucros, dados os ganhos dos últimos meses na Bolsa:

- Houve uma reprecificação de risco por cautela com Fed, realinhamento do preço das commodities e fortalecimento do dólar. No Brasil, há ainda uma maior preocupação com a reforma da Previdência. Ela pode demorar um pouco mais para sair, mas os pilares devem ser mantidos.

No mercado externo, o minério de ferro teve nova valorização. A tonelada subiu 3,1% na China, a US$ 90,93. Isso contribuiu para a alta das ações da Vale, que avançaram 6,91% (preferenciais) e 6,89% (ordinárias). Já o barril do petróleo tipo Brent subiu 1,75%, a US$ 51,81.

Os principais indicadores do mercado acionário global também tiveram um dia positivo. O Dow Jones subiu 0,54%, e o S&P 500, 0,38%.


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