ADEMI na Imprensa

Meu adorável estúdio

O Globo, Opinião, Afonso Kuenerz, 17/dez

Aos 29 anos, fui morar num estúdio na Avenida Prado Júnior, em Copacabana, pertinho da praia, andar alto. Era só um cômodo de uns 15 metros quadrados, com uma bela vista lateral para o mar. Tinha ainda um banheiro e uma minicozinha. Como o espaço era bem pequeno, deu para decorá-lo com esmero. Senti-me como um rei, no meu primeiro apartamento. Só meu!

Foi nessa época que conheci minha mulher. Quando nos casamos, fomos morar num apartamento maior em Ipanema. Foi difícil me despedir do meu estúdio. Consolei-me pensando que outras pessoas também desfrutariam dele.

Eu estudava Arquitetura. Para minha surpresa, aprendi que não era mais permitido construir estúdios como o meu. Um apartamento tinha que ter, no mínimo, sala, quarto, cozinha e banheiro. E, na Zona Sul e na Tijuca, 50 ou 60 metros quadrados de área. Investigando, descobri que a causa tinha sido um edifício em Botafogo, o Rajá, só de estúdios, cujo corredor nos andares era tão comprido que se andava até de motocicleta.

Pensei: mas como ficam as pessoas - estudantes, jovens em início de carreira, divorciados, viúvos, idosos - que não têm condições financeiras para comprar ou alugar apartamentos maiores? Com a proibição, elas ficam sem acesso à moradia individual. Devido ao custo, alguns jovens acabam alugando apartamentos em conjunto com amigos ou colegas. Outros têm que continuar morando com os pais. E idosos têm que morar com os filhos. Muito ruim!

Há cerca de 15 anos, fazendo trabalhos voluntários no Morro Santa Marta, em Botafogo, voltei a ter contato com estúdios. Lá, onde a legislação urbanística não vale, abundam as moradias de 15 a 20 metros quadrados. Isso mostra como existe demanda reprimida na nossa cidade. De fato, como arquiteto, já projetei dezenas de milhares de apartamentos, todos, é claro, dentro da lei - mas nenhum estúdio!

Esse fenômeno, aliás, só existe mesmo no Rio. Minhas filhas, quando estudaram em Paris, moravam no Sixième, um arrondissement chiquérrimo, num... studio! Em São Paulo, prédios lindos em locais nobres - ou não nobres - são compostos exclusivamente por estúdios. Em Nova York, por iniciativa do prefeito, recentemente foi construído o Carmel Place, um prédio supermoderno de estúdios com cerca de 20 metros quadrados, onde o sofá se transforma automaticamente numa cama. Em Londres e Tóquio, idem...

A atual administração da prefeitura do Rio está empenhada em modernizar e simplificar nossa legislação urbanística. Entre os diversos avanços propostos, está a permissão para construir apartamentos com um cômodo, banheiro e cozinha americana. Ótimo. Nas comunidades, serão permitidos estúdios com 20 metros quadrados. Fora delas, será exigida área mínima média de 42 metros quadrados. Ou seja, poderão ser projetados estúdios com 20 metros quadrados, desde que se projetem também apartamentos com 64 metros quadrados. Isso vai restringir a produção de estúdios, e boa parte das centenas de milhares de cariocas que desejam morar sozinhos continuarão não sendo atendidos. O conceito de área mínima de apartamento deveria ser extinto. O livre mercado é que deve regular o tamanho dos apartamentos. O que se poderia estabelecer, para evitar casos como o do Edifício Rajá, é um limite de, por exemplo, no máximo 20 apartamentos por andar com menos de 42 metros quadrados. Como é no prédio da Avenida Prado Júnior.

Há quem afirme que apartamentos muito pequenos causariam adensamento populacional. Não penso assim. Um estúdio de 20 metros quadrados ocupado por uma pessoa adensa muito menos do que um apartamento de sala e dois quartos com 50 metros quadrados ocupado por quatro pessoas - esse é o cálculo populacional da norma brasileira para efeitos de escape.

Com o fim da área mínima, muitas pessoas poderão morar sozinhas e, como eu naquela época, sentirem-se como reis!

Afonso Kuenerz é arquiteto e conselheiro da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário


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