Notícias do setor

Falta complementar o profundo corte nos juros

O Globo, Editorial, 09/fev

Parece contraditório o Banco Central, por meio do Conselho de Política Monetária (Copom), executar o 11º corte consecutivo na taxa básica de juros enquanto os mercados mundiais parecem entrar numa fase de volatilidade.

Há, porém, bases firmes para o corte de 0,25 ponto percentual dos juros, fixando-os em 6,75%, nível comparável ao da década de 50. A economia brasileira tinha uma outra conformação. Mas é mesmo um feito.

Em 11 de janeiro do ano passado, a taxa era de 13%. A conjugação da confiança dos agentes do mercado no BC com uma calmaria nos preços dos alimentos, causada por boas safras, e a quebra da chamada inércia inflacionária, derivada da indexação - o preço sobe hoje porque subiu ontem - forçada pela profunda recessão de 2015/16 permitiram ao Copom fazer este corte profundo nos juros, sem maiores riscos.

Juros baixos são o objetivo de todas as correntes políticas. As divergências ocorrem sobre os meios de alcançá-los. O país testemunhou o voluntarismo lulopetista durante o governo de Dilma Rousseff, quando, por ato de vontade da presidente, sem que houvesse condições técnicas objetivas para a derrubada da taxa, a Selic saiu de pouco mais de 12% para 7,25%.

Não deu certo, por óbvio. A inflação saltou de patamar, ficou na faixa do limite superior da meta (6,25%) e terminou de volta aos dois dígitos. O BC da época, de Alexandre Tombini, foi forçado a puxar os juros até 14,25%.

Agora, há uma chance de ouro de que mais algum corte venha a ser feito ou, na pior hipótese, a Selic não se afaste muito deste nível - o mercado aposta em 8% no final do ano, segundo o relatório Focus, do BC, feito com base em previsões de analistas do mercado financeiro. Há a possibilidade rara de a recuperação da economia ocorrer em bases sustentáveis.

As expectativas quanto à inflação são benignas (4,25%, abaixo do centro da meta, de 4,5%). E o próprio BC admite uma "flexibilização monetária moderada adicional", a depender do cenário e dos riscos. Ou seja, se, ao contrário das previsões negativas atuais, a reforma da Previdência for mesmo iniciada na Câmara, que já adiou a data limite da aprovação das mudanças de 20 para o dia 28 deste mês, a fim de o governo conseguir o apoio mínimo necessário de 308 deputados.

Poucas vezes ficou tão nítida a dependência da economia em relação à política. Houve avanços no governo Temer que ajudaram a construir este ensaio de recuperação da economia, com inflação baixa para os padrões brasileiros.

A reforma trabalhista, para flexibilizar as relações entre capital e trabalho, foi um deles. O teto dos gastos, para dar horizontes às contas públicas, outro. Mas, se não desarmar a bomba fiscal da Previdência, o Brasil não irá longe sem grave crise. Não chega a 2020.

Envie para um amigo
Imprima este texto
 
 
 
 

webTexto é um sistema online da Calepino

Matéria impressa a partir do site da Ademi Rio [http://www.ademi.org.br]