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Integrais harmônicas

O Globo, Artigo, Washington Fajardo, 10/fev

Wit-Olaf Prochnik Arquitetura e Planejamento Sociedade Limitada foi um dos maiores escritórios de arquitetura do Rio de Janeiro dos anos 60 até sua morte prematura em 1983.

Quem passa pelo elevado da Avenida Paulo de Frontin, no Rio Comprido, vê um belo edifício sobre pilotis com enorme aviso de "vende-se". Era a sede da União Brasileira de Seguros Gerais, de 1966. Usando de solução inventiva, o arquiteto dispôs a circulação vertical em torre autônoma do corpo da edificação principal, ficando esta então com pavimentos absolutamente livres.

Outra arquitetura relevante de sua autoria, especialmente pela excelência que abriga, é a sede do Instituto de Matemática Pura e Aplicada, o Impa, concluído em 1981, na Estrada Dona Castorina, no Jardim Botânico. Vivemos tempos tão duros que mal conseguimos celebrar e enaltecer as grandes vitórias deste centro de referência no campo das ciências da matemática. Como se já não bastasse a Medalha Fields, o Nobel da área, concedida ao carioca Artur Ávila em 2014, no início deste ano o Impa conquistou para o país a entrada no seleto Grupo 5 da União Matemática Internacional. O Brasil desfila agora com Alemanha, Canadá, China, Estados Unidos, França, Israel, Itália, Japão, Reino Unido e Rússia. Tive a honra de conversar com o professor Lindolpho de Carvalho Dias, que dirigiu o instituto por 22 anos e foi responsável pela criação da sede. Ele foi claro comigo como 2 e 2 são 4, "intransigência com a qualidade e flexibilidade administrativa", ou seja, rigor máximo e nada de burocracia burra são a receita que fez decolar a ciência brasileira, a partir da base de lançamento incrustada na Floresta da Tijuca.

Wit-Olaf seguia procedimentos semelhantes e destacou-se na área do planejamento, cujos trabalhos envolviam equipes polivalentes que manejavam as múltiplas dimensões do território urbano e ambiental. Conversei com o casal Maria Teresa e Mozart Vitor Serra, e com Joel Ghivelder, que trabalharam com ele, tentando remontar a memória de um grande arquiteto e urbanista e sua prática profissional.

Equipes notáveis de sociólogos, geógrafos, economistas e arquitetos projetaram escolas técnicas federais no Norte do país; reposicionaram cidades inteiras do Rio Parnaíba, em função da construção da barragem de Boa Esperança, como Guadalupe, no Piauí, e Nova York (fundada por imigrantes estadunidenses vindos da Guerra de Secessão), no Maranhão; fizeram plano de desenvolvimento turístico das praias do Espírito Santo; plano de urbanização de Búzios; recuperação da Favela de Alagados na Bahia; primeiro estudo de desenvolvimento da Região Metropolitana de Recife; Plano Diretor de São Luís; definição de áreas de proteção dos mananciais de água de São Paulo; e plano de turismo da Amazônia que viriam a gerar áreas de reserva ambiental.

Era o período da explosão populacional das cidades, graças aos movimentos migratórios do campo, intensificados especialmente entre as décadas de 60 e 80. É neste momento que o Serviço Federal de Habitação e Urbanismo, o SERFHAU, que funcionou de 1964 a 1974, financiaria e promoveria metodologias de planos de desenvolvimento local integrado e de Planos Diretores. A Constituição de 1988 inverteu a lógica e concedeu o poder regulador e formulador aos municípios, acertadamente, mas perdeu princípio metodológico e obediência a parâmetros.

Nestes dias de Momo, uma vez mais podemos apreciar uma outra visão de Prochnik, de certa forma. Em 1977, ele fez estudos preliminares para a implantação de um grande "centro de lazer" ao lado da Avenida Trinta e Um de Março, a recém-implantada Linha Lilás, desenvolvendo em paralelo à via expressa, nas quadras demolidas do Catumbi, ligando a Av. Presidente Vargas à Rua Frei Caneca, pelo eixo da Rua Marquês de Sapucaí, uma passarela de desfiles de escolas de samba, com espaços de educação e cultura, que culminaria numa praça principal coberta. Esse conceito fica perdido pelos gabinetes, Brizola é eleito governador em 1982, Wit-Olaf falece em 1983 e, em 1984, é inaugurada a Passarela do Samba, seguindo projeto desenvolvido por Oscar Niemeyer.

Blocos estão nas ruas, alegria em todos os lugares, mas os dias que antecederam o carnaval no Rio foram trágicos. É quase impossível conter a raiva diante de crianças mortas e constatar como o Rio ainda tem tanto a fazer. Tanto a planejar e unir.

Se pudéssemos articular com rigor e leveza, a precisão elegante da matemática avançada do Impa, ou a harmonia vibrante das escolas no Sambódromo, veríamos um modo de concordar numa agenda comum, nem de esquerda, nem de direita, mas de excelência.

A memória ajuda a unir polos que não são antagônicos, mas integrados.

Wit-Olaf Prochnik foi casado com Rachel Sisson, que merece uma coluna só para ela, e teve três filhos. Mauricio, o mais novo, é também arquiteto com grande atuação no patrimônio cultural.

Procurando descobrir mais sobre um grande arquiteto, fui reconhecendo integrais, que derivavam ritmos que o Rio pode organizar pela ciência e pela cultura, pelo erudito e pelo popular. Harmonias.

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