Notícias do setor

Paulo Guedes será superministro da área econômica

O Globo, Economia, 31/out

Na primeira reunião como presidente eleito com sua equipe, Jair Bolsonaro decidiu criar o superministério da Economia, que abrigará as pastas da Fazenda, do Planejamento e da Indústria e Comércio Exterior. O futuro ministro, Paulo Guedes, havia ficado contrariado quando Bolsonaro, antes do segundo turno, ensaiou um recuo da fusão dos ministérios para dar mais autonomia à área de Indústria e Comércio. Guedes vai controlar o caixa da União e a programação orçamentária, além de agregar o BNDES. Após o presidente eleito ter admitido votar parte da reforma da Previdência de Temer neste ano, Guedes disse ontem que a tramitação da proposta dependerá das condições políticas.

O presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) decidiu ontem criar o superministério da Economia, que abrigará na mesma estrutura as pastas da Fazenda, Planejamento, e Indústria e Comércio Exterior. A decisão, anunciada após a primeira reunião com a sua equipe depois da vitória, dá a dimensão também dos superpoderes que o economista Paulo Guedes terá.

Apelidado de "Posto Ipiranga" pelo capitão da reserva durante a campanha, ele havia ficado contrariado quando Bolsonaro, na semana passada, sinalizou que poderia recuar da ideia de fusão dos ministérios e dar autonomia à área de Indústria e Comércio. Guedes teria entendido como uma perda de poder e prestígio.

A criação do superministério da Economia colocará nas mãos de Guedes o controle do caixa da União e também toda a programação orçamentária federal. Se hoje o ministro da Fazenda já é poderoso, pois comanda o Tesouro Nacional e a formulação da política econômica, ele passará a centralizar a decisão de como cada centavo será gasto. Caberá aos outros ministros bater à porta de Guedes quando quiserem recursos.

Como se não bastasse isso, o superministro também terá o controle das maiores estatais do setor financeiro. Caixa e Banco do Brasil já estavam ligados à estrutura da Fazenda, mas o BNDES estava subordinado ao Planejamento. Agora, o banco de fomento, instrumento importante para o financiamento do setor produtivo, também irá para o guarda-chuva da Economia.

Guedes vai comandar também o dia a dia da máquina pública, a gestão de pessoal, do patrimônio da União, além da secretaria de gestão das empresas estatais e a interlocução com o empresariado.

A união dos ministérios foi criticada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e por outras entidades do setor.

Questionado, Guedes ironizou pedidos de incentivos fiscais.


- Interessante. No programa, os três (ministérios) já estavam juntos. Foi criticado pelo setor? Pelos industriais? Está havendo uma desindustrialização há 30 anos. Nós vamos salvar a indústria brasileira, apesar dos industriais- atacou o futuro ministro de Bolsonaro.

A crítica de Guedes se refere ao que ele considera um excessivo lobby por benefícios fiscais e proteção contra o mercado externo:


- O que aconteceu é que o Ministério da Indústria e Comércio acabou se transformando em uma trincheira da Primeira Guerra Mundial, defendendo subsídios, desonerações, coisas que prejudicam a indústria brasileira.

POLÊMICAS NA CAMPANHA

Em nota, o presidente da CNI, Robson Andrade, reiterou que a entidade é contra a extinção do Ministério da Indústria, Comércio Exterior:

"Precisamos de um ministério com um papel específico, que não seja atrelado à Fazenda, mais preocupada em arrecadar impostos e administrar as contas públicas (...) Nenhuma grande economia do mundo abre mão de ter um ministério responsável pela indústria e pelo comércio exterior forte e atuante".

Especialista em contas públicas, Raul Velloso explica que, numa situação de equilíbrio das contas, é natural que haja uma área de planejamento estratégico separada. Mas esse não é o caso do Brasil no momento. O principal problema hoje é justamente o desequilíbrio fiscal. E, diante desse cenário, é positivo que o comando da área fique nas mãos de um único ministro:


- Temos que resolver o problema do déficit público. Por esse aspecto, é bom que haja essa unificação entre os ministérios da área econômica.

O presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Antonio Carlos Megale, disse que prefere aguardar:


- Ainda estamos tentando entender. Mas temos certeza que a indústria não ficará desassistida dentro do governo. Temos essa convicção.

Com longa trajetória no mercado, Guedes se aproximou de Bolsonaro depois da desistência de Luciano Huck de entrar na disputa. Antes de fazer parte do círculo próximo ao presidente eleito, Guedes aconselhava o apresentador, a quem tentava convencer a ser presidenciável. Feitas as pontes com Bolsonaro, o economista passou a encontrá-lo para convencê-lo da importância de uma agenda liberal.

Concentração de poder traz riscos à gestão

No governo Bolsonaro, Paulo Guedes deve se tornar o ministro mais poderoso que o Brasil já conheceu no período democrático. Nem Pedro Malan e Guido Mantega, os mais longevos ocupantes do cargo, tiveram tantos tentáculos. Ficarão sob o comando do "Posto Ipiranga" Fazenda, Planejamento e Indústria e Comércio. Algo semelhante só foi visto no governo Collor, quando Fazenda e Planejamento, unificados, foram conduzidos por Zélia Cardoso de Mello. A estratégia não deu certo e acabou após o impeachment.

Bolsonaro ressuscita a ideia, colocando sob a batuta de Guedes o controle do caixa, a formulação da política econômica, a gestão do Orçamento e das estatais e a interlocução com o setor produtivo, com suas demandas por desonerações e programas setoriais.

Há riscos na opção pela concentração. Áreas podem acabar negligenciadas, e o próprio ministro pode ficar sobrecarregado. Afinal, a máquina pública estará sob seu comando: da tecnologia da Esplanada à gestão de pessoal.

Perde-se também o contraponto importante, valorizado pelas gestões anteriores, entre a arrecadação dos recursos e como eles devem ser gastos.


Envie para um amigo
Imprima este texto
 
 
 
 

webTexto é um sistema online da Calepino

Matéria impressa a partir do site da Ademi Rio [http://www.ademi.org.br]