Notícias do setor

Odebrecht propõe cortar dívida para US$ 1 bi

Valor Econômico, Graziella Valenti, 10/abr

A Odebrecht Engenharia e Construção (OEC) apresentou na segunda-feira sua primeira proposta aos credores para reestruturação de US$ 3 bilhões em dívidas com bônus emitidos no mercado internacional. A companhia pediu um desconto superior a 70% sobre o valor total devido.

Na oferta levada aos detentores dos bônus, um montante inferior a US$ 1 bilhão seria mantido como dívida, com carência superior a cinco anos para juros. A diferença entre o novo valor da dívida e o anterior seria convertido em um instrumento semelhante a uma debênture de participação nos lucros (DPL), papel que não é ação, mas oferece participação sobre o fluxo de resultados futuros do negócio.

Os bônus alvo da reestruturação foram emitidos por uma subsidiária financeira internacional e são garantidos pela OEC. No mercado, os papéis com vencimento mais longo são negociados entre 15% e 19% do valor de face da emissão.

O Valor apurou com fontes que o encontro frustrou os credores, que não teriam recebido bem a proposta. Era esperado que a OEC solicitasse um corte entre 50% e 70% para os bônus. A percepção é que a compreensão das partes a respeito do tamanho do problema estava muito distante, o que indica que a negociação pode ser longa.

O entendimento, porém, é que o encontro foi importante para dar a largada na discussão e que um acordo será possível.

Consultada, a Odebrecht afirmou, por meio de nota ao Valor, que "não comenta detalhes sobre o processo confidencial de renegociação em andamento com detentores de bonds e reforça que está engajada em conversas construtivas com seus credores".

Em de março, os credores chegaram a anunciar publicamente que fizeram uma proposta à companhia - algo pouco comum sem que haja oferta da empresa antes. Havia quatro pilares no pedido dos investidores estrangeiros: um aporte de capital na OEC pela holding do grupo Odebrecht, a ODB, de US$ 375 milhões; nenhum corte no valor da dívida; cobertura dos compromissos com ações da Braskem em garantia; e compromisso da ODB de pagar saldo de US$ 2,2 bilhões de empréstimos tomados da construtora.

Na época, a Odebrecht estava ainda preparando sua sugestão e disse apenas que o pedido dos credores "não era viável". O grupo organizado de credores tem quatro grandes fundos: Alliance Bernstein, Fidelity, BlackRock e Gramercy, com cerca de 40% da dívida.

As duas propostas indicam o quão antagônicas estão as percepções a respeito da situação da companhia. Durante os meses de janeiro e fevereiro, a Odebrecht apresentou aos detentores da dívida um cenário a respeito dos negócios. A empresa espera que neste ano a carteira de pedidos alcance US$ 7 bilhões, chegando em 2023 a US$ 13,2 bilhões. Mas não há nenhuma garantia de sucesso.

A análise do fluxo da companhia deixa evidente o quão delicada é a situação. A construtora chegará ao fim de 2019 com US$ 18 milhões em caixa, sem considerar o pagamento do serviço das dívidas. O montante é o que restará após pagamentos de US$ 141 milhões com multas e acordos necessários após a Operação Lava-Jato.

No cenário base do grupo, entre 2020 e 2022, o saldo de caixa ficará negativo. Caso haja atraso na recomposição da carteira, a situação fica ainda mais grave. Nas previsões da OEC, em 2021, novos projetos responderão por 80% da receita e, a partir de 2023, a empresa já dependerá quase integralmente da obtenção de novas obras.

As primeiras conversas entre Odebrecht e os detentores dos bônus começaram em novembro do ano passado. O plano da ODB é fazer uma negociação e formalizar um acordo na forma de uma recuperação extrajudicial. Nesse modelo, há necessidade de aprovação por credores que tenham 60% do valor devido pela empresa. Com aval desse percentual, a companhia conseguiria trocar todo o endividamento. Com isso, há maior eficiência do que em uma oferta voluntária de troca de títulos, que dificilmente alcançaria todos os papéis dispersos no mercado.

Na negociação, a Odebrecht é representada pela Moelis & Company e pelo escritório E. Munhoz Advogados. Os credores contam com assessoria do Rothschild e dos advogados do Pinheiro Neto.


Envie para um amigo
Imprima este texto
 
 
 
 

webTexto é um sistema online da Calepino

Matéria impressa a partir do site da Ademi Rio [http://www.ademi.org.br]