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Caixa vai avaliar se cliente pode pagar água e luz para dar crédito no Minha Casa

Folha de São Paulo, Mariana Carneiro e Julio Wiziack, 22/abr

Já sob a influência de seu novo presidente, Pedro Guimarães, 48, a Caixa Econômica Federal registrou em seu balanço perdas de R$ 2,8 bilhões com inadimplência do programa Minha Casa Minha Vida no último trimestre do ano passado.

Segundo ele, o banco tem hoje 70 mil imóveis devolvidos e outros 80 mil com obras suspensas. Operador dos recursos do programa social do governo, Guimarães diz que a avaliação de risco de inadimplência dos tomadores desse crédito não estava considerando os gastos dos moradores com taxas de condomínio e outras contas relacionadas ao imóvel, como água e luz.

"As pessoas que tomaram esse empréstimo tinham condição de pagar? Isso não estava colocado corretamente no risco de crédito", diz ele, cuja intenção é levar bons pagadores para faixas do Minha Casa Minha Vida mais atrativas de operação para a Caixa.

Em quatro meses, o executivo lançou um cartão de crédito consignado, que deverá atender inicialmente funcionários públicos e aposentados. A meta é chegar a 20 milhões de usuários.

De perfil arrojado, forjado na iniciativa privada, e muito alinhado com o ideário do ministro Paulo Guedes (economia), Guimarães prepara uma agressiva venda de ativos da Caixa. Ao mesmo tempo, defende o papel do banco como financiador de investimentos públicos e políticas de governo.

No entanto, está mudando a relação com prefeitos e governadores. Em vez de recebê-los em Brasília, Guimarães tem ido até os clientes, com propostas de negócios que tragam resultado para a Caixa. "Somos um banco social e temos de ganhar dinheiro com isso."

Como é a Caixa que o sr. encontrou?

O que aprendi até aqui é que lotéricas e correspondentes bancários são parte essencial do negócio, mas não geram receita porque as 12 vice-presidências não se falavam. Eram unidades isoladas.

Isso mudou?

Em dois meses lançamos o cartão de crédito consignado. Juntamos vice-presidências, e o produto saiu. O plano é chegar a 20 milhões de cartões em quatro anos. Mas, se a gente não chegar a 10 milhões, será um fracasso.

Somos um banco social e temos de ganhar dinheiro com isso. Era inaceitável que não tivéssemos foco na linha de crédito pessoal mais barata que não fosse o microcrédito. A pessoa mais carente, que mais precisa, passa a tomar empréstimo a 2,85% ao mês por cinco anos.

Nas regiões Norte e Nordeste, onde as distâncias são enormes, levando as pessoas a demorar três meses para sacar o Bolsa Família, o cartão vai permitir que não seja necessário ir à agência, pois funcionará como débito e crédito na padaria, na lotérica.

Como pretendem destravar o Minha Casa Minha Vida?

Provisionamos R$ 2,8 bilhões [em perdas] no último trimestre do ano passado. Temos 70 mil imóveis devolvidos e outros 80 mil estão com obras paradas. O programa é uma política de Estado, a Caixa é um banco de Estado. Só que eu sou o banco do Excel [programa de computador que permite fazer cálculos]. Eu não faço coisa que seja ruim matematicamente para a Caixa.

Mas a Caixa tem perda com a operação do MCMV?

O funding [origem dos recursos] do MCMV é o FGTS. E o custo para a Caixa é de TR mais 6% ao ano. Eu empresto por 30 anos a 12% ao ano. Tem um risco aí. Ele pode até ser menor se o Brasil fizer todas as reformas. Mas sou gestor de um banco com R$ 2,5 trilhões em ativos. Não vou apostar nessa.

Vai faltar dinheiro para o programa?

Na faixa 1, os recursos e o risco são do Tesouro via Orçamento. A Caixa é basicamente o gestor. Quem decide sevai ter dinheiro é o Ministério da Economia, e a operação é definida pelo Ministério do Desenvolvimento Regional.

A faixa 1,5 é quase como a 1, mas o risco é todo da Caixa. O subsídio do governo é menor para um imóvel praticamente igual ao da faixa 1 [o restante é financiado pela Caixa]. As pessoas que tomaram esse empréstimo tinham condição de pagar? Isso não estava colocado corretamente no risco de crédito.

Por quê?

Essas pessoas muitas vezes esvinham de comunidades, não estavam acostumadas apagar condomínio, água, luz, energia, esgoto, sem falar no transporte. Quando foram para esses imóveis, passaram a pagar. Isso explica 70 mil imóveis devolvidos [elas não tinham dinheiro suficiente paras as duas despesas]. O Minha Casa deveria incluir esses gastos extras no cálculo do risco.

Então a inadimplência da Caixa com o MCMV era muito maior do que se divulgava?

Quando a Caixa retomava um imóvel [por falta de pagamento], não entrava como perda no balanço porque virava um bem de uso do banco [entrava na fila para leilão]. Essa era minha grande crítica. Isso deveria ter sido precificado. Apliquei a média de deságio dos últimos leilões e daí chegamos a R$ 2,8 bilhões.

O programa vai encolher?

Não posso emprestar sabendo que não vou receber. A ideia é levar o bom pagador da faixa 1,5 a mudar para a 2. Os imóveis têm valores parecidos [para a Caixa, a parcela dos financiamentos sobe]. Além disso, só vamos retomar imóveis [por inadimplência] depois de seis meses. Antes, com 59 dias, o banco já tomava, e esse custo é alto.

Tem relação com o congelamento dos gastos do governo?

Quando há contingenciamento, a gente não consegue emprestar. Essa regra vale para as faixas 1,5, 2 e 3. Em novembro, [o governo] já não estava pagando ao MCMV.

O governo avalia tirar da Caixa a exclusividade sobre o FGTS, entregando a gestão a bancos privados. Isso afeta a Caixa?

Uma coisa é fazer empréstimo pelo SBPE[ para a classe média ]. Outra é para o pessoal sofrido. Um banco privado não aguenta a primeira porrada, não é trivial. Nas regiões mais carentes, só tem Caixa. Se esses bancos forem para os 16 estados do Norte e Nordeste, vão pedir para a Caixa fazer a avaliação [de acompanhamento da obra].

Mas a Caixa tem receita por isso.

A remuneração [por ser gestor do FGTS] foi de R$ 5 bilhões em 2018, mas perdi quase R$ 3 bilhões [com inadimplência]. Fora que tenho que manter 4.000 engenheiros trabalhando. Aí fico com Norte, Nordeste e Centro-Oeste, e a concorrência, com o filé mignon?

Quero ver quem vai ficar com o osso, porque ele vai acabar na Caixa. Essa é minha briga. Como ganho dinheiro se toda a margem fica com o outro? O que posso dizer é que há uma atenção do governo. A Caixa é agente operador e gestor [do FGTS]. A receita que recebe como gestor utiliza para reduzir perdas.

O governo espera que a Caixa devolva recursos que foram injetados no banco no passado. Quanto vai devolver neste ano?

Depende de quanto eu consiga vender [em ativos]. Tem duas negociações, na área de cartões e seguridade, que geram resultado extraordinário. Se elas saírem, em até dois anos dá para devolver R $40 bilhões. Há outras maneiras que a gente pode discutir como governo. Vamos tentar maximizara qualidade do nosso balanço de várias maneiras, entrando no mercado de adquirentes [máquinas de cartão], por exemplo. Estimo que a gente deixe de ganhar R$ 1 bilhão por ano porque não temos operação nessa área.

O sr. foi criticado por parlamentares no início do ano por manter distância da classe política.

No começo ninguém se conhecia. Até sentar para conversar, demora. De terça a quinta, converso com políticos a tarde inteira. Retomamos a compra de folha de pagamentos de estados e municípios, que é uma excelente receita e estava havia três anos parada. São operações que fazem sentido. Não é como antes [com viés político]. A Caixa é um banco de Estado, o maior cliente é o governo. A gente tem uma grande rentabilidade com esse relacionamento.

Pretende emprestar aos estados em dificuldade?

Com garantia do Tesouro, tranquilo. Torço para que outros bancos entrem, e vejo o interesse de outros bancos, estrangeiros. Não é uma coisa que a gente vá disputar. É diferente em outras linhas.

Quais?

O projeto de iluminação pública é um exemplo, funciona como espécie de consignado. A conta do município passa pela Caixa, o banco retém e cria uma garantia. Já temos 58 projetos de iluminação e 5 de saneamento.

O maior problema das prefeituras menores é que não sabem o que fazer. Então, chegamos lá, montamos o projeto e depois financiamos. Consigo fazer empréstimos que o banco privado não consegue. E não estamos disputando as grandes prefeituras. O grandão é legal, mas esqueça os 500 maiores municípios. Os outros 5.000 são 20% do PIB, e a gente já está lá.


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