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Se a 'quebração' de cabeça seguir, pisaremos no freio, diz dono de incorporadora

Folha de São Paulo, Joana Cunha, 21/abr

O otimismo do setor privado com o governo de Jair Bolsonaro tem data de validade, segundo Antonio Setin, presidente da incorporadora que leva seu sobrenome.

Os empresários da construção civil pisaram no acelerador no fim de 2018 ao prever uma melhora do mercado imobiliário. Se até o meio deste ano não houver sinais mais claros de que essa retomada acontecerá, será hora de pisar no freio, diz ele.

Como tem sido o começo de ano para o setor imobiliário?

O ano começou entusiasmado. Todo mundo achava que progrediríamos rapidamente para superar obstáculos e todos queriam ser o primeiro para aproveitar essa oportunidade, sair à frente dos outros, pagar mais barato antes das coisas melhorarem.

Em outubro falei para meu pessoal pisar no acelerador, comprar terreno, acelerar obras, porque sentíamos que as coisas ficariam boas. Janeiro e fevereiro corroboraram com isso, mas março e abril mostraram que não é bem assim.

O setor pisou demais no acelerador? Há um arrependimento?

Não há arrependimento. Mas há uma preocupação. Aquela velocidade de solução dos problemas que vínhamos imaginando, com uma sequência de boas notícias, reformas andando, ministros superalinhados com presidente, não aconteceu. Pior, aconteceu ao contrário.

Eu estava com pé só no acelerador, hoje estou com pé no acelerador e outro no freio esperando brecar. Esse é o sentimento, e com quem converso no setor tenho ouvido as mesmas coisas.

Abril tem sido pior que março?

Para nós, sim. Abri estande de lançamentos há 2, 3 semanas, imaginando que coletaria escrituras ainda neste mês, mas tive que segurar um pouco para coletar mais reservas. Faz um mês que a gente não ouve boa notícia de BSB. A última foi o leilão de aeroportos, mas depois disso foi só 'quebração' de cabeça. Há uma preocupação sobre qual o tamanho da reforma da Previdência que vamos ter, qual vai ser o tamanho do projeto de combate ao crime do [ministro Sergio] Moro, da reforma tributária.

Você mencionou que a ideia de ter ministros superalinhados ao presidente não se concretizou. Isso se refere a quê?

Um exemplo. O presidente manda não subir petróleo. Para mim isso é atitude da Dilma. Dois dias depois, volta atrás. O investidor estrangeiro fala, 'qual é a verdade?'. Não tem uma linha de pensamento. Imagina se eu, na minha empresa, digo que vamos lançar mês que vem um projeto e depois a equipe de engenharia diz que não tem orçamento da obra. Primeiro é preciso sentar com todo mundo e alinhar.

A gente começa a olhar isso e entra em pânico. Se durar seis meses, toda essa expectativa positiva vai para o lixo. Se não tiver minimamente os principais líderes brigando por boa reforma, por projeto de reforma tributária, o presidente dizendo que precisa de jornalistas e congressistas, o empresariado vai meter o pé no freio.

Mas vocês ainda não brecaram? Os planos seguem os mesmos?

Planos seguem os mesmos. Continua. Estabelecemos no ano passado que lançaríamos [empreendimentos com valor geral de vendas] de R$ 670 milhões. Até agora está tudo no prazo.

Se as coisas continuarem como estão, até quando dá para ficar sem pisar no freio?

Eu diria que a gente sabe que uma discussão dessa, com 600 congressistas, não é fácil. São comissões, cabeças diferentes. Mas o empresário consegue ver um direcionamento, ele precifica: 'isso não vai acontecer até junho, mas vai até outubro, novembro, e quando acontecer quero ser o primeiro da fila'. Mas é preciso ter direcionamento. Se até o meio deste ano a discussão continuar como está, com essa 'quebração' de cabeça, e o governo seguir dando desconto antes de o cliente pedir, será hora de pisar no freio.


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