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Alta do IPCA-15 surpreende em abril, mas inflação não preocupa

Valor Econômico, Ana Conceição e Bruno Villas-Boas, 26/abr

O aumento dos preços dos combustíveis e dos alimentos levou a prévia da inflação oficial brasileira registrar em abril a maior taxa desde o impacto causado pela greve dos caminhoneiros no ano passado. Apesar disso, economistas avaliam que a alta, maior que a esperada, é pontual e não deve romper a meta de 4,25% definida para o fim deste ano.

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA15) acelerou para 0,72% em abril, ante 0,54% em março, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Economistas esperavam avanço de 0,67%. Foi a maior alta desde junho do ano passado (1,11%). Considerando apenas o mês de abril, foi a maior taxa desde 2015 (1,07%). Em 12 meses, a inflação acumulada subiu de 4,18% para 4,71%.

O IPCA-15 de abril veio acima do esperado porque a desaceleração na alta dos alimentos foi mais fraca que a esperada. Alimentação no domicílio saiu de 1,91% em março para 1,43%. Até o fim do mês, contudo, essa descompressão deve se intensificar, fazendo o IPCA fechar o mês entre 0,55% e 0,60%, segundo André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor (IPC), do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV). "Os preços ao produtor já mostram isso."

A alta de preço da gasolina também deve ceder. O combustível subiu 3,32% e sozinho foi responsável por 0,14 ponto do 0,72% do IPCA. "A variação da gasolina deve ter chegado a seu ponto máximo [no mês]", diz Braz.

Por fim, o preço dos medicamentos deve continuar a subir por causa do reajuste autorizado em 31 de março, de 4,33%. Passada essa fase de reajustes e alimentos mais caros, Braz vê a inflação cedendo a partir de maio para terminar o ano em 3,9%.

Ainda no front dos administrados, alguma surpresa ocorreu nas tarifas de transportes públicos, que dependem da agenda de políticas locais, observa Carlos Pedroso, economista do Banco MUFG Brasil. Segundo o IBGE, houve aumento nas tarifas de ônibus urbanos de Porto Alegre, Curitiba, Salvador e Recife. Porto Alegre também subiu a passagem de trem, e o metrô ficou mais caro no Rio de Janeiro.

No mais, o IPCA-15 veio dentro do script, segundo Pedroso, com pressões concentradas em transporte, alimentos e saúde. O banco estima que o IPCA "cheio" do mês fique em torno de 0,70%, e o do ano, em 4%.

Para a Parallaxis, os combustíveis podem ainda ser fonte de preocupação, mas a grande ociosidade da economia deve manter a inflação comportada. A consultoria estima o IPCA de 2019 em 3,8%.

A fraqueza da demanda é explicitada pela alimentação fora de casa - importante componente da inflação de serviços -, cuja variação veio zerada no IPCA-15 de abril. Outro quesito, os bens duráveis registram inflação muito baixa em 12 meses já há algum tempo. "A economia está com dificuldades de reagir. A baixa da Selic não foi suficiente para ativar o consumo", diz Braz, do Ibre-FGV, lembrando que o mercado de trabalho, com seus 13 milhões de desempregados, também contribui para o enfraquecimento da demanda.

Outro conforto para a inflação são os núcleos. O Banco Safra revisou a estimativa para a alta do IPCA de abril de 0,56% para 0,61%, mas a projeção para o ano segue em 3,6% devido às medidas que procuram excluir ou reduzir a influência dos itens mais voláteis. "O comportamento dos núcleos, em patamares considerados muito baixos, não gera preocupações", diz o banco.

A média de sete núcleos calculada pelo Goldman Sachs, subiu de 0,24% para 0,40% de março para abril, e em 12 meses avançou de 3,1% para 3,32%, um nível ainda distante da meta de 4,25%. A instituição chama atenção para a baixa da inflação de serviços, de 0,34% para 0,23%. "A despeito das taxas maiores que as esperadas em março e em abril, a inflação e seus núcleos continuam confortáveis. Isso é ainda mais notável quando se leva em conta que a alimentação no domicílio acelerou de queda de 4,4% para alta 9% [em 12 meses] no último ano", diz Alberto Ramos, diretor de pesquisa do banco.

A alta do dólar para níveis próximos de R$ 4 não deve afetar a inflação, segundo os economistas, pois deve ser temporária. Pedroso, do MUFG, diz ser prematuro avaliar um impacto na inflação. "Se continuar próximo de R$ 4 por mais tempo, poderá haver algum repasse aos preços, mas será pequeno."


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