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Um Rio de ruas fantasmas

O Globo, Rafael Galdo, 20/jul

O comércio fechado e o pouco movimento fazem todos os dias parecerem feriado na Rua da Constituição, no Centro do Rio. Perto dali, na Rua da Carioca, é possível contar mais de 20 lojas com as portas arriadas. Na Zona Sul, a Farme de Amoedo vem perdendo lanchonetes e restaurantes, um sinal de que o burburinho no point LGBT de Ipanema não é mais o mesmo. De uma ponta a outra da cidade, o que se tem visto são áreas abandonadas, que empalidecem a vocação do Rio para o encontro, para a ocupação de ruas e calçadas. O trio crise econômica, violência e desordem urbana, aliado ao crescimento da informalidade, com a multiplicação de camelôs, tem ajudado a esvaziar regiões antes movimentadas e repletas de vida. Uma mudança que afeta, dizem especialistas, até o humor do carioca. 

- Impacta no humor da população. Ao se passar por um local com lojas fechadas, a sensação gerada ali se espalha -diz economista Sérgio Besserman, destacando que as pessoas já têm ficado mais em casa. - É preciso recuperar a alegria e a confiança, por exemplo, de que as forças policiais não só combaterão o crime, mas vão também proteger. Isso é parte do problema, que provoca menos happy hours nas sextas-feiras, menos bate-papos na calçada.

MARCHA A RÉ NO COMÉRCIO

Por trás desse cenário que tem mudado a dinâmica urbana e o jeito de se curtir a cidade, existem números que preocupam autoridades e comerciantes. Só no ano passado, segundo o Clube de Diretores Lojistas (CDLRio), 10 mil estabelecimentos encerraram suas atividades na capital. A marcha à ré no setor varejista, que gastou R$ 1,85 bilhão com vigilantes, equipamentos eletrônicos, grades, blindagens de portas e reforço de vitrines, vai continuar este ano, diz a entidade. 

E pode ser medida também em números do mercado de trabalho. Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho, revelam que, entre janeiro e maio deste ano, a cidade do Rio teve o pior saldo de empregos formais no país: 12.122 vagas fechadas. Se considerado apenas o comércio, o município se mantém também na pior posição do Brasil, com 7.871 postos extintos. Se agregados os resultados de comércio e serviços, foram 9.960 empregos perdidos. 

Arquiteto e urbanista, Luiz Fernando Janot lembra que o desgaste é sentido, sobretudo, após a Olimpíada, quando a cidade vivia um momento de grande efervescência. Para ele, a crise nas contas do estado e problemas na gestão municipal, aliados a mudanças de hábitos, como o avanço do comércio eletrônico, agravaram ainda mais a situação nas ruas.

- O Centro, por exemplo, passa por um esvaziamento preocupante. Nos prédios comerciais da região, esse processo é brutal. Enquanto isso, não se observam iniciativas 10 mil lojas fechadas Número de estabelecimentos que fecharam as portas na capital, em 2018, segundo o Clube de Diretores Lojistas, 12.122 postos de trabalho Quantidade de vagas de emprego que a cidade perdeu de janeiro a maio que possam ajudar na retomada. Pelo contrário. Vimos uma liberação da camelotagem nas ruas. Até o setor de alimentos enfrenta a concorrência das quentinhas - observa Janot, concluindo que é preciso planejamento a médio e longo prazo. 

- Precisamos hoje de novos programas, como o Rio Cidade, que pensem a cidade como um todo, embora atuem pontualmente.

Basta passar pela Rua das Constituição para ter uma noção dos problemas in loco. O casario dos tempos do Império abrigava, num passado não tão distante, um polo de lojas de eletrônicos. Nos quarteirões próximos às ruas Gomes Freire e República do Líbano, já foram mais de 20 estabelecimentos do tipo. Na meia dúzia que sobreviveu, os donos fazem malabarismos para pagar as contas. Nem o fato de a região ter virado caminho do VLT salvou. 

- Cerca de 40% das lojas na rua estão fechadas. Na crise atual, se estivessem abertas, creio que seria ainda mais difícil, porque haveria mais concorrência e pouca clientela - admite Valcir Azevedo, sócio de uma das lojas que resistiram. 

Na emblemática Rua da Carioca, há 20 estabelecimentos fechados. Já na Rua Marechal Floriano, à espera da inauguração da Linha 3 do VLT e com a clientela escassa, multiplicam-se as placas de "passo o ponto". Uma delas está pendurada onde antes funcionava um café e lanchonete, em frente ao Colégio Pedro II. Enquanto o estabelecimento sucumbiu, no mesmo quarteirão há cinco barraquinhas de camelôs que vendem produtos que poderiam estar na loja, como salgados, sanduíches, bebidas e biscoitos.

Até a boemia da Lapa já perdeu parte do fôlego. Recentemente, a casa de shows Lapa 40 Graus disse adeus à cena noturna. Outras, como o Teatro Odisseia, estão na corda bamba. No Méier, faz um ano e meio que Marlene de Souza vende roupas num brechó na calçada de uma loja fechada na Rua Dias da Cruz.

- Meu sonho é ter minha loja, mesmo com todos os impostos a pagar - diz ela, sem saber que pode também esbarrar em dificuldades caso seu desejo se concretize.

Foi na Zona Norte, segundo o CDL-Rio, que mais lojas encerraram suas atividades no ano passado: 3.950. Na Zona Oeste, foram 3.150. No Centro, 1.742. Na Zona Sul, 1.724. 

- Como resolver isso é a pergunta do milhão. O certo é que precisamos criar um ambiente de negócios favorável - afirma Aldo Gonçalves, presidente da entidade.

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