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FGTS parado pode render mais do que fundos, poupança e até Tesouro Direto

Folha de São Paulo, Júlia Moura, 12/ago

Com a redução da taxa básica de juros para 6% e a expectativa de que ela termine o ano ainda menor, em 5,25%, deixar o dinheiro parado no FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) poderá se tornar mais vantajoso que a caderneta de poupança, os fundos de investimentos atrelados ao CDI (Certificado de Depósito Interbancário) e até o Tesouro Direto, por mais incrível que isso pareça.

O FGTS sempre foi alvo de críticas por render pouco ao trabalhador. Por lei, o fundo paga 3% ao ano mais a TR (Taxa Referencial, hoje zerada). Esse índice é menor que a atual inflação anual brasileira (o IPCA acumulado em 12 meses estava em 3,22% em julho). Ou seja, o investidor tem perda real.

Então o que explicaria a vantagem do FGTS? A distribuição do lucro. Com ela, esse rendimento pode subir para 6,4%.

Neste ano, o governo anunciou que destinará aos detentores de contas do FGTS 100% do lucro do fundo em 2018, que foi de R$ 12,2 bilhões. Serão contempladas todas as contas que tinham saldo disponível em 31 de dezembro de 2018.

No ano passado, 50% do lucro de 2017, ou R$ 6,23 bilhões, foi distribuído aos cotistas na proporção de R$ 17,2 para cada R$ 1.000 em conta, ou seja, 1,72% do valor total.

Caso a proporção se mantenha nessa nova distribuição, serão R$ 34,4 a cada R$ 1.000, 3,44% a mais no total da conta. Somados aos 3% de rendimento do FGTS, a conta teria um ganho de 6,4% livres de Imposto de Renda.

O dinheiro, que deve cair nas contas até o fim de agosto, é superior à rentabilidade atual da poupança, de 70% da Selic. Com a taxa básica a 6% ao ano, o juro da poupança fica em 4,2% anuais, também isentos de impostos.

Os fundos atrelados ao CDI, como LCI, LCA e CDB, também perdem para o FGTS. O CDI acompanha a Selic e tende a recuar com a taxa. No momento, o CDI está em 5,9% com a Selic a 6%.

Mesmo prefixado, o CDB rende menos por ter incidência de Imposto de Renda, conforme a tabela regressiva. Em resgates após um ano de aplicação, 17,5% dos ganhos vão para a Receita Federal.

Para que um fundo fosse mais vantajoso que o FGTS em um ano, ele teria que render 131% do CDI, com o DI a 5,9%, produto raro no mercado.

Com a probabilidade de o DI ir a 5,15% ao final do ano, o fundo teria que render 150% do CDI no ano para superar os 6,4% do FGTS.

O Tesouro Direto, queridinho dos investidores, também perde no período de um ano. Só no caso de a aplicação superar os 720 dias, em que a incidência do IR passa a ser de 15%, o Tesouro IPCA 2035, com IPCA a 3,8%, passa a ser levemente mais vantajoso.

A remuneração melhor do FGTS surge em meio a novidades anunciadas pelo governo.

A partir de setembro, o trabalhador poderá retirar até R$ 500 de cada conta que tenha no fundo. Em 2020, entra em vigor nova regra que permite sacar parte do saldo FGTS anualmente.

Por depender do governo, Joelson Sampaio, coordenador de economia da FGV EESP (Escola de Economia de São Paulo), recomenda que os cotistas saquem o dinheiro.

"O FGTS tem a desvantagem de liquidez. Nesse sentido, é melhor colocar esse dinheiro em um fundo que você possa sacar quando precisar. É importante ter flexibilidade de administração sobre o próprio dinheiro e não depender de política do governo."

Para o professor, a superioridade no ganho potencial do FGTS não é grande o suficiente para justificar a inacessibilidade ao dinheiro. "E se amanhã você precisa desse dinheiro? Esse ganho marginal é tão pontual que não vale a pena."

Caio Torralvo, planejador financeiro certificado (CFP) pela Planejar, tem opinião diversa. Para ele, se não há necessidade dessa quantia para quitar dívidas e há uma reserva para emergências investida, é recomendável deixar o dinheiro no fundo.

"É preciso analisar as perspectivas e os objetivos para ver o que é melhor em cada caso. Se ele não apresenta uma demanda por esse dinheiro, e há a perspectiva de distribuição de lucros, não tem problema deixar no FGTS."

Torralvo lembra ainda que o saque do FGTS não é tão simples. "As janelas são muito limitadas. Além desses saques extraordinários promovidos pelo governo, o trabalhador só acessa os recursos do fundo em casos específicos, como demissão sem justa causa e doença", afirma.

A expectativa do mercado, segundo o boletim Focus, de que a taxa Selic caia para 5,25% ao fim deste ano eleva a oferta e a procura por produtos que ofereçam retornos maiores que a renda fixa.

A poupança, investimento mais popular entre os brasileiros, já aponta retração em relação a 2018. Segundo a Anbima (associação das entidades do mercado de capitais), o total investido na caderneta recuou 0,1% no primeiro semestre, para R$ 729,8 bilhões.

Os fundos de investimento, por sua vez, cresceram 5,1%, maior alta do período, para R$ 626 bilhões. Os títulos e valores mobiliários tiveram alta de 4,2%, para R$ 525,6 bilhões.

O aumento de popularidade desses produtos se deve, em parte, à sua publicidade. Muitos são vendidos com certo retorno garantido, apesar de não serem renda fixa, como o caso de fundos de investimento imobiliário (FII), certificados de operação estruturada (COE) e até criptomoedas.

Tais investimentos têm o seu retorno atrelado a variáveis. Os FII dependem do desempenho do setor imobiliário, enquanto os COEs estão sujeitos ao mercado de ações.

As criptomoedas, por sua vez, são muito instáveis e vistas como de alto risco por não terem lastro.

Para não cair em propaganda enganosa, especialistas recomendam que o investidor pesquise muito antes de migrar as economias da poupança para outros investimentos.

"É preciso comparar em diferentes bancos quais são as taxas que incidem sobre o investimento e qual o potencial retorno e qual o potencial risco. Não se deve parar no primeiro investimento promissor que se encontra. Se você não entende, não invista", diz Joelson Sampaio, coordenador de economia da FGV EESP.

Outra dica é procurar uma assessoria de investimento, que ofereça uma análise do perfil do investidor e uma gama de produtos de acordo com o objetivo desejado.

Caio Torralvo, da Planejar, ressalta que a expectativa para a inflação no período investido deve ser observada. "É preciso estar atento ao IPCA para ver qual será o juro real".

Outros pontos de atenção são as taxas de administração e, se for o caso do investimento, a taxa de performance, que podem minar os ganhos. Essas taxas variam por corretora, por isso é preciso pesquisar o melhor custo-benefício.

"Com a Selic baixa, o investidor vai precisar correr mais risco para obter o mesmo nível de investimento", afirma Torralvo.

Entenda como o FGTS ganhou atratividade

- Por lei, o fundo paga 3% ao ano mais TR (hoje zerada); esse rendimento é menor que a inflação, ou seja, o trabalhador tem perda real.

- Neste ano, 100% do lucro do fundo em 2018, de R$ 12,2 bilhões, será distribuído aos cotistas.

- No ano passado, 50% do lucro de 2017, R$ 6,23 bilhões, foi distribuído na proporção de R$ 17,2 para cada R$ 1.000 em conta, ou seja, 1,72% do valor total.

- Caso a proporção se mantenha nessa nova distribuição, serão R$ 34,4 a cada R$ 1.000, 3,44% a mais no total da conta. Somados aos 3% de rendimento do FGTS, a conta teria um ganho de 6,4% livres de Imposto de Renda.

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