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O concreto é rosa-choque

O Globo, Maurício Peixoto, 14/set

"Lá em casa a minha mãe sempre fez de tudo e nos ensinou a sermos assim", diz, com orgulho, a bombeira hidráulica e empresária Geisa Garibaldi, de 35 anos, moradora da Zona Norte e fundadora da empresa de construção civil Concreto Rosa, que aposta na mão de obra exclusivamente feminina das funcionárias e no atendimento prioritário a clientes mulheres.

Lá, as moças põem a mão na massa e fazem, literalmente, de tudo, mais ou menos como acontecia no ambiente doméstico da hoje empresária, sob a supervisão da sua mãe: de serviços eletrônicos aos hidráulicos, passando por alvenaria, pintura, revestimento de azulejo, jardinagem, mudanças e reparos em geral. 

Além disso, realizam projetos de arquitetura e engenharia. Primeira companhia do gênero no Rio de Janeiro, a Concreto Rosa, fundada em 2015, é testemunha e parte ativa do crescimento do mercado: de 2007 até o primeiro semestre de 2018, a participação de mulheres na construção civil aumentou cerca de 120%, chegando à marca de 239.200 trabalhadoras registradas, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Referência em construção civil feita por mulheres, a Concreto Rosa apresenta a sua experiência na área na 12ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, um dos mais importantes acontecimentos do ramo de arquitetura no mundo, que reúne profissionais e pesquisadores de diversos países até o dia 29 na capital paulista. Geisa participou da mesa de abertura da Bienal, na última terça-feira, ao lado de Fraya Frehse (antropóloga, São Paulo), Hélio Menezes (antropólogo e curador, São Paulo), Marta Moreira (arquiteta, São Paulo) e Andrés Jaque (arquiteto, Espanha), com mediação dos curadores do evento, Charlotte Malterre-Barthes, Ciro Miguel e Vanessa Grossman.

- Nós vimos o convite como um reflexo do nosso trabalho, da inclusão que promovemos e do desenvolvimento de um nicho até então não explorado pela construção civil tradicional - conta Geisa. Além do debate na abertura da Bienal, a Concreto Rosa participará da mostra com uma intervenção no espaço de convivência do Sesc Vinte e Quatro de Maio, local onde está sendo realizado o evento. A intervenção reunirá material fotográfico e elementos de trabalho da empresa que evidenciam o caráter humano e afetivo das mulheres na construção civil.

- As histórias pessoais das clientes atendidas pela Concreto Rosa, vivências, experiências, sentimentos do dia a dia, tudo isso será compartilhado em áudios e vídeos que serão disponibilizados ao público em tablets - adianta. Geisa também reconhece o profundo impacto e a transformação social que a Concreto Rosa tem proporcionado entre funcionárias, clientes e fornecedores.

- Mais do que nossa atividade profissional, exercemos a nossa autonomia feminina, inovando, gerando novas oportunidades de trabalho e uma narrativa original para o mercado. A ideia é contribuir para a mudança de um segmento historicamente dominado por homens -afirma.

Geisa também diz que um dos motivos para a criação da empresa foram os episódios constantes de assédio e constrangimento a que as clientes eram submetidas. 

- Sempre notei que havia uma lacuna no atendimento a clientes do sexo feminino. Não são raros os relatos de mulheres que passaram por assédio ou constrangimento na hora de contratar reforma e reparos domésticos. As clientes ficam mais confiantes de que não vamos enganá-las no serviço e se sentem mais confortáveis para nos receber em casa - avalia.

É o caso de Luisa Marques, que contratou a empresa para serviços eletrônicos, além da instalação de um aparelho de ar-condicionado.

- Eu contratei um eletricista, mas ele foi lesbofóbico comigo e minha mulher. Além disso, deixou o ar-condicionado cair da janela e não se responsabilizou pela queda - conta.

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Matéria impressa a partir do site da Ademi Rio [http://www.ademi.org.br]