ADEMI na Imprensa

Expansão do Polo de Cine e Vídeo está sob ameaça

O Globo, Luiz Ernesto Magalhães, 07/nov

Em uma cidade com vocação para produções da chamada indústria criativa, uma decisão da prefeitura pode sepultar os planos de expansão dos estúdios do Polo de Cine e Vídeo, na Barra. Isso porque a Câmara de Vereadores aprovou, na semana passada, lei de iniciativa do prefeito Marcelo Crivella que abre caminho para que terrenos destinados à ampliação do complexo, às margens da Lagoa de Jacarepaguá, sejam vendidos para dar lugar a prédios. O texto foi sancionado na terça-feira.

A nova lei tem causado polêmica. Enquanto especialistas temem que o Rio perca em competitividade por não conseguir ampliar o leque de produções, a prefeitura e o mercado imobiliário argumentam que o espaço no entorno da Avenida Embaixador Abelardo Bueno está subutilizado. E que as novas regras são mais adequadas para a área, na divisa dos bairros da Barra e de Jacarepaguá.

Pela proposta da prefeitura, cerca de 35 mil metros quadrados (hoje desocupados) poderiam ser negociados. Neles, seria permitida a construção de prédios de até nove andares, de uso residencial e comercial.

O polo foi criado no fim dos anos 1980 pelo ex-prefeito Saturnino Braga. Em 2015, quando a economia carioca estava aquecida, o ex-prefeito Eduardo Paes chegou a anunciar um plano para ampliar os estúdios, aproveitando uma demanda gerada por produtoras que precisavam de espaços para a Olimpíada. A meta era dobrar a área total de estúdios nos dois primeiros anos de concessão. Com a construção das novas instalações, os galpões para locação passariam de 5.208 metros quadrados de área para 10.275 metros quadrados.

As estruturas mais antigas - o complexo tem oito estúdios hoje arrendados por empresas como o canal Shoptime - também seriam reformadas. Na época, a concorrência, no entanto, não foi à frente por problemas burocráticos.

- Do jeito que o projeto foi aprovado, além de o Polo de Cine e Vídeo não poder ser expandido, há o risco de ter produções inviabilizadas. Com a venda dos terrenos, vamos perder áreas de externas, bem como de estacionamento. Sem contar o impacto ambiental de novos prédios - disse um produtor que usa os estúdios.

A discussão ocorre em um momento em que a prefeitura também tenta licitar um novo operador para administrar a área por 15 anos. A concorrência, porém, está parada porque o processo caiu em exigência no Tribunal de Contas do Município (TCM).

O arquiteto e ex-presidente do Instituto Municipal Rio Patrimônio da Humanidade, Washington Fajardo, critica a decisão. Ele diz que, historicamente, uma das vocações da cidade é a indústria audiovisual, importante para a geração de emprego e renda. E que se desfazer da área é uma falta de visão do atual governo.

Sérgio Sá Leitão, ex-ministro da Cultura e ex-secretário municipal de Cultura, também discorda da estratégia do atual governo:

- O prefeito pode ter suas razões, mas a indústria criativa é muito estratégica para o Rio. A cidade está ficando para trás. A Netflix, por exemplo, está se instalando em São Paulo - afirma.

Na Câmara, o presidente da Comissão de Justiça e Redação, vereador Thiago K. Ribeiro (MDB), que coordenou as discussões da mudança na lei, defendeu a proposta e argumentou que o mercado do audiovisual mudou:

- Com a evolução da tecnologia, nem todas as produções necessitam de grandes estruturas - disse.

Já Rubens Vasconcellos, conselheiro da Associação de Dirigentes do Mercado Imobiliário (Ademi), argumenta que as alterações nas regras garantirão um melhor aproveitamento econômico dos terrenos. Ele calcula que imóveis na região possam ser oferecidos para investidores por valores entre R$ 6,5 mil e R$ 7 mil o metro quadrado. A prefeitura ainda não tornou público por quanto pretende vender os terrenos.

- Chegou o momento de o entorno do Centro Metropolitano começar a ser ocupado. Nessa área em particular, existe uma demanda do mercado por unidades de cerca de 30 metros quadrados - argumentou Rubem.

Em nota, a Secretaria municipal de Urbanismo disse que a nova lei tem como objetivo revitalizar a região, que recebeu nos últimos anos "aportes importantes em infraestrutura urbana'' por conta da Olimpíada de 2016. Mas que por outro lado sofreu um esvaziamento de atividades industriais.


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Matéria impressa a partir do site da Ademi Rio [http://www.ademi.org.br]