Notícias do setor

Após MRV e Inter, clã Menin amplia influência com CNN

Folha de São Paulo, Júlia Moura, 16/fev

Com uma construtora, um banco, uma empresa de aluguel de galpões e, agora, uma rede de televisão, a família Menin amplia presença nos negócios como uma das mais ricas e influentes do país. Liderado pelo engenheiro Rubens Menin, o clã mineiro controla cerca de R$ 25 bilhões.

Mesmo nas empresas com capital aberto na Bolsa, a gestão é familiar. Seus dois filhos homens, Rafael e João, e o sobrinho Sérgio comandam MRV, Banco Inter e LOG, respectivamente. A filha Maria Fernanda Menin não participa do dia a dia dos negócios, mas ocupa cargos no conselho do Banco Inter e da MRV.

Rubens ocupa a presidência dos conselhos das três empresas que fundou, cargo que também tem na CNN Brasil, ainda em fase de implantação.

Para gerenciar os negócios, a família tem uma holding, gerida por Ana Tereza, sobrinha de Rubens. A Conedi faz a gestão dos ativos dos Menins no Brasil e no exterior, "com foco na eficiência tributária", como diz o site da companhia.

A Conedi é a principal acionista da LOG, que constrói e aluga galpões comerciais. É a mais nova da família listada em Bolsa, com valorização de cerca de 80% desde então.

Surgido como um banco tradicional em 1994, o Inter foi transformado em digital nos últimos anos. Após a estreia na Bolsa, em 2018, seu valor de mercado cresceu mais de 500%. Agora vale mais que a primogênita MRV.

Analistas, porém, veem riscos para o negócio na baixa fidelidade de clientes. O aplicativo, dizem, tem uma pior experiência de usuário quando comparado a outras instituições digitais, como o Nubank.

Em uma das falhas técnicas, clientes amanheceram com a conta zerada ou no negativo.

"As pessoas usam muito nossos serviços, e essas instabilidades são percebidas, mas a empresa tem investido em tecnologia para solucionar o problema", diz Alexandre Riccio, diretor financeiro do banco.

Riccio é amigo da família Menin desde antes do Inter. Foi colega de Rafael no curso de engenharia civil e, depois de ganhar experiência profissional, ingressou no banco.

"O grupo acha que é bom ter pessoas de confiança nos negócios. A maioria no comando são amigos ou colegas de faculdade", diz Riccio.

Ele diz que Menin "treinou muito bem" os filhos - seus amigos - para a sucessão.

"Rubens coloca a meritocracia como prioridade. O João Vitor estava havia 12 anos no banco, atuando em diversas posições. Quando estávamos na faculdade, ele saía correndo da aula para a obra, como estagiário. Ele e o irmão chegaram aonde chegaram por mérito", afirma Riccio sobre o chefe, presidente do Inter.

Uma das grandes dificuldades de empresas familiares é justamente a sucessão.

"O plano de sucessão é mais importante que a sucessão em si. E nesses casos é ainda mais importante educar filhos corretamente. Tem que haver um herdeiro ou herdeira que saia competente", diz Ricardo Rocha, professor do Insper.

De acordo com Riccio, a família consegue separar bem o que é amizade do que é profissional, ainda que muitas reuniões de trabalho ocorram dentro de casa: parte da família mora na mesma rua.

Segundo o filho Rafael, copresidente da MRV, Rubens é um homem que não para quieto, sempre com novos empreendimentos, algo enraizado no grupo. Menin é um entusiasta da autoajuda empresarial, gosta de ler e de presentear livros de superação - e também de praticá-la.

A atitude do grupo em relação ao Minha Casa Minha Vida seria uma demonstração desse traço pessoal. Com atrasos nos repasses do governo e sem perspectivas de expansão do programa, fonte de mais de 80% das vendas da MRV até setembro de 2019, a empresa diversificou a atuação no mercado imobiliário.

"Com a queda da Selic e o crédito imobiliário mais barato, começamos a atuar na faixa de R$ 4.000 a R$ 8.000 de renda familiar mensal", diz Rafael.

É dessa faixa que parte do crescimento deve vir daqui para a frente. A outra virá da Luggo, braço que constrói imóveis que não são vendidos, mas alugados. Dessa empresa foi criado o primeiro fundo imobiliário do país que gera renda com aluguéis residenciais.

O modelo é semelhante ao da AHS Residential, empresa americana de Menin, recentemente incorporada pela MRV.

"O mercado nos EUA é gigante. O jovem não quer comprar. A família de baixa renda tem que alugar", diz Rafael.

A AHS foi fundada em 2012, e a meta é entregar 5.000 apartamentos por ano até 2025.

Já o novo empreendimento no setor de comunicação leva a família a um terreno desconhecido. 

Rubens Menin é o principal investidor e sócio da versão brasileira da rede de notícias americana CNN. O jornalista Douglas Tavolaro, que ocupava a vice-presidência de jornalismo do Grupo Record, responde pelos outros 35% da sociedade.

Segundo Rafael, o pai sempre sonhou em ter um veículo de comunicação por "querer a notícia bem-feita, um bom jornalismo, construtivo".

"O Brasil está em um momento muito polarizado, mas [a CNN] também não pode ser uma imprensa marrom", diz o copresidente da MRV.

Logo após anunciar o canal, Rubens posou para foto ao lado do presidente Jair Bolsonaro e do filho 03, Eduardo. Defendeu publicamente o presidente e questionou a cobertura da imprensa internacional sobre os incêndios na Amazônia.

Em entrevista à Folha em setembro de 2019, o empresário disse nunca ter defendido "ele nem ninguém" e que não iria "nem defender nem atacar o atual presidente".

Tavolaro, que também estava na foto, veio da Record, canal recorrentemente escolhido pela família Bolsonaro para conceder entrevistas em momentos de crise.

Ao UOL, que tem participação acionária minoritária e indireta da Folha, Tavolaro afirmou que a CNN será "uma emissora de jornalismo com a única missão de levar ao público, aos anunciantes e ao mercado publicitário informação com qualidade, imparcialidade e correção, e pluralidade de opinião entre nossos colunistas".

O novo canal vai ao ar em 9 de março - a previsão era estrear no fim de 2019. Pessoas próximas contam que a demora e o custo estariam incomodando Rubens. Já foram mais de R$ 80 milhões no negócio, acima da previsão inicial.

Ao longo de 2019, a emissora contratou ex-Globo como Monalisa Perrone, Evaristo Costa e William Waack. O alto gasto levou a ajuste no orçamento e na estratégia de contratação: agora entram profissionais menos experientes.

Rafael Menin diz que o pai viu na CNN um bom investimento. "Ele gostou do modelo de negócio e tomou a decisão em dois dias. Não antes de consultar a família".

Envie para um amigo
Imprima este texto
 
 
 
 

webTexto é um sistema online da Calepino

Matéria impressa a partir do site da Ademi Rio [http://www.ademi.org.br]