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Brasileiro não desiste da casa própria e busca por imóveis aumenta na crise

Valor Econômico online, Isabel Filgueiras, 09/jul

O primeiro momento da quarentena do coronavírus, em março, foi de impacto negativo em quase todos os setores da economia. O mercado imobiliário não ficou de fora. Mas, passada a estranheza do começo do isolamento, voltou também o interesse pela compra e pelo aluguel de imóveis, apontam dados de plataformas de busca de imóveis e de comparação de taxas.

"No início do isolamento social compulsório, de fato, houve abrupta queda nas vendas. No entanto, passado o solavanco, a rápida e surpreendente absorção da nova realidade reascendeu o mercado. O índice FipeZap informa crescimento nas vendas de 0,18% em março, 0,20% em abril e 0,23% em maio", observa João Teodoro, presidente do Sistema Cofeci-Creci, que representa corretores de imóveis.

Ele conta que o setor de vendas passou por uma pressão, mas se adaptou. Segundo Teodoro, a maioria das vendas imobiliárias é realizada com apoio da internet, com pouca interação presencial.

O déficit habitacional no Brasil chegou a 7,8 milhões de unidades (casas e apartamentos) em 2017, aponta um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) em parceria com a Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc).

Quando há tanta gente ainda sem casa própria e caem as taxas de juros do financiamento, como vimos recentemente, o ritmo tende a ser de maior procura. Além disso, o preço dos imóveis tem ficado estagnado desde 2017, oscilando entre meses de leves altas e outros de quedas abaixo da inflação.

Enquanto a prometida retomada da construção civil e setor imobiliário não chega, as pessoas seguem procurando imóveis e pesquisando condições de pagamento, o que não significa necessariamente que vão fechar negócio agora.

A plataforma que compara taxas de juros e condições do crédito imobiliário Melhortaxa registrou aumento de 64,4% na busca por crédito imobiliário no país nos primeiros 5 meses deste ano, em relação ao mesmo período de 2019.

"As taxas atuais já são as mais baixas vistas no mercado imobiliário, o que favoreceu o aumento da capacidade de compra dos tomadores, mesmo nesse ambiente de incerteza. Acredito que nos próximos meses, com a retomada da economia pós-pandemia, há maior probabilidade de um repasse mais forte para as taxas de crédito imobiliário", afirma o cofundador da Melhortaxa, Rafael Sasso.

Compras e crédito

De acordo com o presidente da Caixa, Pedro Guimarães, as contratações de crédito imobiliário cresceram 21,73% em 2020. O banco tem a maior porção de mercado de financiamento imobiliário entre os cinco maiores bancos.

Os dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) mostram que os financiamentos para a compra e a construção de imóveis somaram R$ 7,13 bilhões em maio, alta de 6,5% em relação a abril e crescimento de 8,2% em comparação a maio do ano passado. Ainda segundo a entidade, em maio, o crédito imobiliário com recurso de poupança cresceu 22,6%.

De janeiro a maio de 2020, os total de financiamentos atingiu R$ 34 bilhões em crédito, alta de 23,2% em comparação a igual período de 2019.

No acumulado de 12 meses, entre junho de 2019 e maio de 2020, o crédito chegou a R$ 85,1 bilhões, superando em 30,5% o montante total dos 12 meses anteriores.

A maior parte da alta é justamente na liberação de crédito para pessoa física, para quem quer comprar para morar ou investir nesses bens (para alugar ou revender).

A concessão de crédito para compra somou R$ 5,3 bilhões em maio, uma alta de 12%, e R$ 27,1 bilhões no acumulado de 2020, crescimento de 30%.

O maior volume de dinheiro usado para o financiamento não é necessariamente um reflexo de inflação nos preços dos imóveis. Eles não ficaram tão mais caros, a ponto de exigir um valor mais alto de crédito.

Ainda segundo a Abecip, as unidades financiadas de janeiro a maio de 2020 também superam em 20% os financiamentos do mesmo período do ano passado. Portanto, não se trata só de mais crédito. Os dados sugerem aumento nas vendas.

Uma pesquisa da consultoria Brain Inteligência Estratégica constatou que, entre as pessoas que tinham intenção de comprar um imóvel, 22% efetivaram a compras em junho, seis pontos percentuais acima dos dados de março (primeiro mês da pandemia), e três pontos percentuais do registrado em abril. Este levantamento da Brain também revelou um discreto aumento na intenção de compra.

Para Yslanda Barros, diretora da assessoria de imóveis Ética Soluções Imobiliárias, o movimento de procura é resultado do cenário de juros baixos e queda no custo do financiamento, algo que só foi reforçado com a pandemia, após mais cortes da Selic.

"Para quem quer comprar um imóvel, seja para morar ou investir, além de ter reserva financeira para manter os planos, as condições de financiamento hoje são vantajosas e há oportunidades a serem avaliadas. Além da queda da Selic, o Brasil apresenta hoje um cenário de baixa rentabilidade da poupança e da renda fixa, alta volatilidade no mercado de ações e subida dos preços dos imóveis em ritmo abaixo da inflação", afirma.

Um levantamento do site de anúncios de compra e venda OLX revelou que mais da metade (54%) dos 430 entrevistados estão em busca de comprar um imóvel, e o restante está em interessado em alugar.

Dentro do primeiro grupo, 53% deles admitem que o interesse na compra diminuiu, enquanto os outros 47% dos compradores em potencial mantiveram ou aumentaram o interesse em comprar um imóvel, mesmo diante da crise. Ou seja, os números mostram que o interesse em ter um imóvel nem de longe arrefeceu da forma que se imaginava no início da pandemia.

Se no setor de vendas os resultados foram de mais cautela, para o aluguel, a procura cresceu. A pesquisa da OLX apontou que 59% responderam que mantiveram ou aumentaram o interesse por locação. Os dados foram coletados entre abril e maio.

"No caso dos inquilinos, existem fatores como término do contrato e necessidade de diminuir o valor do aluguel, que não podem ser adiadas", comenta Marcelo Dadian, diretor de Imóveis da OLX Brasil.

De qualquer forma, o consumidor também entendeu que a pandemia vai atrasar a compra da casa própria. Entre os consultados na pesquisa, 51% disseram que o processo para conseguir um novo imóvel pode se arrastar por um ano além do planejado.

Na locação, 65% vêm atraso acima de um ano do esperado. Antes da pandemia, mais da metade dos consumidores tinha a expectativa de fechar negócio no aluguel ou na compra em menos de 6 meses.

Entre os fatores citados para a demora maior no processo estão:

Não poder visitar presencialmente (60%)

Insegurança em relação ao meu trabalho/renda atual (55%)

Impossibilidade de efetivar a transferência do imóvel (46%)

Dificuldade em conseguir financiamento/fiador (43%)

Outro levantamento, este realizado pelo portal imobiliário Imovelweb também reitera que a procura por imóveis voltou a crescer, após uma queda de 33% em março. Houve crescimento de 19% nas buscas realizadas na primeira semana de abril em relação à última semana de março.

Em comparação entre as semanas anteriores à quarentena e o final de abril, a alta nas buscas de aluguel e compras foram de 13%.

"Notamos uma queda na procura, assim que a pandemia se instalou no Brasil. Porém, antes da quarentena, o cenário estava muito positivo para quem estava pretendendo comprar imóveis, com as menores taxas de juros dos últimos tempos, estabilização nos preços, redução dos estoques e novas soluções de crédito. As variáveis eram e ainda são muito atrativas, o que explica esse aumento nas buscas no mês de abril", diz, em nota, o diretor financeiro do Imovelweb, Tiago Galdino.

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