ADEMI na Imprensa

O novo cenário dos imóveis corporativos

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(O Globo, Negócios e Leilões, 03/ago)

Mesmo após a pandemia de Covid-19, o Banco do Brasil planeja manter milhares de funcionários trabalhando em casa e devolver 19 dos 35 edifícios de escritórios alugados no Rio de Janeiro, São Paulo, Distrito Federal e mais cinco estados, para economizar R$ 185 milhões em aluguéis por ano. A disposição do banco, estimulada pelo saldo positivo do home office, reflete um movimento que ganha força entre grandes empresas e cria desafios novos para o mercado imobiliário, obrigado a reinventar a oferta de espaços num cenário de menos demanda por grandes imóveis.

Levantamento da consultoria imobiliário JLL na cidade de São Paulo, divulgado em julho, exemplifica o quadro do segmento empresarial do setor. Dos imóveis comerciais de alto padrão da capital, 19,3% estavam vagos no fim do primeiro trimestre - e a previsão é de que, até o fim deste ano, o percentual chegue a 23%. Nesse contexto, a taxa de disponibilidade desses espaços poderá superar 26%, incluídos aqueles que o inquilino já notificou a desocupação, mas ainda não formalizou a entrega do imóvel.

CEO da startup Home, Lívia Rigueiral afirma que os escritórios não vão acabar, mas tendem a ter suas estruturas repensadas. Uma das propostas corporativas, segundo ela, serão escritórios menores e colaborativos, além da adoção de rodízio na presença física dos funcionários nesses espaços. "O trabalho remoto tornou-se algo plausível e pode gerar economia para as empresas, como vemos no caso do Banco do Brasil, além de proporcionar bem-estar aos colaboradores", argumenta.

Em contrapartida à queda da procura corporativa por grandes espaços, cresce a demanda residencial por imóveis maiores, com dependência para home office. "A tendência é de que passemos a viver de forma integrada. Casas e apartamentos que oferecem um cantinho propício ao trabalho remoto terão vantagem aos olhos do cliente", destaca Lívia. Ela prevê que, dependendo da atividade, a produtividade em casa nada ficará a dever ao trabalho na empresa, quando creches e escolas voltarem ao funcionamento normal. 

O panorama do mercado de locação no Rio de Janeiro se assemelha ao da capital paulista. Pesquisa de gestora de condomínio Apsa constatou que a taxa de desocupação de imóveis comerciais entre cariocas mais do que dobrou do primeiro trimestre para o segundo, sobretudo no Centro da Cidade. De 40 mil imóveis ocupados, 2,5% foram entregues em abril, 2,8% em maio e 3,1% em junho. Entre as devoluções, 71% eram salas. A queda no valor dos aluguéis também é flagrante, segundo a pesquisa: 70% foram negociados, com desconto médio de 50%.

O presidente da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi), Claudio Kawa Hermolin, considera que números como esses indicam mudanças, mas aponta a necessidade de tempo para avaliá-las. "Nossa expectativa é de que haja alteração no perfil dos escritórios, com substituição de áreas maiores por menores, e talvez migração de lojas para escritórios e-commerce, com aumento da vacância nos dois casos", prevê. Mas, ressalva, só após o fim da pandemia ficarão claras as opções pelo home office, a volta ao trabalho presencial e o uso dos dois modelos.

Diante do recuo da procura, a estimativa é que os imóveis comerciais de grandes dimensões podem ser divididos, adaptados para ocupação temporária e compartilhados por várias empresas. "O mercado imobiliário é muito resiliente e capaz de se reinventar diante das dificuldades, como fez com o advento do coworking ou do coliving (trabalho ou lazer em espaços compartilhados)", estima Hermolin, que também é vice-presidente de Marketing e Inovações Tecnológicas do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado do Rio de Janeiro (Sinduscon-Rio).

Para os proprietários de imóveis comerciais que estão vagos, ele recomenda não esperar a reversão da baixa do mercado de locação e alugar mesmo por valor abaixo do pretendido. "É melhor alugar a baixo custo do que deixar vazio, porque há despesas atreladas ao imóvel, como condomínio e IPTU", ressalta. O futuro pós-pandemia promete melhorar os preços e as chances de renegociação de valores para os imóveis alugados, com vantagens para o locador, se o inquilino tiver consolidado sua atividade e familiarizado sua cliente com o ponto.


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Matéria impressa a partir do site da Ademi Rio [http://www.ademi.org.br]