ADEMI em foco

O governo e os juros altos

O governo e os juros altos

Márcio Fortes

     Os bancos comerciais prestam serviços inestimáveis à população. É praticamente impossível imaginar uma sociedade moderna, como a brasileira, sem um sistema financeiro equipado, sofisticado e em permanente processo de melhoria operacional, como o que temos, aberto ao público. Entretanto, os bancos são objeto de críticas, às vezes ácidas e contundentes, sob o argumento de que não cumprem  a contento a importante função de financiar as atividades produtivas. Tal percepção tem várias razões, muitas vezes derivadas da burocracia e do espírito cartorário generalizados na cultura nacional, mas sobretudo pela dimensão do custo do dinheiro, pelos juros altos.
     É importante, portanto, fazer de modo contínuo um exercício de compreensão da  dimensão dos juros, com o objetivo de torná-los compatíveis com as necessidades daqueles que demandam o crédito para a produção, em última análise, o que faz mover o país em termos da sua economia. E, neste aspecto, a responsabilidade governamental é imensa. A questão do custo do dinheiro e do seu valor é inexoravelmente, e não apenas no Brasil, ligada às iniciativas governamentais, pois o sistema financeiro depende fundamentalmente das contas públicas. Das contas públicas é que sai a maior ou menor demanda de recursos pelo poder público e, portanto, a dimensão do custo do dinheiro.
     Já seria complexo se estivéssemos num país fechado dentro de si mesmo, em que apenas a moeda nacional fosse importante, em que pudéssemos atender a nós mesmos com nossa própria poupança. A tradicional insuficiência de poupança na economia brasileira, entretanto, nos obriga a algo ainda mais sofisticado, que é a dependência de recursos externos até para o equilíbrio das contas nacionais. E as contas públicas, considerando que no Brasil, e aí considerando o país como caso especial, em que o governo se comporta como o maior agente financeiro, por sua atividade e por seu endividamento, são definitivamente influenciadas pela necessidade de financiamento do setor público.
     É daí que surge a necessidade do equilíbrio fiscal. O equilíbrio fiscal não seria apenas, neste caso, um exercício de boa administração, aquela em que corretamente as receitas seriam sempre superiores às despesas correntes. É muito mais do que isso. O que estamos tratando é da própria estrutura de produção e estrutura social da nação. Vide o caso da Previdência Social. Vide o caso de todo o sistema tributário que, em última análise, alimenta de receita o poder público nacional. Não é possível aumentar impostos, pois a atividade produtiva, que se quer estimular, fica fortemente prejudicada. Daí também a importância das chamadas reformas.
     É, portanto, com preocupação que verifico, já praticamente na metade do ano, que provavelmente não teremos as reformas a tempo de surtirem efeitos em 2006. E quanto às finanças públicas, já agora em 2005, estamos assistindo a um inesperado aumento das despesas. Por várias razões, algumas delas são explicadas, embora não justificadas pelas maiores autoridades do país, mas desestimulantes para aqueles que imaginavam que no alvorecer do próximo ano poderíamos ter uma efetiva recuperação. Provavelmente, não haverá reformas e espero francamente que se consiga estancar o aumento das despesas, já que as receitas não podem ser aumentadas, pois os impostos chegaram ao nível do insuportável.

Márcio Fortes é presidente do Ibef Rio (Instituto Brasileiro de Executivos Financeiros) e da Ademi-RJ (Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário). marciofortes@marciofortes.com.br



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