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Dois milhões de empregos

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(O Globo, 15/12)

BRASÍLIA. Um ano depois de assumir o comando do Ministério do Trabalho com o peso da promessa de campanha feita pelo presidente Lula de criar dez milhões de empregos em sua gestão, o ministro Jaques Wagner reconhece que a sociedade continua à espera de uma resposta do governo para o desemprego, que, admite, atingiu taxas preocupantes este ano. Mas aposta que, com o crescimento da economia, sobretudo no setor de infra-estrutura, o mercado de trabalho formal deverá criar dois milhões de empregos em 2004. Ele ressalta que mesmo com mau desempenho da economia, o ano deverá fechar com um milhão de novas contratações com carteira assinada. 
 
Caso se confirmem as expectativas do governo e a economia cresça em torno de 3,5% em 2004, qual a estimativa do Ministério do Trabalho para a criação de novos empregos no próximo ano? 
 
JAQUES WAGNER: Neste ano agora, em que o crescimento vai ser muito baixo, em torno de 0,5%, 0,6%, pelas estimativas que estão sendo feitas, devemos fechar o ano com um milhão de novos empregos. Até o mês de outubro, foram assinadas 910 mil novas carteiras de trabalho. O crescimento do PIB não é multiplicativo porque depende do setor que está crescendo, se for um setor que não é muito empregador, você pode ter um crescimento da economia e não ter crescimento do emprego. Quando você aumenta o PIB via indústria de capital intensivo, de tecnologia de ponta, não necessariamente você terá aumento do emprego. 
 
Mas qual é a expectativa de empregos do ministério? 
 
WAGNER: Como o governo está preocupado em alavancar os setores mais empregadores, como construção civil, turismo, empreendedorismo, agricultura familiar, acho que no ano que vem podemos bater o dobro e atingir dois milhões de novos postos de trabalho no mercado formal. Na última reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, fez questão de afirmar que, com a consistência da macroeconomia, 2004 terá que estar dedicado ao desenvolvimento e isso quer dizer geração de emprego. 
 
O senhor falou que neste ano foram criados um milhão de empregos, isso não combina com os índices de desemprego que aumentaram. Por que? 
 
WAGNER: Porque o número de empregos criados não foi suficiente para atender o volume de entrada de pessoas no mercado. Isso acontece também por causa da queda na renda que leva pessoas de uma mesma família a procurar emprego para voltar a renda anterior. Esse problema de renda não é um problema de governo, ele vira um problema de governo porque gera desemprego. Como tem desemprego, o mercado de trabalho fica favorável ao empregador, que vai rebaixando a renda do assalariado e a conseqüência disso é menos dinheiro na rua. Então, é preciso chamar a atenção dos empresários, que na medida que a renda vai caindo eles também pagam a conta porque a economia não gira. 
 
Quais os setores que deverão puxar as contratações em 2004? 
 
WAGNER: Para mim, o foco está sempre nos setores de transformação, por exemplo, indústria do couro, sapato, essas indústrias que empregam largamente. O presidente ainda vai anunciar as linhas prioritárias de investimento, ele deve fazer um pronunciamento no dia 18. Para o emprego, o setor de serviços, incluindo saúde e educação, é uma das áreas que pode puxar as contratações. Os setores de construção civil, de turismo e o comércio também têm maior poder de alavancagem do emprego. É claro que desenvolvimento significa investimento e parte desse investimento é público e se você faz investimento em habitação, saneamento, estradas, saúde e educação, você tem um impacto no emprego muito positivo. 
 
Quais setores terão prioridade na política de investimentos que o presidente Lula vai lançar? 
 
WAGNER: Está sendo construída uma estratégia de desenvolvimento que passa por uma política industrial. A prioridade do governo como investidor será em infra-estrutura. É energia elétrica, estrada, habitação, saneamento, e infra-estrutura para o turismo. Vai entrar dinheiro do orçamento, do FAT, do FGTS. Os investimentos no setor produtivo estão reservados para a iniciativa privada. 
 
Como está a proposta de criação das frentes de trabalho pelo governo? 
 
WAGNER: Tivemos reunião na Casa Civil, na última quarta-feira, para discutir esse assunto, e o que prevaleceu foi que é melhor liberar volume de investimento para projetos que estejam prontos, aguardando o fluxo de recursos, do que inventar alguma coisa porque tudo custa dinheiro. Essas frentes de trabalho só devem ser aplicadas numa sazonalidade, que não estamos vivendo. Em janeiro e fevereiro são feitas poucas contratações formais devido ao efeito sazonal (na época se contrata mais informalmente, aí você aumenta a taxa de ocupação, mas não necessariamente o emprego formal). A idéia de medidas emergenciais de ocupação só são bem aplicadas se forem nesses momentos. Elas não resolvem um problema de desemprego estrutural. Se tiver uma depressão, isso poderá ser adotado. Mas prefiro enfrentar uma eventual baixa de contratação com a ampliação do investimento público. Estamos com uma taxa de desemprego alta há seis meses e, portanto, é um problema de baixo crescimento econômico. Isso não é a resposta para esse momento. Acho que a situação atual é preocupante, mas a natureza da falta de emprego nesse momento é estrutural. 
 
O presidente prometeu criar dez milhões de empregos e essa meta vai sempre perseguir o governo. Após um ano no comando do Ministério do Trabalho o senhor continua achando essa meta realista? 
 
WAGNER: A meta do presidente está mantida até que ele resolva mudar. Formalmente, teremos até o último ano do mandato dele para tentar atingí-la. Ela não é linear, se a economia crescer mais em 2004, vamos gerar mais empregos do que neste ano. Evidentemente, esse compromisso de campanha foi feito em cima de uma projeção de crescimento da economia e se isso não é consolidado como aconteceu este ano, não tem geração de emprego. É difícil dizer se essa meta é viável porque a economia não é feita só de números, você não tem o controle sobre o mercado de trabalho. 
 
Este foi um ano difícil e de arrumação, como tem dito o governo. Qual foi o momento mais crítico na sua avaliação? 
 
WAGNER: Acho que o momento mais crítico foi o da discussão das reformas, particularmente da reforma da Previdência, que exigiu articulação política e diálogo com a sociedade. O momento do IPI (o governo aceitou reduzir impostos para as montadoras em troca da manutenção de empregos) foi, ao contrário, um momento de sinergia entre governo, empresários e trabalhadores. As montadoras desovaram estoque e houve uma manutenção do nível de emprego. Eu diria que foi um ano difícil, mas de janeiro para cá, viemos diminuindo essa tensão sem ainda colher os resultados que queremos na área do emprego e no crescimento econômico. Talvez um dos momentos críticos tenha ocorrido nas discussões sobre o aumento da taxa de juros, mas de qualquer forma, passado esse tempo, se descobriu que as decisões foram acertadas e estamos tendo uma queda consistente na taxa sem o impacto negativo do retorno da inflação. 
 
E os desafios para o próximo ano. A reforma sindical será aprovada? 
 
WAGNER: Se conseguirmos chegar a um consenso no Fórum Nacional do Trabalho, poderemos aprovar a reforma no ano que vem. A espinha dorsal dessa reforma é fortalecer a representação sindical do lado dos empresários e dos trabalhadores, que hoje está muito pulverizada. E, aí, temos que discutir vários elementos como o financiamento sindical e a legitimação das centrais sindicais. 
 
E a reforma trabalhista? 
 
WAGNER: Estamos começando a discutir a reforma trabalhista para concluir um acordo no início do ano. Se 2004 for um ano de crescimento, teremos mais facilidades para discutir o assunto, no Fórum. 
 
O Programa Primeiro Emprego acabou não deslanchando neste ano. Quais são as expectativas para 2004? 
 
WAGNER: Considero que o volume de empresas que estão aderindo ao programa, cerca de 1.500, é satisfatório porque o programa é novo. À medida que o programa for ganhando credibilidade, vai saindo o medo e entrando a confiança. Acho que ele tende a crescer. O programa continua sendo uma das principais preocupações do presidente.


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