A paisagem da Rua Barão de São Francisco, uma das vias mais conhecidas na divisão entre os bairros do Andaraí e Vila Isabel, na Zona Norte do Rio, está mudando de forma definitiva. Operários e máquinas pesadas trabalham no processo de demolição do icônico complexo do antigo CARJ (Centro Administrativo do Banco do Brasil). O imenso complexo fortificado, que por décadas fez parte da rotina de milhares de moradores e trabalhadores da região, está deixando de existir para dar lugar a um megaprojeto de moradia popular e de classe média.
O terreno, com uma área estratégica de aproximadamente 40 mil metros quadrados, abrigava nove blocos de concreto e escritórios que lembravam a estrutura de um bunker. No entanto, o destino do imóvel foi selado após um longo imbróglio financeiro e jurídico.
O Impasse e o Abandono
A história da desocupação começou a se desenhar no fim de 2020, quando o contrato de locação do Banco do Brasil com o proprietário do imóvel — o Fundo de Investimento Imobiliário (FII) BB Progressivo, administrado pelo Banco BTG Pactual — chegou ao fim. Na época, em meio à consolidação do modelo de trabalho em home office e à reestruturação de suas agências, o BB propôs renovar o aluguel para ocupar apenas dois dos blocos, reduzindo drasticamente seus custos. Os administradores do fundo não aceitaram os novos termos.
Após disputas e tentativas de conciliação, o Banco do Brasil desocupou completamente as instalações. Sem um novo inquilino com o mesmo fôlego financeiro, o enorme complexo comercial acabou sofrendo com o abandono.
Moradores do entorno acumularam queixas ao longo dos anos. O subsolo do megaprédio sofria com constantes inundações em períodos de chuva, transformando-se em um foco preocupante para a proliferação de roedores e de mosquitos transmissores de doenças como a Dengue, Zika e Chikungunya. O local também chegou a registrar incidentes de segurança, incluindo um incêndio que atingiu os andares superiores de um dos blocos desativados, mobilizando o Corpo de Bombeiros.
A Venda Milionária e o Futuro Residencial
O capítulo final da disputa jurídica e comercial pelo ativo ocorreu quando o fundo aceitou a proposta de compra da empresa Sod Capital, que arrematou o gigantesco espaço por R$ 65 milhões.
Com a compra consolidada e os trâmites de liberação concluídos, as obras de demolição avançam para limpar o terreno. A área não voltará a ter vocação corporativa. A previsão é que o espaço receba um imenso complexo de habitação multifamiliar, injetando nova vida comercial na Zona Norte.
O projeto prevê a divisão do terreno para abrigar seis condomínios residenciais independentes. No total, serão erguidas mais de 2 mil unidades habitacionais. O empreendimento promete transformar o perfil demográfico do Andaraí, atraindo novos comércios, impulsionando o mercado imobiliário local e substituindo as lembranças do antigo “bunker” bancário por um novo endereço para milhares de famílias cariocas.