Os empreendimentos residenciais de alto padrão no Brasil passam por uma transformação. Se antes o destaque estava principalmente dentro dos apartamentos, hoje os projetos imobiliários investem cada vez mais na sofisticação, originalidade e curadoria dos espaços compartilhados. Piscinas panorâmicas, spas, lounges gastronômicos, ambientes contemplativos e áreas de convivência com assinatura de design tornaram-se parte essencial da experiência de morar.
A mudança reflete uma evolução do próprio mercado imobiliário de luxo. Mais do que metragem ou localização, os novos projetos buscam oferecer um estilo de vida completo. Nesse contexto, as áreas comuns deixaram de ser apenas complementares para se tornar parte central da proposta arquitetônica dos empreendimentos.
Dados da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), em parceria com a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), ajudam a explicar esse movimento: as vendas de imóveis de médio e alto padrão no Brasil cresceram 51,9% em um ano, ampliando a competitividade entre incorporadoras e estimulando projetos cada vez mais diferenciados.
Para consultores da Brain Inteligência Estratégica, empresa especializada em pesquisas do setor imobiliário, a valorização das áreas compartilhadas acompanha uma mudança clara no comportamento do comprador: o imóvel de alto padrão deixou de ser apenas um espaço privado, com o condomínio passando a funcionar como uma extensão da casa, reunindo lazer e convivência em um mesmo lugar.
Essa mudança também acompanha um olhar crescente para o bem-estar na arquitetura contemporânea. Para a arquiteta Bruna Rody, da Inspira Conceito e Design, o mercado imobiliário tem respondido a uma demanda cada vez maior por projetos que funcionem como refúgios dentro do cotidiano urbano.
A WGSN, plataforma de tendências que acompanhamos, identifica esse movimento como o dos ‘Reinos Restaurativos’. As pessoas buscam cada vez mais refúgios para descansar e se reconectar, seja em viagens curtas ou dentro da própria cidade. Isso se traduz na arquitetura em projetos que funcionam como verdadeiros ecossistemas de bem-estar, com isolamento acústico, áreas de descompressão e infraestruturas voltadas ao wellness”, explica.
Essa lógica ajuda a explicar por que ambientes como spas, academias panorâmicas, lounges de convivência e espaços gastronômicos ganharam protagonismo nos novos empreendimentos. Segundo levantamento da plataforma imobiliária DataZAP, academia, piscina e áreas gourmet continuam entre os itens mais valorizados pelos compradores, enquanto estruturas mais recentes, como minimercados internos e espaços de recebimento de entregas, aparecem entre as comodidades mais desejadas.
Condomínio como extensão da casa
No Espírito Santo, essa tendência se materializa em projetos que reinterpretam o conceito de morar a partir da integração com a natureza e da valorização das experiências.
Na Península de Guaibura, na Enseada Azul, em Guarapari, o Manami Ocean Living, empreendimento da Invite Inc., aposta no conceito de bem-estar associado ao mar. O projeto dedica atenção especial aos espaços de convivência e lazer, que serão entregues montados com mobiliários exclusivos e diferentes ambientes voltados ao relaxamento e ao encontro entre moradores.
O Clube Manami reúne piscinas adulto e infantil, piscina com hidromassagem, solarium, pool bar, lounge gourmet e espaço gourmet. A proposta é criar uma atmosfera de convivência que estimule encontros entre amigos e famílias.
O empreendimento também conta com o Espaço Wellness, que inclui hidromassagem, sala de massagem, área de relaxamento, sauna e academia com vista para o mar. Outro diferencial é o acesso exclusivo a duas praias da região – Jogo da Baleia e Praia do Buzo – ampliando a conexão entre arquitetura, paisagem e estilo de vida à beira-mar.
Para Lucas Peixoto, diretor da Invite Inc., essa valorização das áreas comuns reflete uma transformação mais ampla no mercado imobiliário contemporâneo. “O mercado evoluiu para oferecer mais do que metragem ou localização. Hoje, os projetos precisam criar experiências. Os espaços comuns passaram a ter um papel central porque estimulam convivência, bem-estar e qualidade de vida. Buscamos criar ambientes que ampliem o tempo de permanência e transformem o empreendimento em um verdadeiro lugar de viver e não apenas de morar”, afirma.
Arquitetura, paisagem e experiências
Nas montanhas capixabas, em Pedra Azul, o Vive Le Vin segue uma proposta igualmente sensorial, inspirada no universo do vinho e da arte. O empreendimento parte da ideia de que a arquitetura pode ser também uma expressão cultural, reunindo diferentes manifestações artísticas no próprio conceito do projeto.
Os painéis assinados pela artista Ana Paula Castro, presentes na arquitetura externa e interna, foram inspirados no movimento fluido do vinho ao ser servido na taça e na paisagem dos parreirais, traduzindo visualmente o conceito do empreendimento.
Essa inspiração também aparece nos espaços de convivência. O Vive Le Vin reúne ambientes voltados tanto ao relaxamento quanto a experiências gastronômicas e culturais, como SPA, sala de massagem, espaço kids, espaço de confrarias, tasting room para degustações, restaurante, coworking e biblioteca, além de um mirante voltado à contemplação da paisagem de Pedra Azul.
As áreas externas reforçam o caráter de refúgio do projeto, com pomar, fireplaces e áreas para piquenique, criando ambientes que estimulam a convivência e o contato com a natureza da região serrana.
Para Bruna Rody, quando o conceito de bem-estar é incorporado desde o início do projeto arquitetônico, ele passa a influenciar toda a experiência de morar. “O wellness não pode ser apenas um selo estético. Ele precisa nascer na gênese do projeto, orientando desde as premissas arquitetônicas até a escolha de materiais e o desenho dos espaços. A arquitetura pode atuar como um catalisador de saúde física e mental, criando ambientes que reduzem a fadiga, estimulam o relaxamento e fortalecem a conexão com a natureza”, afirma.
Para especialistas do setor, esse movimento ainda deve ganhar força nos próximos anos. Estudos da Brain Inteligência Estratégica indicam que os lançamentos de imóveis acima de R$ 2 milhões cresceram mais de 57%, enquanto as vendas avançaram cerca de 34%, sinalizando um público cada vez mais interessado em empreendimentos que ofereçam experiências completas de moradia.
Entrevista com especialista na área
Em entrevista abaixo, o corretor de imóveis especialista em valorização, locação e estratégia imobiliária na Grande Vitória, André Fontes, analisa as principais tendências do mercado, comenta o avanço dos empreendimentos com conceito wellness, aponta os itens mais valorizados pelos compradores e destaca as regiões da Grande Vitória que têm concentrado maior procura.
1) Tem observado uma maior procura por imóveis com conceito wellness (voltados para o bem-estar)? Por quê?
Sim. Ainda que nem sempre o comprador use o termo “wellness”, na prática ele tem buscado cada vez mais imóveis e condomínios que entreguem saúde, conforto e qualidade de vida no dia a dia. Isso aparece na valorização de itens como ventilação natural, boa incidência de luz, áreas verdes, lazer integrado, academia, espaços de convivência, áreas para atividade física e localização que reduza deslocamentos e aumente conveniência. Esse movimento ganhou força no pós-pandemia, quando a casa passou a ser percebida não apenas como moradia, mas como extensão da saúde física, mental e emocional da família. Globalmente, o segmento de wellness real estate foi um dos que mais cresceu dentro da economia do bem-estar, saindo de US$ 225,2 bilhões em 2019 para US$ 438,2 bilhões em 2023, com projeção de continuidade desse avanço.
2) Hoje, quais são os itens que as pessoas mais buscam em um imóvel?
Hoje, o comprador busca uma combinação de funcionalidade, segurança e liquidez futura. Na prática, os itens mais valorizados são: varanda, boa ventilação, iluminação natural, vaga de garagem, área de lazer, portaria ou sistemas de segurança, planta inteligente, localização com serviços próximos e, cada vez mais, infraestrutura para trabalho híbrido e rotina mais prática. Também há forte valorização de condomínios-clube e empreendimentos que concentram conveniência, especialmente para famílias e para quem deseja reduzir o tempo de deslocamento.
Outro ponto importante é que o mercado tem mostrado boa absorção tanto de produtos compactos e inteligentes, em regiões mais urbanas e centrais, quanto de unidades familiares em bairros com forte estrutura residencial. Isso aparece no próprio perfil dos empreendimentos em produção e lançamentos na Grande Vitória, com presença marcante de condomínios residenciais, clubes residenciais e produtos conectados a mobilidade e conveniência.
3) Há regiões da Grande Vitória que têm se destacado na procura por imóveis?
Sim, e isso é bastante nítido. Hoje, Vila Velha segue como um dos principais polos de procura, especialmente a região do Centro de Vila Velha e bairros da orla, que no 45º Censo Imobiliário somavam 6.232 unidades em produção, muito acima das demais regiões pesquisadas. Isso confirma a força de bairros como Praia de Itaparica, Praia da Costa, Itapuã, Jockey de Itaparica e entorno, que unem apelo residencial, conveniência urbana e valorização.
Em Vitória, os destaques continuam sendo Praia do Canto e Jardim Camburi, que no mesmo levantamento apareciam com 1.855 e 1.348 unidades em produção, respectivamente. São regiões que concentram demanda por localização premium, serviços, mobilidade e perfil de moradia mais qualificado.
Na Serra, a procura se destaca em Laranjeiras e entorno, com 1.766 unidades em produção, além de áreas como Novo Horizonte, Civit e Castelândia. É um mercado que atrai muito pela combinação entre expansão urbana, oferta de empreendimentos e relação custo-benefício.
Do ponto de vista de preço e valorização, Vitória também chama atenção nacionalmente: no Índice FipeZAP de julho de 2025, foi a capital com o maior valor médio de venda do país, em R$ 14.031/m², além de registrar alta de 23,90% em 12 meses, o que reforça a força do mercado capixaba, especialmente nos bairros mais consolidados e desejados.
4) Como avalia o mercado imobiliário do Espírito Santo nos últimos anos?
Minha avaliação é bastante positiva, com a ressalva de que o mercado ficou mais seletivo e mais profissional. O Espírito Santo viveu nos últimos anos um ciclo consistente de amadurecimento imobiliário, com demanda sustentada, maior qualificação dos produtos, valorização de localizações estratégicas e crescimento da percepção do imóvel como proteção patrimonial. Isso aparece tanto na evolução dos preços quanto no volume de empreendimentos em produção. Na Grande Vitória, o 45º Censo Imobiliário registrou 17.177 unidades em produção no 1º semestre de 2025, acima das 14.885 do censo anterior e também superior às 15.117 de julho de 2024.
Ao mesmo tempo, o mercado passou a conviver com um cenário macroeconômico mais exigente, especialmente por causa dos juros mais altos, que tendem a pressionar o crédito e exigir maior planejamento financeiro do comprador. Ainda assim, a construção civil brasileira seguiu em expansão: a CBIC projetou crescimento de 2,3% para o setor em 2025, embora em ritmo mais moderado justamente pelo efeito dos juros sobre o segmento imobiliário, sobretudo no médio e alto padrão.
No caso capixaba, vejo um mercado saudável, com fundamentos sólidos, boa capacidade de absorção e regiões muito bem posicionadas para continuar atraindo moradia e investimento. Em resumo: o mercado do Espírito Santo não está apenas aquecido; ele está mais sofisticado, mais orientado por qualidade de produto e mais atento ao comportamento real do consumidor.