Disputa por escritórios de alto padrão no Centro do Rio esquenta e pressiona por novos retrofits

em Diário do Rio / Mercado Imobiliário, 12/fevereiro

Movimento pressiona preços, impulsiona retrofit de prédios antigos e atrai empresas interessadas em ocupar áreas estratégicas da região central.

A redução da oferta de grandes lajes corporativas no Centro do Rio já começa a pressionar empresas que buscam escritórios de alto padrão, segundo análise do mercado imobiliário corporativo. O desmonte do sistema de home office é uma tendência internacional e como o Rio possui poucos prédios comerciais do mais alto padrão – conhecidos como Triple A no jargão dos corretores do setor – as empresas que vêm retornando ao modo tradicional de trabalhar estão baixando o nível de exigência para escolher suas novas sedes. Levantamentos citados pelo portal Metro Quadrado mostram que, enquanto a procura por espaços cresce com a crescente retomada do trabalho presencial, o estoque disponível está cada vez mais limitado, principalmente em prédios classificados como Triple A.

Em matéria de dezembro, o DIÁRIO mostrou que enquanto endereços como Leblon e Botafogo se tornam cada vez mais inacessíveis para quem busca espaço corporativo, o Centro do Rio reaparece no mapa das empresas: prédios reformados, transporte abundante e aluguéis muito mais baixos acabaram convertendo a região em opção real para 2026. Agora, dados da imobiliária americana CBRE, uma das maiores do mercado de escritórios fora do país, indicam que a cidade acumula nada menos que seis trimestres consecutivos de absorção líquida positiva, refletindo maior ocupação dos escritórios. Esse movimento tem reduzido rapidamente a vacância dos empreendimentos mais modernos e com grandes áreas contínuas, consideradas as mais disputadas pelas empresas.

Estoque restrito pressiona mercado corporativo

Segundo o departamento de imóveis comerciais da tradicional Sérgio Castro Imóveis, a vacância de espaços corporativos na região da orla de Botafogo, Centro, Glória e Flamengo está em torno de 7,5%, um nível considerado restritivo para quem busca novas locações. Em comparação, a vacância média em prédios de alto padrão na Zona Sul e no Centro segundo o levantamento é de cerca de 20,5%, ao passo que, quando se considera o estoque total de edifícios comerciais no Centro – incluindo imóveis mais antigos, a vacância chega a 56% — um indicador claro de oferta ainda significativa de espaço disponível.

Grande parte dos espaços ainda disponíveis no Centro está concentrada em edifícios mais antigos, entregues até 2011. Já empreendimentos mais recentes apresentam níveis próximos da ocupação total. No conjunto desses prédios de alto padrão, o estoque é estimado em cerca de 300 mil metros quadrados, com vacância de aproximadamente 18,7%, segundo os dados da CBRE, mais otimistas que da sua concorrente carioca.

Entre as poucas movimentações recentes de grande porte, um dos últimos espaços corporativos disponíveis foi locado pelo Nubank. Como foi dado em primeira mão pelo DIÁRIO DO RIO, a instituição financeira vai ocupar cerca de 7 mil metros quadrados em um edifício Triple A na Rua São Bento. O prédio apresentava vacância próxima de 50% até o terceiro trimestre de 2025 e, com a nova ocupação, a taxa caiu para cerca de 18%, conforme estimativas da consultoria Newmark, outra empresa gringa especializada em escritórios.

A expansão do banco integra um movimento de consolidação física da empresa, mas também evidencia a limitação de opções para grandes operações corporativas no Centro. Ao contrário de outras capitais, onde há oferta de prédios novos em larga escala, o mercado carioca depende de um estoque mais restrito e com menor ritmo de lançamentos. Recentemente, a região recebeu o inovador retrofit do edifício Aliança da Bahia, a mais nova opção de alto padrão pra escritórios na região Central. Localizado a poucos metros de um dos maiores estacionamentos subterrâneos da cidade, o prédio tem destacada fachada modernista e andares de 1000m2, e é praticamente todo movido a energia solar. Ainda há outros prédios mais modernos que se encontram disponíveis, mas em geral com metragens menores, como o Palácio Vigia, na rua da Quitanda, com andares de 340m2.

Especialistas avaliam que o cenário pode abrir espaço para novos ciclos de desenvolvimento imobiliário na Região Central, caso incorporadoras avancem com projetos de novos escritórios. A procura é grande; segundo informações do mercado, só a Defensoria Pública do Rio busca mais de 25.000m2 para locação, e a Marinha do Brasil estaria atrás de nada menos que 30.000m2 na região Central. Mesmo assim, a avaliação é que os valores de locação, embora em alta, ainda não sustentam uma retomada consistente de novas construções no curto prazo, até por conta da grande vacância nos prédios mais antigos.

Proprietários tradicionais e históricos de imóveis no Centro do Rio — como irmandades, confrarias e instituições religiosas — também passaram a investir de forma consistente na requalificação de seus ativos imobiliários, acompanhando a mudança de ciclo da região e buscando competir em condições reais com os edifícios mais modernos e com a ambiência corporativa da Zona Sul. Um exemplo emblemático é a Venerável Liga dos Devotos de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, que é proprietária de um andar inteiro de aproximadamente 420 metros quadrados no moderno edifício Paço do Ouvidor, na Rua do Ouvidor, nº 161 — voltado para a esquina com as ruas Uruguaiana e Gonçalves Dias, a poucos metros da Confeitaria Colombo e com acesso imediato ao metrô da Uruguaiana. O pavimento foi integralmente reformado pela confraria católica, incorporando padrões atuais de uso corporativo, e conta ainda com um terraço de cerca de 150 metros quadrados, com vista privilegiada para o Centro histórico do Rio de Janeiro. Historicamente conhecidos pela dificuldade de mobilização para investir em imóveis recebidos por doação, esses proprietários institucionais começam agora a rever essa postura, impulsionados pela revitalização do Centro e pela sua consolidação, novamente, como um grande polo de negócios, serviços e atividades corporativas da cidade. “Não tem jeito, se não estiver perfeito não aluga”, lamenta Sylvia Assumpção, secretária da Liga, que pede R$ 20 mil por mês pelo andar (incluindo condomínio e IPTU) — valor que já chegou a R$ 50 mil mensais no passado.

Outro fator que tem influenciado a queda da vacância é a redução do estoque total da cidade. Em 2025, nove edifícios corporativos deixaram o mercado de escritórios após serem convertidos para outras finalidades, como empreendimentos hoteleiros, sem contar as conversões e retrofits, como ocorreu no caso do prédio da Mesbla, e deve ocorrer no antigo prédio da UNISYS, na Lapa.


Ver online: Diário do Rio / Mercado Imobiliário