Depois de mais de seis anos sob o controle do Opportunity Fundo de Investimento Imobiliário, o antigo Hotel Glória entra em uma nova etapa. As primeiras chaves do Glória Residencial serão entregues gradualmente a partir do início de setembro de 2026. A conclusão transforma um hotel fechado desde 2008 em um condomínio de alto padrão e coloca à prova a demanda por apartamentos novos dentro de uma estrutura centenária, em um bairro que se valorizou acima da média recente da cidade.
Entrega encerra uma transformação iniciada em 2020
O Opportunity adquiriu o imóvel em 2020 e conduziu a conversão em parceria com a SIG Engenharia, responsável pela incorporação e construção. A atualização mais recente situa em cerca de R$ 400 milhões o custo do retrofit, praticamente o dobro do orçamento inicialmente projetado. As cifras divulgadas durante a obra, porém, variaram. Em 2024, o investimento total era estimado em R$ 450 milhões, dos quais R$ 300 milhões seriam destinados à construção, R$ 100 milhões ao terreno e R$ 50 milhões à decoração e a outras despesas.
O VGV projetado é de R$ 750 milhões, mas a diferença entre esse valor e o investimento não representa lucro direto. O cálculo ainda depende dos custos comerciais, tributários, financeiros e da velocidade de venda. Os documentos consultados não detalham financiamento bancário específico, juros ou resultado isolado do projeto. O fundo que realiza o empreendimento encerrou 2025 com patrimônio líquido de R$ 3,81 bilhões, receita de R$ 566,1 milhões com vendas de imóveis e lucro líquido de R$ 157,1 milhões.
Projeto reúne 266 apartamentos em terreno de 9 mil metros quadrados
A ficha técnica do Glória Residencial confirma 266 apartamentos em um terreno de 9.066 metros quadrados na Rua do Russel, 632, no bairro da Glória. O conjunto é dividido em três blocos. O Histórico I possui 88 unidades, o Histórico II soma 68 e o Contemporâneo concentra outras 110. As plantas variam de 77 a 311 metros quadrados, com configurações de dois a quatro quartos e até quatro suítes.
O complexo também tem quatro lojas, com áreas de 200 a 648 metros quadrados, e 436 vagas de garagem. O projeto legal e a fachada foram desenvolvidos pela Cité Arquitetura e pela Afonso Kuenerz Arquitetura. A execução arquitetônica ficou com a Seicor, os interiores são de Patricia Anastassiadis, o paisagismo leva a assinatura do escritório Burle Marx e a recuperação da fachada foi projetada pelo Henrique Mindlin Associados.
Proteção patrimonial elevou a complexidade da obra
Projetado originalmente pelo arquiteto francês Joseph Gire e inaugurado em 15 de agosto de 1922, o Hotel Glória chegou à conversão com a estrutura interna deteriorada após sucessivas tentativas de reforma. O retrofit preservou a linguagem externa do edifício, enquanto o interior foi reorganizado para atender às exigências técnicas de moradia, incluindo novas redes, circulação, segurança e áreas privativas maiores do que os antigos quartos de hotel.
A proteção municipal alcança elementos como volumetria, cobertura, fachadas, escadarias, varandas, esquadrias, ornamentos e revestimentos. Essa restrição ajuda a explicar por que grandes retrofits tendem a custar mais e carregar riscos superiores aos de uma construção convencional. No Glória, a solução também envolveu a implantação do bloco Contemporâneo e a integração dos edifícios por jardins, elevadores panorâmicos e áreas de lazer nos terraços.
Preço do luxo supera a média do bairro
A última referência pública detalhada de preços é de outubro de 2024, quando 68 unidades do Histórico II foram ofertadas a partir de R$ 16,2 mil por metro quadrado. Os apartamentos daquela etapa tinham de 80 a 168 metros quadrados e podiam chegar a R$ 2,7 milhões. Na ocasião, 72% das 200 unidades disponibilizadas na primeira fase haviam sido vendidas. Em agosto de 2026, ainda existiam apartamentos no estoque, mas não foi divulgado um preço atualizado. Cerca de 60% dos compradores são do estado do Rio.
Valorização da Glória reforça a aposta
A Glória ficou mais cara para comprar e, sobretudo, para alugar. Segundo dados do Secovi-Rio, o preço médio de venda avançou 23,7% entre julho de 2021 e julho de 2026, de R$ 8.945 para R$ 11.062 por metro quadrado. No aluguel, a alta acumulada foi de 91,2%, de R$ 31,54 para R$ 60,31 por metro quadrado. A proximidade do Centro, do Aeroporto Santos Dumont e do Aterro do Flamengo, somada à recuperação de espaços públicos e à chegada de novos negócios, ampliou a procura pelo bairro.
Como o Glória Residencial foi estruturado para venda, não há cap rate, aluguel operacional ou taxa de vacância divulgados para o projeto. A viabilidade depende da absorção das unidades restantes e do prêmio que os compradores aceitarão pagar pela localização, pelas áreas comuns e pelo patrimônio restaurado. A entrega das chaves mostrará se esse conjunto de atributos foi suficiente para compensar o custo e o prazo de uma das maiores reconversões residenciais recentes do Rio.
Segundo informações oficiais de Livro digital e ficha técnica do Glória Residencial, os dados centrais desta reportagem foram verificados na fonte primária.