A valorização dos imóveis usados e os incentivos à recuperação de edifícios antigos levantam uma questão premente para o mercado imobiliário de Curitiba: como aproveitar melhor o patrimônio construído da cidade?
O retrofit, que adapta edificações existentes a novas necessidades, surge como alternativa para reocupar imóveis, preservar características arquitetônicas e atender à demanda atual.
Os indicadores ajudam a dimensionar esse movimento, embora não comprovem, isoladamente, a rentabilidade de projetos de requalificação. Segundo o Instituto Paranaense de Pesquisa e Desenvolvimento do Mercado Imobiliário e Condominial (Inpespar), vinculado ao Sindicato da Habitação e Condomínios do Paraná (Secovi-PR), o ticket médio dos imóveis residenciais usados chegou a R$ 503,9 mil no segundo trimestre de 2026, alta de 5,3% em relação ao mesmo período do ano anterior. Em julho, o valor médio foi de R$ 491 mil, avanço de 7,5% em 12 meses.
A movimentação também aumentou. Dados da Prefeitura de Curitiba registraram 4.413 guias de Imposto sobre a Transmissão de Bens Imóveis (ITBI) pagas em julho, maior volume desde agosto de 2021 e 15,3% acima do registrado no mesmo mês de 2025. O Centro concentrou 9,4% das negociações residenciais, liderando entre os bairros.
O que faz um imóvel antigo ganhar valor
Para a corretora Kamille Cunha, da Ka.Ka Curadoria de Imóveis, a idade não determina, por si só, o potencial de valorização de um imóvel. Localização, qualidade construtiva, planta, iluminação natural, ventilação, pé-direito e condições do condomínio estão entre os fatores relevantes, assim como as características do entorno e as possibilidades de adaptação dos ambientes.
Em alguns casos, ela enfatiza, mudanças na distribuição dos espaços ampliam a funcionalidade do apartamento, como integrar a cozinha à área social ou criar uma suíte. Em outros, o diferencial está nos elementos originais da construção. “Arcos, esquadrias e pisos de taco podem conferir identidade a imóveis que, com uma reforma convencional, perderiam parte de suas características”, afirma.
Ela explica que a recuperação de imóveis antigos pode seguir estratégias distintas, conforme o objetivo da intervenção, ambas com potencial de retorno financeiro. O retrofit busca modernizar a edificação para atender às necessidades atuais, preservando, sempre que possível, suas características arquitetônicas. Já o house flipping consiste em comprar um imóvel, reformá-lo e revendê-lo por um valor superior ao investimento inicial, porém, nem sempre com foco na preservação.
Independentemente da estratégia, manter a singularidade do imóvel e incorporar conforto e funcionalidade, sem apagar sua história, é fundamental, afirma Kamille. O resultado, porém, também depende de encontrar compradores que valorizem características nem sempre presentes nos lançamentos. Entre os atrativos das construções de outras épocas, ela cita a metragem mais generosa, a localização e a possibilidade de personalização.
Do clássico ao contemporâneo: a transformação da área social
Um exemplo de retrofit é a transformação realizada em um apartamento no La Concorde, um dos edifícios clássicos de Curitiba. A R3 Retrofit, empresa curitibana que atua desde 2021 na transformação de imóveis, renovou a área social do apartamento, substituindo a linguagem clássica, marcada por sancas, molduras e colunas decorativas, por uma composição contemporânea, de linhas limpas e ambientes mais integrados.
A remoção dos elementos ornamentais e da antiga estante, aliada ao redesenho das passagens entre as salas, ampliou a continuidade visual dos espaços. As vigas de concreto aparentes introduziram contraste à paleta neutra, enquanto a preservação do piso de madeira manteve a materialidade original do imóvel.
A renovação também passou pela iluminação e pela ambientação. Arandelas, luminárias de design e luz indireta substituíram a antiga composição de pontos embutidos, enquanto cortinas do piso ao teto favoreceram a entrada de luz natural. O mobiliário de desenho simples, as obras de arte e o grande tapete bordô organizaram a área de estar sem comprometer a amplitude. “A proposta foi preservar a identidade do imóvel, trazendo leveza, funcionalidade e uma nova leitura dos espaços para o dia a dia”, analisa Kamille.
Novos olhares
A regulamentação do retrofit e os incentivos do programa Curitiba de Volta ao Centro, da Prefeitura de Curitiba, estão ampliando as possibilidades de recuperação de imóveis, especialmente na região central. Kamille já percebe movimentação nesse sentido e avalia que o interesse também alcança bairros como Batel, Bigorrilho, Mercês e Alto da XV, onde há imóveis antigos com potencial de atrair compradores em busca de espaço e personalidade.
“A gente já vinha numa onda de interesse por imóveis antigos para reformar, por conta dessa percepção de ter mais espaço, diferente dos imóveis novos que vão na contramão desse movimento. Mas agora, com esse incentivo ao Centro, o interesse é maior ainda”, diz.
Mas quanto custa recuperar um imóvel por meio do retrofit? Segundo Kamille Cunha, o investimento pode variar de R$ 5 mil a R$ 6 mil por metro quadrado. Após a reforma, o valor do imóvel pode chegar a R$ 12 mil por metro quadrado, estima a corretora. Para compradores interessados em reformar para morar ou revender, a conta pode ser atrativa: mesmo que o custo de aquisição e reforma resulte em um valor de até R$ 8 mil por metro quadrado, ainda haveria potencial de valorização em relação ao preço estimado após a intervenção.
Para a corretora, olhar com atenção para esses imóveis é reconhecer que a cidade já oferece boas opções para quem deseja comprar, reformar e morar em um lugar com história. “Acredito que Curitiba tem muitas oportunidades que ainda não são percebidas pelas pessoas. Às vezes, é preciso olhar além do que está aparente para descobrir o que um imóvel pode se tornar”, afirma Kamille.