‘Rio em Tempo Real’: debate na Câmara do Rio projeta próximos passos do Porto Maravilha

em Câmara Municipal do Rio de Janeiro, 26/maio

Encontro abordou panorama atual da região portuária e os desafios para o futuro do Centro do Rio.

A Zona Portuária é um dos principais símbolos da transformação urbana, econômica e cultural da cidade do Rio. As mudanças, iniciadas em 2010, e as projeções para o futuro da região foram temas centrais do seminário “Rio em Tempo Real: o Novo Porto”, realizado nesta terça-feira (26/05), no Salão Nobre da Câmara Municipal do Rio. O encontro reuniu vereadores, representantes da Prefeitura e integrantes do setor privado, com mediação da jornalista Berenice Seara.

A derrubada do Elevado da Perimetral, concluída em 2013, trouxe uma nova perspectiva sobre a ocupação e revitalização da região central do Rio. “Esse projeto vitorioso foi um marco no processo de valorização da nossa cidade. Reunir diferentes setores da sociedade na Câmara é fundamental para aprimorar os próximos passos do planejamento da Zona Portuária”, destacou Berenice durante a abertura do evento.

Revolução urbanística

Na abertura do primeiro painel “Porto Maravilha: 16 anos de impactos urbanos, sociais e econômicos”, a vereadora Rosa Fernandes (PSD) relembrou o cenário da região antes da derrubada da Perimetral, que era marcado por desconfiança. “Hoje, com a derrubada da Perimetral, nós ficamos deslumbrados com a paisagem. Para melhorar o Rio, o poder público precisa ter ousadia e coragem para transformar a cidade”, afirmou a parlamentar.

Rosa Fernandes reforçou que a implementação de equipamentos de lazer, cultura e turismo é fundamental para construir um bairro mais habitável. “Quero ver um bairro cheio de vida, com famílias se divertindo, pessoas caminhando nas ruas e um comércio ativo”, projetou.

Para a parlamentar, a transformação da área também abre espaço para um novo modelo de planejamento da mobilidade urbana. “Podemos ter uma área em que a prioridade para deslocamento seja o transporte público, com ônibus e VLT, deixando de lado os carros particulares”, disse Rosa.

Durante o seminário, representantes do mercado imobiliário apresentaram perspectivas positivas para o desenvolvimento da região central. A diretora de Novos Negócios da Acla Desenvolvimento, Ana Carmen Alvarenga, contou que os complexos residenciais já estavam previstos desde o início do processo de revitalização do Centro.

Para ela, a continuidade dos investimentos depende da identificação da população com o projeto urbano. “Trazer vida e paixão para o projeto é o primeiro passo. As pessoas precisam ter o desejo de viver essa experiência”, comentou.

Marcel Balassiano, subsecretário municipal de Desenvolvimento Econômico e Inovação, apresentou o panorama econômico da região e destacou o aumento no número de empresas e trabalhadores ocupando a região. Segundo dados da Prefeitura, entre 2020 e 2024, houve aumento de cerca de 20% no número de empresas instaladas na região, o que resultou em um crescimento de 27 mil para 47 mil trabalhadores na área. “A revitalização, além de impactar as grandes empresas e o número de habitações, também promove o comércio local, como farmácias, mercados e lanchonetes”, apontou.

Balassiano também destacou o papel da Região Portuária ao sediar grandes eventos e no fortalecimento do turismo no Rio. “Para 2026, a expectativa é que sejam arrecadados mais de R$ 2 bilhões com Imposto Sobre Serviço (ISS) graças aos eventos e turismo na cidade”, projetou.

De acordo com o subsecretário, um dos objetivos da Prefeitura é transformar o Rio na capital tecnológica da América Latina. Ele citou ainda a Lei Municipal 7.000/2021, que reduziu de 5% para 2% a alíquota do ISS para empresas de tecnologia que se instalarem na Região Portuária, além do projeto Porto Maravalley, voltado à inovação e tecnologia.

O vereador Flávio Valle (PSD) afirmou que, visando o futuro, a consolidação dessa região como um polo tecnológico é uma conquista para o Rio. “Nos próximos anos, o porto continuará sendo o berço da inovação e da tecnologia para a cidade”, comentou.

Valle defendeu a reocupação da região central e avaliou que o Centro possui melhores condições estruturais para receber trabalhadores do que bairros mais afastados, como a Barra da Tijuca. “É uma área urbanizada pronta para receber os trabalhadores”, afirmou.

Um dos pontos levantados por Flávio durante o debate é a necessidade de ter serviços e atividades comerciais todos os dias da semana na região Central. “É nesse ponto que a Câmara pode ajudar, criando incentivos para que isso aconteça”, reforçou.

A vereadora Rosa complementou que é dever do poder público acompanhar e incrementar equipamentos culturais na região do porto. “Não basta ter um ou outro. Precisamos ter vários teatros, museus e cinemas para que a população tenha opções de lazer no dia a dia”, disse.

Perspectiva para o futuro

No segundo painel do dia, “O futuro do Porto: caminhos para o próximo ciclo”, Carlos Roberto Osório, presidente do Conselho Empresarial da Renovação do Centro do Rio, relembrou a complexidade do projeto que envolvia a derrubada do elevado da Perimetral. Osório era secretário de Transportes em 2013, quando a via foi demolida. “A população ficou muito reticente na época, e é normal que esteja preocupada com as próximas transformações. É importante que o morador esteja satisfeito e se sinta pertencente ao bairro. Isso ainda não existe, mas precisamos trabalhar para que mude”, afirmou.

O assessor-chefe especial de Relações Institucionais e Captação da Companhia Carioca de Parcerias e Investimentos (CCPar), Rilden Albuquerque, destacou o resgate histórico e simbólico da Região Portuária. Para ele, valorizar a Pequena África, espaço que concentra a memória da diáspora africana e da resistência negra, é crucial para tornar a região ainda mais atrativa. “Um bairro não se faz apenas pelo aspecto residencial. É preciso resgatar a importância histórica dessa área para que as pessoas tenham interesse em visitá-la”, disse.

O vereador Rafael Satiê (PL) ressaltou o papel da Câmara para viabilizar as mudanças urbanísticas na região. O parlamentar citou, por exemplo, o esforço da Casa para atualizar a legislação que proibia construções residenciais na área central da cidade.

Satiê também defendeu a criação de incentivos fiscais para empreendimentos imobiliários na região. “É importante que o poder público olhe para o empreendedor com cuidado, pensando em medidas que fomentem o investimento na cidade”, afirmou.

O vereador ainda apontou o transporte público como um dos principais desafios da Região Portuária diante do aumento da circulação de trabalhadores. “Temos poucas linhas de ônibus na região, e o VLT não é propriamente um transporte de massa”, avaliou.

A possibilidade de gentrificação, processo resultante do aumento do custo de vida e que gera a saída de moradores e comerciantes da região, também foi debatida durante o seminário. Segundo a vereadora Tainá de Paula (PT), não há indícios de que isso tenha acontecido na Zona Portuária após as transformações.

Tainá de Paula, que também é arquiteta e urbanista, argumentou que projetos como o Porto Maravilha são fundamentais para ampliar a arrecadação pública e gerar investimentos urbanos. Para ela, no entanto, é prioridade garantir que parte desse retorno seja revertida em arborização para a região central da cidade. “Precisamos implementar instrumentos que acelerem a construção do ‘Mata Maravilha’. Temos que dar o parâmetro construtivo, mas também estabelecer as contrapartidas necessárias”, disse a vereadora.

A vereadora também demonstrou preocupação com a oferta de habitação popular nas áreas impactadas pelas transformações urbanísticas, como a Praça Onze, Central do Brasil e a Zona Portuária. “Nós temos a tarefa de produzir moradias populares. Ainda não temos projetos que visem a classe mais pobre da sociedade. Essas pessoas não são contempladas pelas políticas públicas”, declarou.


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