Selic cai, mas crédito imobiliário continua caro. O que falta para as taxas caírem?

em IstoÉ Dinheiro, 25/abril

A redução da taxa Selic para 14,75% ao ano reacendeu uma expectativa recorrente no mercado: a de que o crédito imobiliário ficaria mais barato quase automaticamente. A lógica, à primeira vista, parece simples. Se o juro básico cair, o financiamento também deveria cair. Mas, no Brasil, a engrenagem do crédito habitacional é mais complexa do que essa relação direta sugere. O Copom de fato reduziu a Selic para 14,75% e manteve discurso de convergência da inflação, mas isso não significa repasse imediato à ponta final do mutuário.

O financiamento imobiliário não responde apenas à taxa básica. Ele depende, sobretudo, da estrutura de funding que sustenta essas operações no longo prazo. No caso dos grandes bancos, especialmente da Caixa, o crédito habitacional continua fortemente apoiado em recursos do SBPE e do FGTS, além de modalidades específicas com recursos livres. Isso torna a transmissão monetária mais lenta, porque o custo do dinheiro para o banco não acompanha, no mesmo ritmo, um corte pontual da Selic. A própria Caixa lançou, no fim de 2024, uma linha para pessoa física com taxa pós-fixada a partir de 114% do CDI, voltada a imóveis acima de R$ 1,5 milhão ou a clientes já expostos ao crédito habitacional, o que mostra como o mercado passou a buscar alternativas de fundo e segmentação.

Na prática, o setor continua operando com cautela porque a base tradicional de financiamento habitacional segue pressionada. Dados mais recentes da Abecip mostram que, em fevereiro de 2026, os financiamentos com recursos da poupança somaram R$ 11,8 bilhões, com queda de 2,9% frente a janeiro e de 7% na comparação com fevereiro de 2025. No primeiro bimestre, o volume atingiu R$23,9 bilhões, 7,6% abaixo do registrado no mesmo período do ano anterior. Mais importante: a captação líquida do SBPE ficou negativa em R$4,1 bilhões em fevereiro, depois de já ter registrado forte saída em janeiro. Em outras palavras, há menos fôlego na principal fonte que historicamente abastece o crédito imobiliário.

É justamente esse descompasso que explica por que a parcela da casa própria ainda não acompanhou a melhora do ambiente macroeconômico.

O crédito imobiliário é uma operação de longo prazo, sensível à previsibilidade da inflação, à confiança do mercado e ao custo de carregamento dessas carteiras. O banco não olha apenas para a fotografia do mês. Ele olha para a trajetória esperada dos juros, para a estabilidade do fundo e para o risco de conceder crédito de longa maturação em um ambiente ainda sujeito a volatilidade.

Há também um ponto importante de percepção. Muitas vezes, o consumidor entende a Selic como uma espécie de botão automático do crédito, quando, na realidade, ela funciona mais como uma referência macro. Ela melhora o pano de fundo, reduz tensões e reabre espaço para revisões de preço, mas não elimina, por si só, os gargalos estruturais do mercado imobiliário. Quando a poupança perde força, o banco precisa calibrar melhor sua concessão. E quando o cenário externo ainda inspira prudência, a tendência é preservar margem, manter seletividade e retardar cortes mais agressivos ao tomador final.

Isso não significa ausência de movimento institucional. Em outubro de 2025, a Caixa e o governo federal anunciaram medidas para reforçar a política habitacional, incluindo a elevação do teto do SFH de R$ 1,5 milhão para R$ 2,25 milhões e o aumento da cota de financiamento para até 80% no SAC e 70% no Price. A expectativa oficial era ampliar a capacidade de crédito do sistema e melhorar a oferta de financiamento. Mas medidas regulatórias e expansão de limite ajudam a sustentar o mercado; não garantem, necessariamente, queda imediata das taxas cobradas ao mutuário.

O ponto central é que a redução da Selic melhora a direção, mas ainda não resolve a equação completa.

Para que o crédito imobiliário fique de fato mais barato de forma consistente, é preciso que o ciclo de queda dos juros ganhe continuidade, que a inflação siga convergindo com mais segurança e que as fontes de financiamento voltem a mostrar estabilidade. Sem isso, a tendência é de manutenção de taxas em patamar ainda elevado, mesmo diante de um ambiente macro teoricamente mais favorável.

O consumidor já percebe que alguma coisa mudou na economia, mas ainda não vê essa mudança refletida, na mesma proporção, na prestação do financiamento. E essa talvez seja a principal frustração do momento. O Brasil iniciou uma inflexão monetária, mas o crédito habitacional, por sua natureza, não reage com a mesma velocidade. Entre a queda da Selic e o alívio real na parcela, existe um intervalo que depende menos da esperança e mais da mecânica do sistema financeiro.

No curto prazo, portanto, a tendência continua sendo de estabilidade nas taxas, com maior seletividade na concessão. O mercado ainda tenta testar se esse novo ciclo terá força suficiente para produzir um efeito estrutural sobre o custo do crédito imobiliário. Até lá, a casa própria continua sendo um projeto impactando não apenas pelo juro básico, mas pela confiança, pela liquidez e pela capacidade dos bancos de sustentar financiamento longo em um ambiente que ainda pede prudência.


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Bruno Medeiros Durão é advogado tributarista e especialista em finanças, presidente do escritório Durão, Almeida & Pontes Advogados Associados