Em qualquer outro ponto da história recente da economia doméstica, momentos de aperto monetário apresentaram forte correlação com uma desaceleração do mercado imobiliário brasileiro. E, de fato, as previsões gerais para um cenário de Selic em 15% atingido ao longo do ano eram de um esfriamento do mercado, com a demanda por imóveis recuando em meio a taxas de juros de financiamento imobiliário alcançando os patamares mais elevados dos últimos anos. No entanto, observamos uma resiliência bastante notável sob o ponto de vista de demanda, mantendo a atividade imobiliária em evidência ao longo de todo 2025.
De maneira geral, podemos dizer que essa atividade foi majoritariamente puxada pelo segmento econômico, uma vez que as condições vigentes de programas habitacionais, principalmente o Minha Casa Minha Vida (MCMV), permaneceram competitivas, fornecendo acesso ao imóvel próprio para uma parcela relevante da população ao longo das faixas de renda do programa. Uma vez que as taxas de juros das operações enquadradas no MCMV são fixas de acordo com a renda da família, região do país e valor do imóvel escolhido, e essas atualmente variam entre 4% a.a. e 8,16% a.a. nas faixas de renda tradicionais (1 a 3), e 10,5% a.a. para o novo faixa 4, que atende famílias com renda mensal de até R$ 12.000, a demanda se mostra bastante aquecida em função do déficit habitacional do país e dos baixos níveis de desemprego.
Já o segmento de médio e alto padrão (MAP), que é historicamente mais sensível às taxas de juros de financiamento, lida com um cenário mais hostil. As taxas médias de financiamentos imobiliários livres podem chegar a até 14,8% a.a., o que limita o poder de compra dos proponentes e acaba pesando na decisão de aquisição para esse público. No entanto, as vendas de novas unidades nos últimos 12 meses superaram consideravelmente o número de lançamentos, reduzindo gradativamente os estoques disponíveis e levando o mercado a se questionar sobre os gatilhos para essa demanda em um momento adverso.
Os baixos níveis de desemprego se mostram importantes nessa equação, não só proporcionando estabilidade de rendimentos para um maior número de famílias espalhadas pelo país, como contribuindo com a captação líquida do FGTS. Uma vez dentro do fundo, os recursos contribuem coletivamente para financiamento de imóveis para a sociedade, e acumulam valores individualmente que podem consistir em uma parcela bastante relevante do valor do imóvel, contribuindo para a decisão de compra. Além disso, a publicação mais recente do índice FipeZAP, mostrou uma valorização imobiliária acima do capturado pela inflação medida pelo IPCA em 2025, gerando expectativas de um desembolso mais oneroso no futuro para compra de um imóvel similar nas condições atuais.
Nesse relatório setorial, passamos por outros temas relacionados ao setor, como confiança, fontes de financiamento e os desafios nos custos, compondo nossa análise em relação ao comportamento da indústria da construção para 2026, que em meio a perspectivas de cortes de juros domésticos, apoiam perspectivas de mais um ano positivo para o setor em nossa visão.
Destaques desta edição: Dados de Confiança
Confiança da Construção (ICST) apresentou baixa em dezembro, mas nível de utilização da capacidade apresenta recuperação após recuo na leitura anterior.
Indicadores de Atividade
Conjunto de indicadores da Sondagem da Indústria da Construção avança, embora Utilização da Capacidade de Operação (UCO) recue na leitura mensal.
Fontes de Recursos e Novas Contratações
Poupança registra maior captação líquida mensal desde junho de 2024. Já as contratações via SBPE permanecem em tendência de desaceleração.
Dados de Crédito e de Emprego
Estoque de vagas de emprego no setor da Construção apresenta baixa em novembro, enquanto as taxas médias de juros para crédito imobiliário recuam.
Índice de preços
INCC-M desacelera na leitura anual, e acumula 6,1% nos últimos 12 meses, com arrefecimento tanto em mão de obra como em materiais na base de comparação.
Dados de Mercado – Construção Civil
Dezembro marcou uma forte correção nos principais ativos ligados ao setor, com o Índice imobiliário (IMOB) recuando 6,7%, contra uma alta de 1,3% do Ibovespa. Ainda assim, o índice setorial fechou o ano com uma valorização de 73,5%, superando com folga a performance do IBOV no período (+34%).