O debate sobre gentrificação ganhou espaço justamente quando o Rio atravessa um novo ciclo de valorização, marcado pelo crescimento do turismo, pela retomada de investimentos e por novas formas de morar e ocupar o território. Esse cenário traz desafios, e a gentrificação é um deles. Mas talvez estejamos começando a discussão pelo lugar errado.
Antes de transformar a valorização imobiliária, o turismo ou a locação por curta temporada em explicações para os problemas de acesso à moradia, precisamos compreender uma dinâmica muito mais ampla em curso no Rio.
Gentrificação existe e seus efeitos precisam ser observados. Mudanças urbanas podem elevar preços e alterar o perfil socioeconômico de determinadas regiões. Isso não significa, porém, que toda valorização seja resultado desse processo, nem que exista uma única causa para a pressão sobre os preços dos imóveis.
A demanda mudou, mas a oferta continua limitada
A própria composição das famílias ajuda a entender parte desse cenário. Segundo o IBGE, 18% das unidades domésticas brasileiras eram formadas por apenas uma pessoa em 2023. Em 2012, eram 12,2%.
Temos famílias menores, pessoas vivendo sozinhas por mais tempo e idosos mantendo residências independentes. O trabalho remoto e híbrido também alterou a relação com a casa e aumentou a importância da localização.
Na prática, uma população que não cresce na mesma proporção pode precisar de mais unidades habitacionais.
Soma-se a isso o efeito dos juros: o financiamento mais caro posterga a compra para parte das famílias e prolonga sua permanência no aluguel, enquanto o custo de capital também dificulta novos empreendimentos.
E essa pressão não ocorre da mesma maneira em todo o Rio. Dados do Secovi Rio mostram que, em junho de 2025, o valor do metro quadrado de locação residencial em Copacabana acumulava alta de 20,1% em 12 meses, enquanto na Lagoa a variação era de 3,2%.
A vocação turística de Copacabana certamente ajuda a explicar parte dessa diferença. O bairro está muito mais exposto ao fluxo de visitantes e à locação por curta temporada. Reconhecer essa influência, porém, é diferente de atribuir a ela, isoladamente, a elevação do custo de morar.
O Rio é uma cidade global e recebe cada vez mais visitantes. O Estado registrou cerca de 2,2 milhões de turistas internacionais em 2025, recorde histórico e 43,7% acima do ano anterior.
Esse fluxo movimenta hotéis, restaurantes, transporte, comércio, cultura, entretenimento e uma extensa cadeia de serviços.
Do lado da oferta, há outro componente. Regiões consolidadas passaram muito tempo com pouca produção de novas unidades e, em bairros praticamente sem terrenos disponíveis, o aumento da procura encontra um estoque restrito.
Retrofit, recuperação de imóveis vazios, reconversão de edifícios e adensamento responsável passam, portanto, a fazer parte das alternativas.
Grandes metrópoles sofrem ciclos de mudança. Regiões são redescobertas, imóveis ganham novos usos e alterações econômicas e demográficas modificam a maneira como as pessoas ocupam o território.
A discussão sobre gentrificação é importante justamente por isso. Não para encontrar um culpado, mas para identificar onde seus efeitos exigem políticas públicas e onde esse mesmo processo pode abrir novas oportunidades de desenvolvimento.
O Rio reúne atributos que poucas metrópoles conseguem reproduzir: natureza, cultura, patrimônio, vida urbana e uma identidade reconhecida mundialmente. O interesse crescente de visitantes, investidores, empresas e novos moradores produz tensões, mas também abre possibilidades.
O desafio é administrar esse novo ciclo, ampliando a oferta habitacional, a infraestrutura, a mobilidade e fortalecendo novas centralidades para que seus benefícios alcancem mais territórios e pessoas.
Uma cidade viva muda. Para o Rio, a questão não é impedir essa transformação, mas saber aproveitá-la.