Legado em construção: dez anos após a Rio 2016, um balanço das heranças e das dívidas olímpicas

em O Globo / Rio, 5/agosto

Cidade ganhou novos equipamentos urbanos e viu projetos avançarem, mas ainda convive com obras inacabadas e metas frustradas em áreas estratégicas como segurança, transporte e saneamento.

No Maracanã, há exatamente dez anos, o maratonista Vanderlei Cordeiro de Lima acendia a pira olímpica na cerimônia de abertura da Rio 2016. Em torno da festa — e por causa dela —, a cidade passava por importantes transformações urbanísticas. Algumas ainda não terminaram, mas houve avanços: o projeto Porto Maravilha, que derrubou o elevado da Perimetral e abriu caminho para a recuperação de uma extensa área degradada à beira da baía, entra em nova fase com a chegada de moradores a condomínios em etapa final de construção.

Por outro lado, a promessa de melhorias na segurança pública, feita na candidatura, em 2009, não chegou ao alto do pódio. Na busca por soluções para o problema, as apostas da vez são a expansão da vigilância eletrônica e a asfixia das fontes de recursos que financiam o crime. Após a Olimpíada, o Rio ganhou em mobilidade urbana, com a implantação do VLT e da Linha 4 do metrô, que conecta a Zona Sul à Barra da Tijuca — a estação da Gávea, prometida para 2016, só deve ficar pronta em 2028. Os acessos ao bairro hoje batizado de Barra Olímpica e em outras regiões foram facilitados, mas o trânsito cresceu e exige a realização de novas obras viárias.

Na área ambiental, um dos compromissos era concluir projetos para despoluir a Baía de Guanabara até a Olimpíada, mas a meta ficou para 2033. Após a concessão do serviço de saneamento, no entanto, obras na capital e na Baixada Fluminense já apresentam resultados.

Área recuperada do Porto recebeu multidões durante a Rio 2016

Embora não fosse algo previsto no caderno de encargos apresentado ao Comitê Olímpico Internacional (COI), a perspectiva de organizar o evento acabou acelerando o desenvolvimento do projeto Porto Maravilha. A iniciativa fez com que o Rio redescobrisse e valorizasse parte da cidade que enfrentou degradação por quase cem anos. A partir de 2013, o elevado da Perimetral foi demolido, as ruas próximas, reurbanizadas, e o trânsito no Centro ganhou nova organização com a construção de túneis.

Armazéns ocupados

A fase agora é de consolidação. Boa parte dos antigos armazéns na Região Portuária virou espaço para feiras, exposições e eventos como a Rio Innovation Week, que acontece esta semana. Outros negócios surgiram. No início do ano, o antigo Edifício Touring, na Praça Mauá, foi reaberto no formato de um polo gastronômico. A premissa de que essa retomada depende de ter movimento avivado por moradias também começa a se tornar realidade: cerca de 3,4 mil apartamentos já foram entregues.

Até 2016, foram inaugurados o Museu do Amanhã — desde dezembro de 2015, já recebeu mais de sete milhões de pessoas —, o Museu de Arte do Rio (2013) e o AquaRio (2016). Pouco depois, surgiu a roda-gigante Yup Star (2019). Investimentos acabaram também ajudando a recuperar o protagonismo da região conhecida como Pequena África. Durante as obras na região, foram encontradas as estruturas do Cais do Valongo, ponto de chegada de escravizados. Historiadores estimam que até um milhão de sequestrados na África tenham desembarcado ali ao longo do século XIX.

— As mudanças trouxeram movimento para a Região Portuária, que, antes, tinha um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) da cidade, e também trouxeram benefícios para quem apostou no local ainda antes do projeto trazer público — analisa a diretora e produtora da companhia teatral Ensaio Aberto, Tuca Moraes, cuja sede fica no Armazém da Utopia, na Avenida Rodrigues Alves.

A trupe funciona no espaço desde 2010. O galpão foi reformado e ampliado a partir de 2023, em obras de R$ 35 milhões bancadas por investidores privados através de renúncia fiscal, via Lei Rouanet.

Efervescência olímpica

Gaetano Lops, da Agência Gael Comunicações, que foi responsável pela programação de uma agenda paralela à da Olimpíada, em espaços na área portuária e no Parque Madureira, ressalta que a Rio 2016 ajudou a consolidar essa revitalização. Ele articula agora, em parceria com investidores privados, a recuperação do painel “Etnias”, do artista urbano Eduardo Kobra, um dos cartões-postais da Rio 2016.

— Quando se trata de integração, o Rio bateu o recorde das Olimpíadas nessa região. Apenas no Porto Maravilha, o público chegou a 4,5 milhões de pessoas, muito mais que Paris 2024 (2,5 milhões, em áreas menores) — compara ele.

A implantação do Porto Maravilha custou cerca de R$ 10 bilhões. A engenharia financeira que a viabilizou parte do mecanismo legal, chamado de operação urbana consorciada, que prevê o aumento do potencial de construção de imóveis na região, acessível através da compra de títulos financeiros, os Cepacs, usados para custear a recuperação da área degradada.

Despoluição da Baía de Guanabara tem nova chance

Na campanha para sediar a Olimpíada de 2016, após duas tentativas infrutíferas — para as edições de 2008 e 2012 —, a organização dos Jogos prometia, finalmente, despoluir a Baía de Guanabara. Até então, ao longo de mais de uma década, gastos de 800 milhões de dólares (R$ 4,1 bilhões) em um plano de saneamento com recursos de empréstimos internacionais não haviam resolvido o problema. Em meio a uma crise financeira do estado, faltaram recursos para o cumprimento da meta.

A expectativa agora é de melhoria progressiva do cenário até 2033. Novas intervenções estão sendo feitas pela concessionária Águas do Rio, vencedora, em 2021, do leilão organizado pelo governo do estado que transferiu para a iniciativa privada a responsabilidade por investir em infraestrutura e manutenção das redes de esgoto. A promessa é que, nos próximos sete anos, sejam tratados 90% do esgoto da Região Metropolitana. O aporte será de R$ 19 bilhões, sendo R$ 2,7 bilhões na construção de galerias de cintura, para captar o esgoto que chega à baía, despejado irregularmente na rede de águas pluviais.

Em algumas situações, o investimento não foi direcionado apenas a novas redes, mas à manutenção do que já existia. Isso permitiu melhorias nas condições de balneabilidade no entorno do Museu do Amanhã e nas praias da Glória, do Flamengo e de Botafogo. Em 2016, as regatas da vela olímpica se deram em meio à poluição, perto da Marina da Glória.

— Por essa região, passa o interceptor oceânico que capta boa parte do esgoto da Zona Sul e o leva até o emissário submarino de Ipanema. Ele não era limpo desde a sua implantação, há mais de 50 anos. Retiramos 3 mil toneladas de resíduos, o que aumentou a capacidade de captar esgoto. Isso teve influência direta na melhoria ambiental dessas áreas — explica Anselmo Leal, diretor-presidente da Águas do Rio.

O executivo ressalta que, nesse processo, as prefeituras também têm o papel fundamental de conter o crescimento desordenado no entorno da baía.

Segundo a empresa, intervenções feitas na capital e na Baixada já fizeram com que 134 milhões de litros de esgoto por dia, o equivalente a 53 piscinas olímpicas de água contaminada, deixassem de cair na Baía de Guanabara.

Uma das causas do problema histórico foi o fato de que, embora tenham sido construídas ou reformadas, as estações de tratamento na região não operavam com capacidade plena por falta de esgoto para tratar — porque não foram feitas conexões da rede com as residências.

Regata em águas poluídas

Em 2016, para minimizar o impacto da poluição, a organização dos Jogos colocou embarcações próximas às raias olímpicas na baía para recolher lixo do espelho d’água e evitar que o material se prendesse aos barcos da competição.

Nem as poucas obras iniciadas na época foram concluídas a tempo. Um dos principais investimentos de então, a implantação do tronco coletor da Cidade Nova, que atende a região central do Rio, só terminaria em 2019. A rede desvia para a Estação de Tratamento de Alegria (Caju) 800 litros de esgoto por segundo.

Mobilidade urbana avançou, mas estrutura segue incompleta

Em 2016, foram inaugurados os primeiros serviços de VLT, no Centro, e a Linha 4 do metrô, que conecta a Barra da Tijuca à Zona Sul. O BRT Transolímpico, que hoje liga a região da Barra Olímpica a bairros da Zona Oeste, também surgiu no ano dos Jogos no Rio, assim como uma terceira faixa no Elevado do Joá, entre a Barra e a Zona Sul, que opera como reversível, atendendo aos sentidos de trânsito conforme o rush.

Dez anos depois, o processo de expansão de moradias e escritórios comerciais nas zonas Oeste e Sudoeste cobra seu preço. Nos horários de pico, há congestionamentos até mesmo em vias que foram duplicadas, como as avenidas Carlos Carvalho, Embaixador Abelardo Bueno e Salvador Allende, todas nas imediações do Parque Olímpico, principal espaço de competições em 2016.

Os gargalos fizeram a prefeitura iniciar a construção de uma nova rótula para reorganizar o trânsito na chegada à Barra, na tentativa de reduzir engarrafamentos na orla, que, em alguns horários, se estendem à Praia da Reserva — a obra deve ser concluída até novembro. Em andamento, há licitações para alargar a Avenida Ayrton Senna, no acesso à Linha Amarela, e um novo trecho da Salvador Allende até o Riocentro.

— O investimento público em vias não seguiu no mesmo ritmo que o crescimento da Barra. Há necessidade desses projetos em andamento, assim como da conclusão de outras vias previstas no Plano Lucio Costa (projeto urbanístico para a região criado em 1969) — afirma o presidente da Câmara Comunitária da Barra, Delair Dumbrosck.

Dumbrosck acrescenta que, para convencer o morador a deixar o carro em casa, a melhor opção seria expandir o metrô. Licínio Rogério, coordenador do Fórum de Mobilidade Urbana, concorda:

— Esses recursos em novas vias poderiam ser melhor aplicados no metrô. Intervenções, como levá-lo da Barra até o Galeão, são essenciais. Mas, antes de tudo, é preciso concluir a conexão entre as estações da Carioca e do Estácio, que ficou incompleta e é essencial antes de qualquer expansão.

Já a promessa da prefeitura, de que toda a frota de ônibus seria climatizada até o fim de 2016, não se concretizou. Dez anos e várias renegociações — inclusive por acordos judiciais — depois, falta pouco: em julho, o índice de coletivos com ar-condicionado chegava a 99,2%. Por outro lado, um plano de racionalização de linhas, para evitar a concorrência com outros modais, está suspenso desde 2015. A expectativa é retomar o processo com a realização de novas concessões de linhas até 2028.

Obras na Gávea retomadas

A construção da estação do metrô da Gávea ficou cerca de dez anos parada, até ser retomada no ano passado. A previsão é que seja finalmente inaugurada em 2028, mas conectada apenas à estação de São Conrado — quem embarcar na Gávea vai precisar ir até lá para acessar outras paradas do sistema. Nos trilhos do VLT, por sua vez, as obras só terminaram há dois anos.

Da esperança com as UPPs a 121 mortes em megaoperação

Dois de outubro de 2009, Copenhague, capital da Dinamarca. Com a participação do então presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman, e de Sérgio Cabral, que governava o estado na época, o Rio de Janeiro fez sua última defesa da candidatura da cidade à sede da Olimpíada. O tema em questão, segurança pública, foi considerado fundamental para que o Rio superasse os concorrentes: Madri, Tóquio e Chicago. Na apresentação, o governo fluminense defendeu o programa das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), lançado em 2008, apontando-o como parte de uma estratégia de redução dos índices de criminalidade e garantia de segurança do megaevento.

As quatro UPPs existentes em outubro de 2009 chegaram a 38 na época da Olimpíada, mas, até hoje, a segurança é um desafio que está longe de ser superado.

— O projeto começou com os batalhões da PM fixando metas de desempenho e o conceito de que deveria ser uma política de Estado, e não de um governo. A princípio, deu certo. O problema é que o programa das UPPs foi se expandindo de maneira desordenada e faltaram recursos — observa o ex-secretário de Segurança Pública José Mariano Beltrame, responsável pela implantação das UPPs.

Já em 2016, problemas afetaram a rotina dos cinco mil integrantes da Força Nacional mobilizados para o evento. Um dos alojamentos reservados aos agentes foi o condomínio Vila Carioca, do Minha Casa Minha Vida, recém-construído na Gardênia Azul, área dominada pela milícia e hoje controlada pelo tráfico. Na época, houve relatos de que paramilitares teriam imposto uma espécie de toque de recolher, gerando constrangimentos, o que era negado pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp).

Intervenção federal

Após a Olimpíada, a questão da segurança pública no Rio levou a uma intervenção federal em 2018, mas a preocupação persistiu. Em outubro do ano passado, a megaoperação mais letal da história do Rio, realizada nos complexos do Alemão e da Penha, resultou em 121 mortes — entre as quais as de quatro policiais. O Cidade Integrada, novo projeto de retomada de territórios lançado pelo então governador Cláudio Castro, jamais saiu do papel. Em meio a esse cenário, investigações revelaram o envolvimento de políticos com o tráfico, caso do ex-deputado TH Jóias, e no assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes — os irmãos Chiquinho e Domingos Brazão foram condenados pelo duplo homicídio.

— Segurança nunca foi um problema nos megaeventos pela quantidade de efetivos envolvidos de várias esferas. Mas é uma estrutura que não é possível ser sustentada por muito tempo. A questão principal é que o Estado brasileiro não consegue. É preciso planejamento de operações eficientes e inquéritos policiais bem-feitos — diz o coronel da reserva e antropólogo Robson Rodrigues, ex-coordenador das UPPs.

Outros impactos

Sambódromo

Local das competições de tiro com arco, foi ampliado de 60 mil para 75 mil lugares. A expectativa é que nos próximos anos o Sambódromo passe por novas reformas, como uma das âncoras do projeto Praça Onze Maravilha, que prevê a revitalização de seu entorno.

Parque dos Atletas

Após receber R$ 44 milhões em infraestrutura para ser uma área de lazer, o terreno do Parque dos Atletas, vizinho ao Parque Olímpico, foi devolvido aos antigos proprietários em 2022, porque a prefeitura não pagou as indenizações pela desapropriação.

Autódromo

A construção do Parque Olímpico levou ao fechamento do autódromo internacional que funcionava no Rio. Após duas tentativas malsucedidas, há um projeto para construir nova pista em Guaratiba. Contudo, a iniciativa ainda depende do licenciamento ambiental.

Escolas

Local das provas de taekwondo e esgrima, uma das arenas da Barra se transformou em escola pública. Outras quatro escolas foram construídas com a desmontagem da arena de handebol. As cinco unidades da rede municipal têm 2.577 alunos.

Concessão

O grupo Rock In World ganhou uma concessão da prefeitura para explorar comercialmente e manter o complexo de tênis, o velódromo e o Museu Olímpico, no bairro Barra Olímpica. A Vila Olímpica que funciona no velódromo será mantida.

Parque Rita Lee

A área de lazer foi inaugurada em 2024, com a separação física das arenas dos demais espaços públicos do Parque Olímpico original. O Rita Lee tem mais de 100 mil metros quadrados, mas usuários reclamam da pouca arborização.

Hotéis e eventos

A concessão de benefícios fiscais e mudanças nas regras urbanísticas incrementaram a oferta de vagas de hotéis, o que foi essencial para receber os visitantes e atletas na Rio 2016. Uma reforma ampliou o Riocentro, permitindo captar mais eventos.

Piscina olímpica

No início de 2026, a piscina olímpica onde o americano Michael Phelps, maior recordista de medalhas da natação, fez sua última prova antes da aposentadoria, foi reaberta no Parque Oeste, em Inhoaíba. Os moradores fazem aula de natação e hidroginástica.


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