Centro do Rio tem 3,7 mil moradias prontas ou em obras e atrai novos restaurantes

em Diário do Rio / Mercado Imobiliário, 6/setembro

Centro do Rio soma 3,7 mil unidades residenciais prontas ou em obras e recebe investimentos em restaurantes e hospedagem.

O Centro do Rio ganha novos residenciais, restaurantes e espaços culturais após o esvaziamento provocado pela pandemia e pela crise econômica de 2013. Segundo o Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon), cerca de 3,7 mil unidades residenciais já estão prontas ou em obras, de um total de 8.903 licenciadas entre 2021 e julho de 2026. A chegada de moradores e turistas alimenta os investimentos, embora cerca de um terço das salas comerciais do bairro ainda esteja vazio.

Dados da Sérgio Castro Imóveis dão conta que 19% dos escritórios em prédios modernos ou de alto padrão estão vazios, mas 45% das salas em prédios mais antigos seguem desocupadas. Segundo Lúcio Pinheiro, diretor da imobiliária, cada vez mais, porém, unidades comerciais em edifícios como Praça Tiradentes 10 e Barão do Amazonas (na Visconde de Inhaúma) têm sido convertidas para residências.
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Na Rua Sete de Setembro, um dos exemplos dessa mudança é o antigo Shopping Vertical, que abrigava 64 lojas, num prédio de escritório que havia sido convertido para centro de compras nos anos 1990. O imóvel passa por uma reforma para se transformar em um residencial com 172 estúdios de 28 a 40 metros quadrados. Todas as unidades foram vendidas na planta, com preços a partir de R$ 360 mil. O prazo previsto para as obras é de 18 meses.

“O espaço é excelente. Fica a cinco minutos do Aeroporto Santos Dumont. Um turista também pode pegar o metrô e chegar rapidamente às praias da Zona Sul”, afirmou João Paulo Matos, CEO da Calçada, construtora proprietária do imóvel.

O movimento ocorre na esteira do Reviver Centro, lançado pela Prefeitura em 2021 para incentivar a produção de moradias na região. O DIÁRIO DO RIO já mostrou a expansão dos licenciamentos pelo programa E acompanha os desenvolvimentos de perto.

Investidores compram a maior parte das unidades

Segundo o presidente do Sinduscon, Claudio Hermolin, os investidores respondem por 60% das compras no conjunto citado pela entidade. Os demais compradores buscam um imóvel para morar.

“Desse total, 60% foram adquiridos por investidores, e o restante está sendo comprado para ser moradia de fato. Conforme for terminando o estoque de estúdios, a tendência é haver mais oferta de residenciais maiores”, disse Hermolin.

Entre os empreendimentos licenciados está o Connect Square, na Rua São José, junto ao Buraco do Lume. O prédio de uso misto terá 584 unidades, a maioria já vendida, e início de obras previsto para janeiro.

Perto dali, o Edifício Aliança da Bahia, na Rua Araújo Porto Alegre, seguiu outro caminho. O imóvel modernista tombado teve suas salas comerciais transformadas em lajes corporativas, conforme revelado em primeira mão pelo DIÁRIO.

No Largo de São Francisco, a Ordem dos Mínimos de São Francisco de Paula planeja construir um prédio comercial em frente à igreja. O terreno vinha sendo usado como estacionamento, atividade proibida naquele ponto do Corredor Cultural. O projeto busca recursos do Reviver Pró-Apac, programa municipal de apoio financeiro a novos negócios. Exatamente ao lado, na mesma rua do Teatro, o consórcio House RJ adquiriu 7 sobrados históricos para transformar num edifício de 5 andares que preservará a fachada histórica. Representante do consórcio, Cláudio André de Castro, disse que o empreendimento terá 43 apartamentos nos históricos sobrados, e o DIÁRIO revelou o projeto em primeira mão.

Beco das Sardinhas terá quatro novos restaurantes

A gastronomia é outra frente de investimento. O empresário Raphael Vidal, dono do Capiau, prepara quatro restaurantes no polo do Beco das Sardinhas.

O Bife Gracioso e o Pensão têm abertura prevista para setembro, em um sobrado na Rua Miguel Couto. Em outubro, será a vez do Fumeiro Santa Rita e do Galeto Comendador, no Largo de Santa Rita.

“A proposta é contar por meio deles a história da culinária carioca. O Gracioso, por exemplo, será especializado no preparo de bifes, fritos e à milanesa, entre outros, e faz referência a um antigo restaurante no Porto. Já a comida de pensão é uma tradição no Centro, assim como as galeterias”, explicou Vidal. A locação de um dos imóveis, da Ordem de São Francisco, foi fechada pela Sérgio Castro.

Na Rua do Lavradio, o gastrobar Casa Jovê abrirá no térreo de um imóvel restaurado. O cardápio será dedicado à culinária brasileira, com pratos batizados com nomes de peças de teatro. No segundo andar, o Pérola deverá começar a funcionar em novembro, com palco para shows e espaço de exposições.

“Morei em cidades de 11 países, e há uma tendência mundial de revitalização de áreas com infraestrutura degradada. Aconteceu, por exemplo, com bairros de Baku, no Azerbaijão, e Barcelona, na Espanha. Por isso, apostei no Rio”, disse o proprietário, Claudio Franco.

Para instalar a Casa Jovê, Franco transferiu o Moyo, centro cultural e gastronômico que ocupava o endereço, para a Rua Visconde do Rio Branco. A previsão é retomar as atividades em três meses.

Rua do Senado recebe restaurantes e casa de samba

Na Rua do Senado, eleita a mais “cool” do mundo pela revista Time Out em 2025, o chef francês Laurent Rinaudo e a sócia Larissa Lopes estão na fase final das obras de dois estabelecimentos em um casarão restaurado.

O Madame Lee, de culinária asiática, e o Feline, voltado a vinhos e pratos mediterrâneos, têm inauguração prevista para outubro.

“Investimos ao observar que outros negócios que abriram recentemente em casarões restaurados, como a Destilaria Maravilha e o Mercado Central, foram bem-sucedidos”, afirmou Larissa.

O Mercado Central ocupa antigos casarões da fábrica da Granado, conforme mostrou o DIÁRIO DO RIO.

A vizinhança também ganhou o Quintal da Clementina, casa de samba e gastronomia. Um dos sócios, Lúcio Pacheco, explica que o espaço foi pensado para receber rodas tradicionais.

“A proposta é ter um espaço estruturado para as rodas de samba tradicionais, que normalmente acontecem nas ruas. O Roda de Crioulo, por exemplo, será atração fixa às sextas-feiras”, contou Pacheco.

Lapa atrai projetos de hospedagem

O proprietário do Bar Brasil e vice-presidente do Polo Rio Antigo, Gustavo Marins, aposta na valorização da Lapa. Entre os fatores que podem impulsionar o bairro, ele cita as obras da Prefeitura para criar um boulevard no entorno da Escadaria Selarón.

“Um investimento atrai outros. Há espaço não só para moradias como para hospedagem por aplicativos. Muitos turistas só entram nos quartos para dormir e desejam diárias mais em conta. Não se incomodam em ficar fora da Zona Sul”, disse Marins.

A Glória Participações, que já administra um hotel na Lapa e é proprietária do São Conrado Fashion Mall e do antigo Hotel Praia Ipanema, planeja abrir em 2027 um hostel com 120 camas na Rua Mem de Sá.

“Temos 22 imóveis no bairro e ainda estamos decidindo os melhores projetos”, informou Daniel Pierro, um dos gestores do fundo.

Outro investimento foi a compra de um terreno de 3,3 mil metros quadrados na Rua Teotônio Regadas, ao lado da escadaria. A negociação avançou depois que a proprietária reduziu o preço diante da possibilidade de desapropriação e leilão pela Prefeitura. Os novos donos estudam construir um residencial.

O aumento de moradores e visitantes também motivou a abertura de uma filial da padaria artesanal Grão Napoli, no térreo do Shopping Paço do Ouvidor, há cerca de 40 dias.

“O conceito é de padaria gourmet, com preços mais em conta. Se fosse para atender apenas funcionários que trabalham no Centro, não compensaria, já que só haveria demanda nos horários de entrada e saída do expediente. A aposta é no aumento de turistas e moradores”, afirmou o sócio Carlos Diniz.

Um terço das salas comerciais continua vazio

Apesar dos novos negócios, a ocupação comercial ainda está longe de ser plena. Segundo a Associação Brasileira de Administradores de Imóveis (Abadi), 33% das 22,6 mil salas comerciais do Centro estão vazias, o equivalente a cerca de 7,4 mil unidades. Em 2021, a vacância era de 40%.

O presidente da entidade, Marcelo Borges, estima que o bairro poderá alcançar seu auge de ocupação em cinco a sete anos.

“O que se espera é que, à medida que novos residenciais fiquem prontos, esses pontos ociosos sejam ocupados por profissionais liberais e prestadores de serviços”, afirmou Borges.

A região da Praça XV segue lotada de restaurantes e bares, e deve ganhar em breve mais uma atração, pelas mãos do mesmo Vidal. Repleta de um público amante da cultura, cercada de novos centros culturais trazidos com o protagonismo do Reviver Cultural, o local da dita Pequena Lisboa pulsa como coração de um Centro Histórico que se recupera através da reutilização de sobrados históricos e casarões belíssimos. Recentemente, o casarão onde funcionará o famoso Clube das Mulheres - o Dito & Feito -foi vendido a um investidor de Minas Gerais que passa agora pela aprovação do projeto de restauro pelo Iphan.

Para o representante da Sérgio Castro Imóveis, as despesas de manutenção ainda dificultam a ocupação. Segundo o empresário, 83 sobrados e pequenos prédios foram vendidos no Centro desde 2024.

“O problema é que muitos desses imóveis não têm isenção de IPTU porque não são tombados. Além disso, as despesas com condomínio são muito elevadas”, explicou.


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