Hotéis da Zona Sul que Paes quer leiloar tiveram projetos de unidades residenciais avaliadas em R$ 100 mil/m²

em Diário do Rio, 2/janeiro

Os hotéis Praia Ipanema e Intercontinental, agora na mira do município para desapropriação por hasta pública, compartilham quase que a mesma história. Ambos foram adquiridos por construtoras com a promessa de se tornarem residenciais de alto luxo, que nunca saíram do papel.

Dois gigantes da hotelaria carioca, em endereços que já foram sinônimo de luxo, fecharam as portas carregando a mesma promessa frustrada, que nunca saiu do papel. Nos planos iniciais, unidades residenciais que poderiam alcançar valores expressivos, com projeções de metro quadrado ultrapassando R$ 100 mil, segundo fontes do mercado ouvidos pelo DIÁRIO DO RIO à época. A aposta foi alta, o resultado, nenhum.

Os hotéis Praia Ipanema e Intercontinental, hoje no radar da Prefeitura do Rio para desapropriação por hasta pública, compartilham quase que a mesma história. Os dois foram adquiridos por construtoras com a promessa de se tornarem residenciais de luxo, em duas das orlas mais valorizadas do Rio, frequentemente tratadas pelo mercado como vitrines do alto padrão imobiliário no país. O prefeito Eduardo Paes (PSD), que anunciou no “apagar das luzes” de 2025 o uso do instrumento para enfrentar a vacância prolongada e a especulação em ativos emblemáticos que deixam de cumprir função social na cidade, deu aos proprietários um prazo de 30 a 60 dias para apresentar propostas concretas de uso para os prédios. A intenção, segundo ele, é tirar da inércia esses “elefantes brancos”, que há anos acumulam planos divulgados, projetos não executados e nenhuma obra iniciada.

Segundo Paes, os hotéis degradam o ambiente urbano em áreas nobres e ainda bloqueiam oportunidades de novos investimentos no turismo. O prefeito também determinou a checagem da situação fiscal, especialmente o IPTU, para verificar se houve uso indevido de benefícios tributários concedidos a hotéis em operação.

Hotel Intercontinental

Fechado desde 2018, o antigo Intercontinental de São Conrado foi um dos poucos hotéis na orla do bairro, ao lado do Nacional. O prédio pertence à Brazilian Hospitality Group (BHG) desde 2011, quando foi adquirido da Brascan Imobiliária. Entre 2011 e 2018, operou sob duas bandeiras: Royal Tulip, inicialmente, e, a partir de 2017, Pullman, braço de alto padrão da gigante Accor.

Em 2022, a BHG, em parceria com a SIG Engenharia, protocolou na prefeitura um pedido de retrofit. O plano previa adaptar o imóvel principal para funcionar como um residencial com serviços e erguer mais quatro edifícios anexos, com no máximo cinco pavimentos, em uma obra estimada em três anos. Nunca saiu do papel.

O hotel, em seus tempos de atividade, contava com dois restaurantes, dois bares e um centro de convenções com 20 salas de reuniões. No projeto, essas áreas seriam convertidas para instalações de apoio aos moradores, como lavanderias e espaços de serviço. A SIG, vale lembrar, é a mesma empresa que, com outros parceiros, conduz retrofits para transformar os antigos Hotel Glória e Hotel Everest (em Ipanema) em unidades residenciais, obras que, ao contrário do caso de São Conrado, avançaram.

Praia Ipanema

O Praia Ipanema, na Avenida Vieira Souto, número 706, no trecho mais valorizado do bairro, funcionou por 42 anos, até encerrar a operação em 2023. Era um hotel quatro estrelas, inaugurado em 1982 pelo empresário Nicolau Chami. A administração passou por três gerações da família. Nos últimos 19 anos, o empreendimento foi gerido pela terceira geração dos Chami, com José Carlos Chami à frente.

Em 2023, o prédio foi adquirido pela antiga Bait (atual Gafisa). Na mesma época, a empresa anunciou um empreendimento residencial para o local. O lançamento nunca aconteceu.

O edifício tem 17 andares, todos com vista permanente para a praia. Cada pavimento possui cerca de 320 m², somando aproximadamente 5.500 m² de área total. O estudo inicial apontava apartamentos de 60 m² a 306 m², com potencial de vendas a R$ 100 mil por metro quadrado, conforme estimativas de fontes do mercado à época.

Fashion Mall também em monitoramento

Além dos hotéis, Paes incluiu no discurso o shopping Fashion Mall, também em São Conrado, como ativo monitorado por subutilização. Aberto na década de 1980, o centro de compras foi o primeiro shopping do Rio voltado ao público de alto padrão, marco do varejo para consumidores de maior poder aquisitivo.

Há ao menos uma década, o espaço enfrenta dificuldades para manter sua ocupação, cenário agravado pelo fechamento de diversas lojas e pela concorrência com outros shoppings de luxo da cidade, como o Shopping Leblon e o VillageMall.


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