A Rua da Carioca anda fermentando negócios que vão além das cervejas artesanais. Conhecida pelas lojas de instrumentos musicais e por abrigar antigos nomes do comércio carioca, a tradicional via do Centro entrou no radar de investidores interessados em transformar sobrados históricos em apartamentos compactos para locação de curta temporada, o chamado short stay.
Segundo a Sergio Castro Imóveis, maior corretora da região central, cerca de cinco casarios centenários estão em negociação com pequenos investidores interessados em aproveitar os andares superiores dos imóveis para projetos residenciais.
A conta que anima os compradores é a da manutenção. Diferentemente dos edifícios comerciais modernos, os sobrados não têm condomínio e ainda podem conseguir isenção de IPTU, desde que cumpram as exigências de preservação do patrimônio histórico.
"Tem muita gente querendo fazer residencial nos andares superiores desses imóveis. Isso está virando uma tendência. Se estiver bem conservado e adequado, o custo de ocupação, tirando o aluguel, é praticamente zero " diz Cláudio André de Castro, diretor da Sergio Castro Imóveis.
Há, porém, um detalhe que pode fazer diferença na hora de fechar a conta: encontrar sobrados vizinhos à venda ao mesmo tempo. Como as construções têm fachadas estreitas e plantas compridas, reunir imóveis em sequência facilita o aproveitamento dos espaços.
"O problema é conseguir vários sobrados em sequência. Um imóvel sozinho tem a frente estreita e é comprido, o que limita as possibilidades de aproveitamento. Quando você consegue reunir um grupo de imóveis vizinhos, fica mais fácil desenvolver um projeto residencial" explica Cláudio.
A Rua da Carioca, vale lembrar, já foi endereço de um comércio movimentado, mas perdeu parte de seus lojistas tradicionais ao longo dos últimos anos. Em 2012, um fundo ligado ao Opportunity comprou 18 sobrados pertencentes a uma ordem religiosa. Os aumentos de aluguel que vieram depois contribuíram para a saída de comerciantes. A mudança de sentido da via e, mais tarde, a pandemia agravaram o quadro.
O conjunto arquitetônico é protegido desde 1985.
Rua da Cerveja
Em 2023, a Prefeitura do Rio lançou o projeto Rua da Cerveja, com incentivos para a instalação de cervejarias em casarios históricos. O programa prevê apoio financeiro para reformas e despesas mensais, numa tentativa de ocupar imóveis ociosos e atrair negócios para o Centro.
Atualmente, são sete cervejarias artesanais em cerca de 300 metros de rua. Na média, uma a cada 42 metros. Os estabelecimentos adotam o modelo brewpub, que reúne fabricação e venda de cerveja no mesmo endereço, com comida e petiscos no cardápio.
A movimentação coincide com o fim das obras de requalificação da via, e de trechos da Avenida República do Paraguai e da Rua Ramalho Ortigão. Concluída em setembro, a intervenção custou R$ 3,6 milhões aos cofres municipais e recuperou cerca de 8 mil metros quadrados de área pública.
Além de melhorias na pavimentação, na drenagem e nas calçadas, a obra reduziu de três para duas as faixas de circulação de veículos, ampliando o espaço para pedestres. A região também ganhou iluminação renovada, bicicletário com 16 vagas e 14 apoios para descanso.