Há cinco anos, um em cada seis cariocas estava desempregado: 16,4% no começo de 2021. No primeiro trimestre de 2026, a taxa ficou em 5,8%, a menor em uma década e, pela primeira vez desde 2018, abaixo da média do país. São milhares de famílias de volta ao mercado de trabalho e vivendo com mais dignidade. A cidade voltou a crescer e, com o crescimento, chegaram as dores de quem cresce. O problema é que, ao explicar o aumento dos aluguéis, estamos escolhendo uma causa visível e deixando de olhar para fatores muito maiores.
Reportagem de julho da TV Globo, com base em dados do Sindicato da Habitação do Rio (Secovi Rio) mostrou que a oferta para locação tradicional na cidade do Rio de Janeiro caiu 31,8% entre 2023 e 2026. Três causas juntas foram apontadas como justificativa dessa queda: menos oferta, avanço da locação por temporada e juros altos. Mas é preciso colocar uma lupa em cada uma.
Os juros são a parte chata da história, e por isso a menos contada. Entre 2016 e junho deste ano, o metro quadrado de locação no Rio subiu 61,8%. O de venda subiu 5,3%. Não é o retrato de uma cidade cujos imóveis foram sequestrados pelo turismo; é o de uma cidade onde comprar se tornou muito mais difícil para uma parcela relevante das famílias.
Com a Selic perto de 15% ao ano, a família que sonhava com o financiamento continua no aluguel, e no mesmo imóvel. A oferta encolhe sem que uma única unidade vá parar em plataforma digital. Prova disso é que o aluguel também disparou na Tijuca, em Vila Isabel, no Méier e na Taquara. Bairros com samba e história de sobra, mas menos procurada por turistas.
Há ainda uma mudança silenciosa do lado da demanda. Entre 2010 e 2022, o censo apontou que a cidade perdeu 109 mil moradores e, ainda assim, passou a precisar de mais moradia. O número de moradores por domicílio caiu de 3,3 para 2,8 moradores na média nacional, e o Rio é hoje o estado com a maior proporção de gente morando sozinha no país, aproximadamente 25% dos fluminenses, segundo o PNAD/IBGE. Menos pessoas por casa significa pressão de demanda, algo que nenhuma regra sobre plataforma alcança.
Isso não quer dizer que a locação por temporada não tenha efeito. Tem. Mas, de todos, é notoriamente o menor e mais concentrado em apenas alguns bairros. Nova York fez o teste inverso: segundo a própria prefeitura, os anúncios ativos caíram de mais de 38 mil, no início de 2023, para cerca de 3 mil em 2025. Nos dois anos seguintes, o aluguel de Manhattan bateu recorde atrás de recorde. Ninguém pagou menos.
E o turismo não é jogo de soma zero. O Rio recebeu 12,6 milhões de visitantes em 2025, e a hotelaria vive seu melhor momento em décadas: diária média quase 50% maior em fevereiro e mais de 99% de ocupação no Carnaval. Cidade que enche assim precisa de formatos variados.
O Centro mostra por que essa variedade importa. O bairro perdeu 8 mil moradores entre um censo e outro. Desde 2021, o Reviver Centro já licenciou 8.903 unidades residenciais, a maioria por transformação de prédios comerciais ociosos. Só neste ano foram 1.528 moradias. Nada disso se sustenta com um único uso: o que devolve vida a uma região que esvaziou é morador, trabalhador e visitante no mesmo quarteirão.
O sentimento de injustiça sobre o custo de moradia tem raízes históricas: complexidade e custo da regularização fundiária, juros altos, custos de inventários, impostos, dificuldade de dar liquidez aos imóveis, burocracia e baixa oferta em área de alta demanda. Transformar a locação por temporada no grande culpado pode produzir uma resposta politicamente simples. Mas respostas simples raramente resolvem problemas complexos.
O encarecimento da moradia é um problema complexo demais para ser explicado por um único vilão, diz o ex-secretário municipal de Desenvolvimento Urbano e Econômico do Rio e presidente do Instituto Barla.