Construtora que comprou Edifício Boa Vista, na Candelária, diz que negociação foi dura e prepara ’um grande trabalho de preservação’

em Diário do Rio / Mercado Imobiliário, 17/setembro

Retrofit do prédio, projetado por Oscar Niemeyer e tombado desde a década de 1990, terá investimento de cerca de R$ 100 milhões e previsão de conclusão em 2028.

Dono da Construtora Internacional, que acaba de concluir o retrofit do Edifício Aliança da Bahia, endereço da CasaCor Rio 2026, Daniel Leão anda bem satisfeito com a repercussão do projeto. O empresário fechou recentemente contrato com a Norte Energia, que vai ocupar mais de mil metros quadrados do empreendimento, e agora aguarda ansioso pelo fim do evento - que deve levar mais de 30 mil pessoas ao edifício modernista - para começar a medir os primeiros resultados da operação.

O Aliança, sozinho, recebeu cerca de R$ 100 milhões em investimentos. E, enquanto acompanha a entrada do imóvel no mercado, Daniel já olha para outro endereço de arquitetura marcante do Centro.

Os esforços da construtora agora estão concentrados no Edifício Boa Vista, na Candelária. Comprado pela empresa em julho, o prédio que abrigou o antigo Banco Boa Vista, adquirido pelo Bradesco no início dos anos 2000, vai seguir por um caminho diferente de parte dos imóveis que vêm sendo negociados na região: continuará com vocação corporativa.

A construtora prepara um retrofit completo do imóvel, com previsão de conclusão em 2028. “O prédio é lindo e tem uma arquitetura muito forte. Vamos recuperar todos os painéis que são tombados, então será um grande trabalho de preservação. Ele também tem um lobby monumental. Queremos aproveitar toda a experiência que tivemos no Aliança para fazer um trabalho ainda melhor. É um projeto magnífico, com uma lâmina generosa e uma configuração muito boa para o mercado corporativo”, afirmou Daniel Leão ao DIÁRIO DO RIO.

Projetado por Oscar Niemeyer e inaugurado em 1948, o edifício é tombado desde a década de 1990. A fachada lateral ondulada, formada por tijolos de vidro e apoiada sobre pilotis, é uma das marcas do projeto. No interior, o prédio guarda ainda um mosaico de Paulo Werneck, no mezanino, e a tela A Primeira Missa no Brasil, de Candido Portinari, produzida especialmente para o antigo banco.

R$ 100 milhões e foco na locação

O plano, segundo o empresário, é investir cerca de R$ 100 milhões na modernização dos 12 mil metros quadrados do prédio antes de recolocá-lo no mercado de escritórios. São 13 pavimentos, com lajes de aproximadamente 800 metros quadrados cada.

“A negociação com o Bradesco foi dura e levou quase dez meses, mas acreditamos muito na retomada do mercado de escritórios. Estamos falando de um prédio com uma qualidade muito difícil de encontrar hoje no Rio. Qualquer empresa que queira voltar para a cidade e procure um escritório de alto padrão vai olhar para esse tipo de ativo. Muitos prédios comerciais do Centro estão antigos, com décadas de uso. Nossa proposta é entregar um edifício completamente renovado, mas preservando aquilo que faz dele um edifício especial”, afirmou.

A escolha pelo corporativo também passa por um modelo de negócio defendido pela construtora: manter o imóvel para locação e acompanhar de perto a relação com os ocupantes.

“Tenho percebido uma valorização dos prédios que têm um proprietário direto, uma empresa que está ali para cuidar do patrimônio. Os fundos imobiliários são gestores e, muitas vezes, a relação com o inquilino acaba sendo mais formal e mais lenta. Nós procuramos fazer diferente. Os inquilinos são nossos clientes e a gente quer ter essa relação mais próxima”, disse.

A lógica também vale para a manutenção do imóvel ao longo dos anos. “A gente conserva o prédio porque aquele inquilino pode sair de um andar amanhã. O retrofit é feito para locação, não para venda. Isso muda completamente a forma como cuidamos do ativo.”

Candelária vive disputa por novos usos

O movimento da Construtora acontece em uma região que vem recebendo investimentos de diferentes perfis. O quadrilátero da Candelária, antigo endereço de grandes bancos brasileiros quando o Rio ainda era capital federal, passou a ser observado tanto por quem aposta na retomada dos escritórios quanto por investidores interessados em transformar prédios antigos em residenciais.

Como mostrou o DIÁRIO DO RIO, o Edifício João Úrsulo Ribeiro Coutinho, projetado por Lúcio Costa, em frente à Igreja da Candelária, foi comprado por um grupo formado pela Fator Realty e pela CIX Capital para um retrofit residencial. O empreendimento foi batizado de Brise.

As empresas já vinham mapeando imóveis na região desde o ano passado. Segundo informações obtidas pela reportagem, nove edifícios foram estudados e novos projetos devem sair pelos próximos meses.

Não por acaso, alguns agentes do mercado passaram a chamar o entorno da Candelária de “Zona Sul do Centro”. A comparação leva em conta a localização e a valorização residencial da área. O Brise, por exemplo, teve unidades vendidas por preço médio de R$ 420 mil. Segundo o Secovi Rio, o preço médio do metro quadrado residencial na região central subiu quase 10% entre janeiro e julho deste ano.

O residencial não é o único novo uso em discussão para os prédios da região. O Senac RJ acaba de iniciar as obras de revitalização da antiga sede da Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil, na Avenida Presidente Vargas. O imóvel será transformado no primeiro hotel-escola da instituição no estado.

O prédio vizinho, também comprado pelo Senac por R$ 46 milhões, já ganhou outro destino: virou um centro de inovação, aberto em maio.

Mais adiante, o antigo prédio da Petrobras, primeira sede da estatal na cidade, também está no mercado. O imóvel, de 12 andares e cerca de 7 mil metros quadrados, vai a leilão com lance mínimo de R$ 14,3 milhões. A primeira tentativa de venda, em 2021, não teve interessados.

Para Lucy Dobbin, superintendente da Sérgio Castro Imóveis, a movimentação recente ajudou a mudar a percepção sobre os imóveis da região. “Tendo em vista o grande volume de vendas de edifícios na região, esse é um negócio que tem grandes chances de acontecer, porque o prédio está num valor considerado de mercado, numa localização muito boa e que está sendo cada vez mais querida por aqueles que buscam fazer empreendimentos residenciais no Centro”, afirmou.


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