O Rio Comprido, bairro localizado entre o Centro, a Tijuca e a Zona Sul, vem atraindo a atenção do mercado imobiliário e do poder público. Em meio a projetos de retrofit, recuperação de imóveis abandonados e novas iniciativas urbanísticas, o bairro experimenta uma movimentação que se relaciona com a revitalização da região central da cidade.
De um lado, investidores estrangeiros passaram a demonstrar interesse por um empreendimento residencial que será instalado na antiga sede da Fundação Roberto Marinho. De outro, o governo federal anunciou a destinação do antigo prédio do Inmetro para o Arquivo Nacional, encerrando um período marcado por abandono, invasões e reclamações de moradores. Ao mesmo tempo, a aprovação do projeto Praça Onze Maravilha incluiu o Rio Comprido entre as áreas que poderão receber potencial construtivo, uma forma de atrair novos investimentos. Para o presidente da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi-RJ), Leonardo Mesquita, o movimento não é isolado. Segundo ele, a escassez de terrenos e imóveis disponíveis ajuda a explicar o interesse crescente.
— O Rio Comprido não é um bairro fácil de ter um volume grande de lançamentos e novos empreendimentos. Por isso, quando surge alguma oportunidade, ela chama a atenção. Existe um efeito da reocupação de áreas bem estruturadas da cidade, como Centro, Porto Maravilha, Praça Onze e Cidade Nova, que acaba se refletindo nos bairros vizinhos. A busca por regiões mais centrais tem sido uma tônica do mercado. Em um bairro de difícil oportunidade, quando ela aparece, costuma ser aproveitada. O que está por trás disso é justamente a baixa oferta (de terrenos) e a necessidade de mais oferta habitacional — afirma.
A localização aparece como um dos principais atrativos do Rio Comprido. O bairro funciona como uma ligação entre diferentes regiões da cidade e reúne características valorizadas por compradores e incorporadores.
— É um bairro que tem comércio local tradicional e oferece acesso rápido ao Centro, à Tijuca e à Zona Sul. Do ponto de vista da mobilidade, está muito bem localizado — observa Mesquita.
Um dos exemplos mais recentes desse interesse é o Rebouças Residencial, projeto que transformará a antiga sede da Fundação Roberto Marinho, na Rua Santa Alexandrina, em um condomínio com 138 unidades residenciais.
O empreendimento, desenvolvido pela construtora TGB, terá apartamentos a partir de R$ 215 mil e Valor Geral de Vendas (VGV) estimado em R$ 40 milhões. A entrega está prevista para fevereiro de 2028.
Mesmo ainda em fase inicial de obras, o projeto já desperta interesse internacional. Segundo a empresa, investidores de Portugal e do Japão procuraram informações sobre unidades do residencial, que terá estúdios, apartamentos de um e dois quartos e unidades garden. O prédio permaneceu desocupado por anos antes da conversão para uso residencial.
A aposta no retrofit — modalidade que revitaliza e adapta edifícios existentes para novos usos — é vista pelo mercado como uma ferramenta importante para recuperar áreas urbanas consolidadas.
— Para bairros mais antigos, quando essa conta fecha economicamente, é algo muito importante. É uma política que poderia ser ainda mais valorizada e incentivada. Quando se estimula o retrofit, a cidade ganha, com a ocupação de áreas centrais — defende o presidente da Ademi.
Outro símbolo das transformações previstas para o bairro é o antigo prédio do Inmetro, imóvel de oito andares pertencente ao governo federal que se tornou motivo de preocupação para moradores da região nos últimos anos e também fica na Rua Santa Alexandrina.
Desocupado desde 2021, o edifício acumulou registros de invasões, depredações, furtos e ocupações irregulares. Em maio, a Prefeitura do Rio realizou o fechamento completo dos acessos ao prédio, a pedido da Superintendência do Patrimônio da União (SPU), para impedir novas invasões, enquanto o governo federal definia seu destino.
A solução encontrada foi a cessão do imóvel ao Arquivo Nacional. A expectativa é que o órgão passe a utilizar o prédio para instalação de repartições, promovendo sua recuperação e reocupação. Para Mesquita, a reutilização de imóveis abandonados pode ter impactos que vão além da preservação do patrimônio:
— É sempre um ponto de atenção em bairros mais centrais. A reocupação desses espaços ajuda a trazer movimento, atividade econômica e sensação de segurança para a região.
O cenário de transformação também ganhou impulso com a aprovação do projeto Praça Onze Maravilha pela Câmara Municipal. A iniciativa pretende promover uma ampla requalificação urbana da região de Praça Onze, Cidade Nova e entorno.
O Rio Comprido foi incluído entre as áreas receptoras de potencial construtivo, mecanismo que flexibiliza parâmetros urbanísticos mediante contrapartida exigida dos interessados. A Secretaria municipal de Desenvolvimento Urbano explica que, além de ampliar o potencial construtivo de empreendimentos na região, a medida prevê incentivos para retrofit, recuperação de imóveis antigos e conversão de prédios comerciais em residenciais, com foco na ampliação da oferta de moradia.