Como solteirice em alta levou mercado imobiliário a se adaptar

em G1 / Globo Repórter, 10/agosto

Com mais brasileiros vivendo sozinhos e adiando o casamento, construtoras investem em apartamentos compactos e serviços pensados para quem leva uma vida solo.

Quase metade dos brasileiros vive sem um companheiro ou companheira atualmente. Entre pessoas que nunca se casaram, divorciados, separados e viúvos, a solteirice deixou de ser uma condição transitória para se tornar uma característica cada vez mais presente na sociedade brasileira.

Essa mudança de comportamento está transformando hábitos de consumo, formas de convivência e também o mercado imobiliário. De olho nesse público, construtoras passaram a investir em imóveis menores e mais funcionais, voltados para quem mora sozinho.

Hoje, cerca de 20% dos brasileiros vivem sozinhos. Em São Paulo, a tendência tem influenciado diretamente os lançamentos imobiliários. Em um empreendimento apresentado no Globo Repórter, com 27 andares e 315 apartamentos, três em cada dez novos unidades seguem esse perfil.

Os imóveis são planejados para atender a uma rotina marcada pela praticidade. Um dos apartamentos mostrados tem apenas 30 metros quadrados. No mesmo ambiente estão cozinha, sala e área de convivência, enquanto o quarto ocupa um espaço reduzido, pensado para acomodar apenas o essencial. A proposta é oferecer uma moradia sob medida para quem vive sozinho.

Vida compacta

O consultor Elmo é um exemplo desse novo perfil de morador. Divorciado e pai de um adolescente, ele vive sozinho em um apartamento de apenas 22 metros quadrados em São Paulo. O espaço integra cozinha, sala e quarto em um único ambiente.

“Tudo o que eu precisava, essencial, eu consigo colocar nesses 22 metros quadrados e ser muito feliz”, afirmou.

Para ele, morar sozinho não significa abrir mão de qualidade de vida. A única ausência que sente, segundo contou, é a do filho, que passa fins de semana alternados em sua casa.

A valorização da autonomia aparece também em outros dados. Os brasileiros estão se casando cada vez mais tarde. Segundo informações citadas no programa, a idade média ao casar é de 29 anos entre as mulheres e 31 anos entre os homens. Antes do casamento, muitos priorizam carreira, independência financeira e projetos pessoais.

Novos negócios

A expansão da vida solo também movimenta outros setores da economia. Serviços e produtos adaptados para moradores que vivem sozinhos ganharam espaço.

É o caso das marmitas vendidas pela empresária Lu. Além do restaurante que administra com o marido, ela encontrou em refeições prontas uma fonte de renda voltada principalmente ao público solteiro.

“Muitos clientes solteiros. Mais solteiro do que casado”, contou.

Segundo ela, a procura por refeições individuais e práticas acompanha uma rotina em que cozinhar diariamente nem sempre é prioridade.

Mudança de comportamento

Para especialistas ouvidos pelo programa, o crescimento da solteirice está ligado a transformações sociais mais amplas, como o aumento da autonomia feminina, a independência financeira e a ampliação das escolhas individuais.

Nesse contexto, morar sozinho deixou de ser visto apenas como uma etapa anterior ao casamento. Para muitas pessoas, tornou-se uma escolha permanente ou, ao menos, uma fase valorizada da vida adulta.

O resultado é uma adaptação em cadeia. Enquanto mais brasileiros optam por viver sós ou passam períodos maiores sem um relacionamento estável, o mercado imobiliário responde com apartamentos menores, projetos mais funcionais e soluções voltadas para quem busca praticidade, independência e autonomia no dia a dia.


Ver online: G1 / Globo Repórter