Há algo de simbólico em ver luz acesa à noite em prédios que, por décadas, serviram apenas ao expediente das nove às cinco. No Centro Histórico do Rio, essa imagem — antes rara — começa a finalmente repetir o panorama que prevalecia na cidade até os anos 40. Alguns antigos edifícios comerciais, muitos deles ícones da paisagem urbana carioca, estão sendo transformados em moradia por meio de projetos de retrofit para uso residencial, um movimento sustentável de ressignificar imóveis antigos, aproveitando fachadas antigas e vistosas e modificando plantas internas, que começa a alterar, de forma silenciosa e persistente, o próprio ritmo da região.
Isso ocorre após incremento forte no movimento cultural na região, impulsionado por monumentos, igrejas e centros culturais icônicos, ms também por pequenos empreendedores culturais que, incentivados pela Prefeitura, abriram mais de 40 novos negócios na região, assim como com a retomada da atratividade turística do velho centro, que recebe milhares de turistas e visitantes todas as semanas, o que trouxe também um grande movimento de gastronomia e entretenimento em regiões como o Polo da Praça XV, a rua do Senado, o Largo de São Francisco da Prainha, o Beco da Sardinha e regiões da Lapa.
A lógica da transformação de prédios comerciais ociosos em residenciais, por meio do retrofit, é simples e, ao mesmo tempo, poderosa: aproveitar o que já existe. Estruturas sólidas e por vezes com arquitetura poderosa, bem localizadas, cercadas por transporte público, equipamentos culturais, comércio tradicional e ruas que guardam a verdadeira memória da cidade. Em vez da demolição, a adaptação; no lugar do abandono, uma nova função urbana. A Prefeitura do Rio, por meio de iniciativas como o Reviver Centro e o Reviver Centro Patrimônio Pró-APAC, tem sido um dos motores desse processo ao criar estímulos legais e financeiros para que imóveis subutilizados voltem a cumprir um papel ativo na vida da cidade.
Para Leonardo Schneider, vice-presidente do Secovi Rio, o movimento representa algo maior do que uma simples mudança de uso imobiliário. Ele vê, conforme relatou o jornal O Dia, nos retrofits uma espécie de reencontro do Centro com sua antiga vocação residencial. Antes mesmo da consolidação da Zona Sul como área nobre, morar no coração da cidade era regra, não exceção. A volta de moradores, segundo ele, tende a puxar serviços, escolas, restaurantes e comércio de bairro, reconstruindo uma dinâmica urbana mais equilibrada e menos dependente do fluxo diário de trabalhadores. Faz coro a ele Lucy Dobbin, da Sergio Castro Imóveis: “estes novos moradores que têm vindo para os mais de 14.000 apartamentos novos já vendidos na região desde 2021 vão também ajudar a ocupar as salas comerciais que sobrarem, com médicos e profissionais que irão atender os moradores”. Dobbin lembra que não só os retrofits têm trazido moradores novos: vários prédios que eram mistos mas não tinham moradores há anos já estão batendo recorde de velocidade de locação e venda, como o caso do Edifício Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores – onde as unidades são apenas alugadas – na Sete de Setembro, ou o Marquês do Herval, na Rio Branco. “Temos vendido unidades para compradores que colocam tudo abaixo e transformam-nas em bonitas unidades estilo hotel, mobiliadas, e os retornos são sensacionais“, explica a profissional
Há também um aspecto ambiental difícil de ignorar. Reutilizar edifícios existentes reduz significativamente a produção de entulho e o consumo de novos materiais, além de preservar a identidade arquitetônica do Centro — algo que nenhuma torre genérica consegue substituir. Nesse sentido, o retrofit surge não apenas como solução econômica, mas como escolha urbana mais responsável e verde: uma escolha ESG, que acaba atraindo também pela beleza de estilos muito valorizados como o Art Déco, o Art Nouveau e até os prédios coloniais.
O caminho, porém, não é simples. Andre Kiffer, CEO da Inti Empreendimentos Imobiliários, lembrou à reportagerm de O Dia que cada prédio antigo é um caso à parte. Antes de qualquer obra, é preciso investigar estruturas, fundações e sistemas que muitas vezes não seguem padrões contemporâneos. O antigo Edifício Mesbla, hoje em processo de conversão para uso residencial com preservação de sua fachada histórica, é exemplo de como esses projetos exigem soluções técnicas específicas — e, frequentemente, investimentos elevados. O imóvel é tombado e tem uma bonita fachada Art Déco, sem contar a estonteante vista do Passeio Público, que vem recebendo promessas de cuidados especiais da Prefeitura. Nas imediações, um grande prédio de arquitetura mais inexpressiva estaria sendo vendido não para retrofit, mas para ser derrubado e substituído por duas torres, pelas mãos do executivo Raphael Zanola, da incorporadora Monza: especulou-se que poderia ser o prédio do IHGB – que prontamente desmentiu – mas tudo indica que deve ser o imóvel vizinho, de propriedade da São Carlos Empreendimentos e da Província Carmelitana, que sabidamente se encontrava à venda.
Especialistas em urbanismo alertam que o sucesso do processo depende de uma visão mais ampla. Para Wagner Rufino, professor da UERJ, é fundamental que parte dessas novas unidades seja acessível a diferentes faixas de renda, garantindo diversidade social e evitando que o Centro se torne um enclave restrito. O Reviver Proapac Patrimônio, programa que visa recuperar os sobradinhos e casarões subutilizados e caindo aos pedaços por toda a região pode ser uma inteligente solução para confrontar, com preços menores e mais acessíveis, estes grandes retrofits e lançamentos. Os lançamentos das grandes construtoras no centro têm sido vendidos entre R$ 12.000,00 e R$ 14.000,00 por metro quadrado, um valor que não raro gera multiplicadores inacessíveis às camadas mais populares; o valor tem oscilado em função da vista, microlocalização e do nível de infraestrutura de cada empreendimento. A idéia dos retrofits dos sobradinhos pode ser, além da grande jogada cultural de criar fachadas históricas – turísticas e atrativas – por todo o Centro, justamente gerar moradias que custem mais barato, pela ausência de infraestrutura condominial e, em alguns casos, elevador.
Já Gerônimo Leitão, da UFF, observou a O Dia que ainda persiste a ideia de que o Centro “não é lugar de morar”, um preconceito urbano que, segundo ele, só será superado com melhorias concretas em segurança, serviços públicos e qualidade do espaço urbano. Mas a região tem recebido investimentos massivos em conservação, embora ainda lute contra problemas graves de Ordem Pública, como a camelotagem clandestina, os cracudos, a mendicância e o furto de objetos metálicos, por conta da proximidade dos vários ferros velhos ilegais que operam sob as barbas das autoridades. “Uma das maiores tristezas para nós é ver que só a Prefeitura tem investido na região. A União tem um monte de imóveis abandonados, sub-utilizados, sem contar as repartições como o INSS e o IBGE, que ainda estão no ‘me engana que eu gosto’ do home office. Já o Governo do Estado parece ter crescente desprezo pela região, tendo levado daqui gigantes como a Secretaria de Saúde, e mantendo um sem número de imóveis abandonados, além de investir cada vez menos na segurança do Centro. Depois das 20h – sem o segurança presente – o negócio vira um Deus nos acuda“, diz Cláudio André de Castro, superintendente do Shopping Paço do Ouvidor, na rua Uruguaiana.
No comércio, as mudanças começam a ser sentidas. Aldo Gonçalves, presidente do SindilojasRio e do CDLRio, nota que áreas que já receberam novos moradores passam a ter movimento fora do horário comercial tradicional. Farmácias, mercados, bares e pequenos serviços ganham fôlego, enquanto o Centro começa a experimentar algo raro nas últimas décadas: vida cotidiana contínua, e não apenas pulsos diurnos seguidos de silêncio noturno.
Quem trabalha na região também percebe o potencial dessa transformação. A possibilidade de morar perto do emprego, a 5 minutos de qualquer meio de transporte, surge como uma promessa concreta de qualidade de vida, menos tempo no trânsito e uma relação mais íntima com a cidade. Um recente lançamento da Cury na Presidente Vargas – que está ficando pronto por agora – chega a ter uma estação de metrô praticamente na portaria, caso único na cidade. Para muitos, a presença de moradores e a existência de mais fachadas vivas – com lojas abertas – pode significar ruas mais vigiadas, comércio mais ativo e um Centro menos hostil após o fim do expediente e a debandada do Segurança Presente.
A região da rua da Quitanda, próxima à rua da Assembléia, deve ganhar muito breve milhares de moradores. O mastodonte que será construído, com 720 unidades, no Buraco do Lume, ao lado do Terminal Menezes Côrtes, não está sozinho. Ao lado do empreendimento que deve ser levado a termo pela Novolar, a construtora Canopus está em processo de compra de dois prédios na Rua da Quitanda, que vão se transformar num outro grande empreendimento. E, a poucos metros dali, pelas mãos da Prefeitura, com a utilização do agora popular método de desapropriação por hasta pública, será leiloado o terreno de quase 3.000m2 onde, após a quebra da construtora Veplan, instalou-se um estacionamento que vai da Quitanda até a Travessa do Ouvidor: espera-se que o terreno seja disputado a tapa pelos construtores.
Ainda não se trata de um renascimento completo — o Centro do Rio sabe ser paciente com suas próprias metamorfoses. Mas, entre tapumes, obras, leilões de imóveis históricos, agitadas mesas dos bares e restaurantes e as janelas novamente habitadas, muito se move. Aos poucos, o coração histórico da cidade parece ensaiar um retorno ao que sempre foi: um lugar de encontros, permanências e vida real, para além do horário comercial.