São Carlos, de Jorge Paulo Lemann, vende antigo Edifício Mesbla, e prédio icônico do Centro do Rio vai virar residencial
em O Globo, 28/janeiro
Incorporadora Inti pagou R$ 21,7 milhões; projeto já foi aprovado no Reviver Centro.
A São Carlos, administradora imobiliária controlada pelo “trio 3G” — Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles — está vendendo o antigo Edifício Mesbla, cuja torre-relógio art déco de cem metros de altura é um dos marcos arquitetônicos do Rio. Localizado em frente ao Passeio Público, na Cinelândia, o prédio corporativo será convertido em residencial pelos novos donos por meio do programa Reviver Centro. O empreendimento retomará, assim, a vocação original de um edifício projetado como moradia há 91 anos pelo francês Henri Sajous, o mesmo arquiteto do icônico Biarritz, da Praia do Flamengo.
A São Carlos faz mistério sobre a identidade da compradora do prédio, dizendo apenas se tratar de uma incorporadora. Mas a coluna apurou que a nova dona é a Inti Empreendimentos, cujo foco principal está na Zona Sul do Rio. Procurado pela reportagem, o sócio-diretor Andre Kiffer confirmou a transação e disse que o plano é lançar o residencial em abril, com Valor Geral de Vendas (VGV) estimado em R$ 120 milhões após o retrofit.
A companhia de Lemann vai embolsar R$ 21,7 milhões com a venda e receberá 30% do potencial construtivo em bairros valorizados da cidade — uma das contrapartidas do programa municipal de fomento a empreendimentos residenciais no Centro; o objetivo da São Carlos é vender esse potencial no mercado.
O projeto para converter o Passeio 56 — nome atual do edifício — em residencial foi aprovado pelo Reviver Centro ainda em 2023 pela São Carlos, que já procurava um comprador para o prédio. A licença autorizou a criação de 122 apartamentos e duas unidades comerciais, totalizando 15,5 mil metros quadrados de área total construída (ATC).
— Como, na origem, o prédio foi residencial, tendo inclusive elementos como sacada em sua arquitetura, ele tem um “fit” perfeito para esse movimento de novos residenciais no Centro do Rio. Temos visto o sucesso de projetos de moradias na região; é uma transação que gera lucro para o novo balanço e, ao levar mais fluxo à região, favorece nosso portfólio corporativo no Centro — disse à coluna o CEO da São Carlos, Gustavo Mascarenhas.
Apenas 16% da área do Passeio 56 estavam alugados. Com a venda, a São Carlos vai mover os atuais inquilinos para o edifício ao lado, o Passeio 42, que também faz parte do seu portfólio e terá sua ocupação elevada para quase 90% com a mudança, afirmou Mascarenhas.
Letreiro clássico
A loja que ocupa o térreo dos dois prédios continuará na carteira da São Carlos. A antiga loja de departamentos Mesbla, que marcou época no varejo brasileiro, ocupou o espaço dos anos 1950 até 1999, exibindo no alto do edifício um letreiro luminoso que se incorporou ao skyline carioca. Mais recentemente, a locatária foi a Americanas, que desocupou o imóvel em 2023, quando a crise envolvendo a varejista estourou.
Com o impulso do Reviver Centro e da demanda aquecida por imóveis do tipo “estúdio” e próximos ao metrô, a região central da cidade vem atraindo projetos residenciais. Só o programa municipal concedeu 42 licenças desde meados de 2021 até agora, a maioria para retrofits. A gestora canadense Brookfield, por exemplo, vai reformar o Edifício Glória, na Cinelândia, e destinar as unidades à locação de moradia. Ela também comprou 97% dos apartamentos do futuro residencial do antigo Edifício A Noite, na zona portuária, que está sendo retrofitado pela Azo.
Ali perto está o Casa Mauá, lançado pelo Opportunity no fim de 2023 no prédio onde funcionava o Hotel São Francisco. Na Pedra do Sal, a construtora CTV e a gestora Pilar Capital realizaram um retrofit no prédio que, décadas atrás, foi a redação de um dos jornais de Assis Chateaubriand. Agora, a dupla fará o mesmo com a antiga sede da Companhia Docas no Rio, na Rua Acre.
Novos projetos
— Com essa transação, ficaremos ainda com oito prédios no Centro do Rio. Em mais dois ou três deles enxergamos potencial de venda para futuro residencial. Alguns já estão com projetos aprovados, e vamos buscar potenciais compradores — acrescentou o CEO da São Carlos, cuja carteira no Rio inclui imóveis como o Centro Empresarial Visconde de Ouro Preto, na Praia de Botafogo; o Centro Administrativo Cidade Nova e o City Tower (antiga sede do Citibank), em frente à Praça da Carioca.
A São Carlos havia comprado o Edifício Mesbla em 2003 das mãos do antigo Banco de Crédito Nacional (incorporado ao Bradesco).
Avaliada em quase R$ 1 bilhão na Bolsa, a São Carlos fez diversas transações nos últimos anos para reduzir a alavancagem do seu balanço. No fim de 2023, a empresa vendeu numa só tacada quatro prédios no Rio e em São Paulo, levantando R$ 865 milhões. Entre os edifícios estavam o Centro Empresarial Botafogo (CEB), na Zona Sul do Rio; e a Morumbi Office Tower (MOT).
— Aquela transação foi transformadora. Agora temos um balanço saudável e o que buscamos com eventuais operações é o retorno financeiro. No caso do Centro do Rio, ainda não estamos avaliando novas aquisições; estamos focados em melhorar a operação do portfólio e vender ativos que gerem valor para nossa carteira na região — explicou o CEO.
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